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sexta-feira, 8 de abril de 2016

Os Pecados Mortais - A Gula



Os Pecados Mortais - A Gula

A gula é o amor desordenado de todo o tipo de excessos, sejam eles comida, bebida ou outros. 

É o abuso do prazer legítimo que Deus quis acompanhasse o comer e o beber, tão necessários à conservação do indivíduo.

Mas também o desejo desordenado por excesso de livros, doutrinas, iniciações, nada é suficiente, nada lhe chega, o guloso quer sempre mais e mais, nunca consegue ficar 'satisfeito', nunca nada é 'suficiente'.

A gula é o pecado capital que contrasta com a virtude da temperança. 

Seus excessos levam à degradação do próprio corpo humano, que uma vez sendo alimentado com mais do que necessita, perde o seu equilíbrio natural e saudável. A saúde esvai-se se não mantida com a temperança.

Para Evágrio e Santo Agostinho, a Gula era um pecado, pois representava o excessivo gosto por questões materiais.

Para Evágrio as pessoas deveriam evitar os vícios e de se apegarem as coisas mundanas. 

Se alimentar é essencial, porém, naquela época se entendia que a pessoa que se dedicava a passar parte do seu dia apenas comendo e bebendo, acabava esquecendo de outros afazeres, negando obrigações, e de certa forma esquecendo-se de Deus.

O se "esquecer" de Deus refere-se a duas linhas de entendimento: a primeira, é que o glutão ou guloso, não passaria a dedicar parte de seu tempo a orar para Deus, e ao mesmo tempo não realizaria outras atividades.   


Segundo, a Gula vai de encontro a ideia pregada por Cristo durante a Última Ceia, onde o mesmo compartilhou com os apóstolos o pão e o vinho, e realizou o simbolismo de que o pão seria sua "carne" e o vinho o seu "sangue".  

Quando a pessoa come de forma gulosa, é considerado uma afronta a essa metáfora de Cristo e ao ensinamento da temperança e da partilha. 

Ou seja, aquele que come muito e bebe muito, de certa forma está tirando o acesso a tais alimentos de outras pessoas, está agindo de forma gananciosa e egoísta, pois milhões de pessoas padecem de fome diariamente.


Natureza da Gula

A desordem da Gula consiste em procurar o prazer do alimento, por si mesmo, considerando explícita ou implicitamente como um fim, a exemplo daqueles que fazem do seu ventre um deus, ou em o procurar com excesso, sem respeitar as regras que dita a sobriedade, algumas vezes até com prejuízo da saúde.
 
Os teólogos assinalam quatro maneiras diversas de faltar a essas regras:

1) Comer antes de sentir necessidade, fora das horas marcadas para as refeições, e isto sem motivo legítimo, só para satisfazer a gula.
  
2) Buscar iguarias esquisitas ou preparadas com demasiado apuro, para gozar delas mais; é o pecado dos gulosos ‘gourmet’ ou gastrônomos.
 

3) É ultrapassar os limites do apetite ou da necessidade, enfartar-se de comida ou bebida, com risco de arruinar a saúde; é evidente que só o prazer desordenado pode explicar este excesso, que no mundo se chama glutonaria.

4) Comer com avidez, com sofreguidão, como fazem certos animais; e esta maneira de proceder é considerada no mundo como grosseria.

A obesidade, a embriaguez, a alcoolismo, etc., são consequências geradas pela Gula.

  
A malícia da gula 
A malícia da gula vem de escravizar a alma ao corpo, materializar o homem, enfraquecer a vida intelectual e moral, preparando-o, por um pendor insensível, ao prazer da volúpia, que, em substância, é do mesmo gênero. 

Para lhe determinarmos com precisão a culpabilidade, importa fazer esta distinção.

A)  A gula é falta grave:

a)  Quando chega a excessos tais que nos torne incapazes, por tempo notável, de cumprir os nossos deveres de estado ou obedecer às leis divinas ou eclesiásticas; por exemplo, quando prejudica a saúde, quando dá origem a despesas loucas que põem em risco os interesses da família, quando leva a faltar às leis da abstinência ou do jejum.

b)  O mesmo se diga, quando se torna causa de faltas graves.

Os excessos da mesa, dispõem à incontinência, que é filha da gula.

Incontinência dos olhos e dos ouvidos, que vão buscar pasto doentio aos espetáculos e canções licenciosas; incontinência do pensamento que, extraviando-se, se derrama sobre os objetos ilícitos; incontinência da vontade, que abdica para se escravizar aos sentidos... 


A intemperança da mesa leva à intemperança da língua. 
Que faltas não comete a língua no decurso de banquetes pomposos e prolongados!

Faltas contra a gravidade!... Faltas contra a discrição! 
Atraiçoam-se os segredos que havia promessa de guardar, segredos profissionais que são sagrados, e entrega-se à malignidade a reputação dum marido, duma esposa, duma mãe, a honra duma família, quando não é o futuro duma nação.

Faltas contra a justiça e caridade! 
A maledicência, a calúnia, a detração, sob as suas formas mais inescusáveis, exprimem-se com uma liberdade desconcertante... 

Faltas contra a prudência! 
Tomam-se compromissos que não será possível guardar, sem ofender todas as leis da moral....



B) A gula não passa de falta venial, quando alguém cede aos prazeres da mesa imoderadamente, mas sem cair em excessos graves, sem se expor a infringir qualquer preceito importante. Assim, por exemplo seria pecado venial comer ou beber mais do que de costume, por prazer, para fazer honra a um lauto banquete ou agradar a um amigo, sem cometer excesso notável.

C) Sob o aspecto da perfeição, é a gula um obstáculo sério:

1) Enfraquece a vontade e desenvolve o amor do prazer sensual que prepara a alma para capitulações perigosas;

2) É fonte de muitas faltas, produzindo uma alegria excessiva, que leva à dissipação, à loquacidade, aos gracejos de gosto duvidoso, à falta de recato e modéstia, e abre assim a alma aos assaltos do demônio. 
Importa, pois, combatê-la.

A gula trava luta constante entre o prazer da carne e o crescimento espiritual, afastando o homem de Deus, que se torna no furor do seu apetite, negligente com a alimentação espiritual.


Remédio 

O princípio que nos deve dirigir na luta contra a gula, é que o prazer não é fim, senão meio, e que por conseguinte, deve ser subordinado à reta razão iluminada pela fé . 
Ora, a fé diz- nos que é necessário santificar os prazeres da mesa com pureza de intenção, sobriedade e mortificação.

1) Antes de tudo, é preciso tomar as refeições com intenção reta e sobrenatural, não como o animal que não busca mais que o prazer, não como o filósofo que se limita a uma intenção honesta, senão como cristão, para melhor trabalhar na glória de Deus: com espírito de reconhecimento para com a bondade de Deus que se digna conceder-nos o pão de cada dia; com espírito de humildade, dizendo-nos a nós mesmos, com São Vicente de Paulo, que não merecemos o pão que comemos; com espírito de amor, empregando as forças, que recuperamos, no serviço de Deus e das almas. 

«Quer comais, quer bebais, fazei tudo para glória de Deus (I Cor. 10,31)» 



2) Esta pureza de intenção nos fará guardar a sobriedade ou justa medida: e na verdade, se queremos comer para adquirir as forças necessárias ao cumprimento dos nossos deveres de estado, evitaremos todos os excessos que poderiam comprometer-nos a saúde.

Ora, dizem-nos os higienistas, a «sobriedade (ou frugalidade) é a condição essencial do vigor físico e moral».
Já que comemos para viver, devemos comer sadiamente para sadiamente viver. 
Fujamos, pois, de comer ou beber demais... 
Devemos levantar-nos da mesa com uma sensação de leveza e vigor, ficar um pouco aquém do apetite, e evitar ficar entorpecidos com os excessos da lauta mesa.

É bom, contudo, observar que a medida não é a mesma para todos. 

À sobriedade junta o cristão a prática de algumas mortificações.

A)  Como é fácil escorregar por esta ladeira e conceder demais à sensualidade, convém privar-nos, de vez em quando, de alguns acepipes de que gostamos, úteis até, mas não necessários. 
Desse modo se adquire domínio sobre a sensualidade, privando-a de algumas satisfações legítimas; desembaraça-se o espírito da servidão dos sentidos, dá-se-lhe mais liberdade para a oração e para o estudo e evitam-se muitas tentações perigosas.

B)  É uma excelente prática habituar-se a não tomar refeição alguma, sem nela fazer qualquer mortificação. É excelente prática habituar-se a comer um pouco de que não agrada.

C)  Entre as mortificações mais úteis, contamos as que se referem a bebidas alcoólicas, onde a regra é o uso moderado sem excessos viciosos.


Na Divina Comédia de Dante os pecadores da gula são castigados no 6º nivel do Purgatório. 

Aqui transitam os gulosos. 
Essas almas têm os olhos enegrecidos, encovados, batem os dentes mastigando o vazio, são pálidas e tão magras que suas faces mostram-se desfiguradas e é possível ver o fantasma de seus ossos. 
A pena torna-se mais aflitiva porque o Sexto Terraço é um pomar pleno de frutos e repleto de veios de água pura e cristalina. 
Porém, as almas do gulosos não podem comer nem beber porque os frutos e as águas fogem de suas mãos. 

É um jejum que parece sem fim.

Aí, os gulosos se encontravam nus e com aparência esquelética, aparência de pessoas passando fome e com sério grau de desnutrição; com os ossos salientados sob a carne magra. 

Aqui a pena para a gula é oposto do que os gulosos fizeram em vida, ou seja, em quanto vivos, abusaram da comilança e da bebedeira, e agora no Purgatório passariam fome, na tentativa de se redimirem de seus pecados e conseguirem o perdão, senão, cairiam no Inferno, onde seriam atacados por Cérbero.

No inferno os pecadores da gula eram castigados no Terceiro Ciclo, onde se encontravam sob uma forte tempestade com chuva, neve e granizo, além de serem arranhados e devorados por Cérbero, o cão de três cabeças que na mitologia grega era o guardião dos Portões do Inferno.


Gera:

Estupidez - A inteligência indisposta pelos vapores que sobe à cabeça e que impedem a reflexão, a oração, etc.

Alegria vã - A razão perde a sua ascendência sobre a vontade; já não manda, porque “o vinho faz crer que tudo é bem estar e felicidade".

Loquacidade - Desordem nas palavras: "a língua agita-se a torto e a direito".

Palhaçada - Desordem dos gestos: "tudo é bom para rir".

Impureza - Desordem do corpo: a falta de asseio, falta de reserva e todas as espécies de excessos.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Os pecados mortais - A Inveja




A inveja

"Tristeza com o bem de outrem, porque esse bem é entendido como uma diminuição da sua própria excelência pessoal"

A inveja é um dos mais terríveis pecados que podemos cometer, porque ter inveja é sentir desgosto, raiva ou tristeza por ver o bem ou a felicidade do próximo, que deveríamos amar como a nós mesmos. 

Podemos notar, por esse prisma, o quanto estamos afastados do Caminho. 

A inveja é um dos frutos da natureza humana que, entre outros, causa profundas feridas na vida espiritual. 

Essas feridas são graves, a ponto de lançar os que se entregam à inveja numa existência de trevas.

Tudo se complica ainda mais pelo fato de a inveja ser um pecado que pode passar desapercebido pelas pessoas ao redor, mas que internamente consome as vidas dos que a ela se entregam.


A cobiça das coisas que não nos pertencem é a marca do pecado da inveja. 

É assim que a inveja pode levar ao roubo, outra desobediência aos Mandamentos de Deus e grave pecado capital.
 ‘’A paz de espírito dá saúde ao corpo, mas a inveja destrói como o câncer.” (Pv 14, 30)
 “O ódio é cruel e destruidor, mas a inveja é ainda pior.” (Pv 27, 4)


A inveja é, ao mesmo tempo, paixão e vício capital, diretamente oposto à virtude da caridade. 
Como paixão, é uma espécie de tristeza profunda que se experimenta na sensibilidade à vista do bem que se observa nos outros; esta impressão é acompanhada duma constrição do coração que lhe diminui a atividade e produz um sentimento de angústia.


Dante Alighieri reservou o segundo Circulo do Purgatorio aos invejosos que, como castigo, tinham os olhos costurados com arame para que não fossem capazes de ver a luz.


A Natureza da Inveja

A) A inveja é uma tendência a entristecer-se do bem de outrem, como se fosse um golpe vibrado à nossa superioridade. 
Muitas vezes é acompanhada do desejo de ver o próximo privado do bem que nos faz sombra.
Nasce, pois, do orgulho este vício, que não pode tolerar superiores nem rivais. 

Quando um está convencido da própria superioridade, entristece-se, ao ver que outros são tão bem ou melhor dotados que ele, ou que ao menos alcançam maiores triunfos. 
Objeto da inveja são sobretudo as qualidades brilhantes; contudo em homens sérios também o podem ser as qualidades sólidas e até a virtude.
Manifesta-se este defeito pela mágoa que um sente, ao ouvir louvar os outros; e então procura-se atenuar esses elogios, criticando os que são louvados.


B) Muitas vezes confunde-se a inveja com o ciúme; quando se distinguem, define-se este como um amor excessivo do seu próprio bem, acompanhado do temor de que nos seja arrebatado por outros. 
Este era, por exemplo, o primeiro do seu curso; notando os progressos dum condiscípulo, começa a ter-lhe ciúme, porque receia que ele lhe leve o primeiro lugar. 

Aquele possui a afeição dum amigo: começando a temer que ela lhe seja disputada por um rival, entra a ter ciúmes. Aquele outro tem uma numerosa clientela, e entra a recear que ela diminua por causa dum concorrente. Daí aquele ciúme que por vezes grassa entre profissionais artistas, literatos, e às vezes até sacerdotes.   

Numa palavra, tem-se inveja do bem de outrem e ciúme do seu próprio bem.


C) Há diferença entre a inveja e a emulação: esta é um sentimento louvável que nos leva a imitar, igualar, e, se possível for, a sobrepujar as qualidades dos outros, mas por meios leais.

O invejoso é um insatisfeito compulsivo e, geralmente, desconhece esta condição; sente secretamente e de forma dissimulada um grande rancor contra as pessoas que são invejadas por possuírem alguma coisa (beleza, dinheiro, êxito, poder, liberdade, amor, personalidade, experiência, felicidade, etc.) que o invejoso deseja mas não tem ou não quer ter. 
O invejoso é, neste sentido, uma pessoa incompleta, uma pessoa defeituosa aos seus próprios olhos.

O invejoso não aceita as suas carências ou não tem motivação e coragem para superá-las e simplesmente odeia e deseja destruir toda pessoa que lhe recorda estas carências. 
Toda vez que o invejoso vê o invejado, ele se coloca ante um espelho que reflete, não as suas qualidades, mas os seus defeitos e suas carências.

Para o psicólogo, a inveja, além de ser um pecado capital que condena o pecador ao inferno, é um comportamento doentio que caracteriza pessoas imaturas, insatisfeitas e neuróticas. 
A inveja, neste caso, pode ser curada com a maturação da personalidade e resolução das carências vivenciadas ou imaginadas.

A pessoa madura e resolvida,  não inveja nada.


 A Malícia da Inveja 

Pode-se estudar esta malícia em si e nos seus efeitos.

A) Em si, é a inveja pecado mortal, de sua natureza, porque é diretamente oposto à virtude da caridade, que exige nos regozijemos do bem dos outros. 
Quanto mais importante é o bem que se inveja, tanto mais grave é o pecado; e assim diz, Santo Tomás, ter inveja dos bens espirituais do próximo, entristecer-se dos seus progressos ou dos seus triunfos apostólicos é gravíssimo pecado. 
É isto verdade, quando estes movimentos de inveja são plenamente consentidos; muitas vezes, porém, não passam de impressões, ou sentimentos irrefletidos, ou ao menos pouco refletidos e voluntários: neste último caso, não passa de venial a falta.


B) Nos seus efeitos, é a inveja muitas vezes sobremaneira culpável:

a) Excita sentimentos de ódio: corre-se risco de odiar aqueles de que se tem inveja ou ciúme, e, por conseqüência, de falar mal deles, de os desacreditar, caluniar, ou de lhes desejar mal.

b) Tende a semear divisões, não somente entre estranhos, mas até no seio das famílias , ou entre famílias aliadas; e estas divisões podem ir muito longe e criar inimizades e escândalos.

c) Impele à conquista imoderada das riquezas e das honras: para sobrepujar aqueles a quem tem inveja, entrega-se o invejoso a excessos de trabalho, a manobras mais ou menos leais, em que se encontra comprometida a honradez.

d) Perturba a alma do invejoso: não há paz nem sossego, enquanto se não consegue eclipsar, dominar os próprios rivais; e, como é muito raro que se chegue a alcançá-los, vive-se em perpétuas angústias.


Remédios da Inveja

São negativos ou positivos.

A) Os meios negativos consistem:

a)  em desprezar os primeiros sentimentos de inveja ou ciúme que se levantam no coração, em os esmagar como coisa ignóbil, à maneira de quem esmaga um réptil venenoso;

b) em divertir o pensamento para outra coisa qualquer; e, depois de restabelecido o sossego, refletir então que as qualidades do próximo não diminuem as nossas, antes nos são incentivo para as imitarmos.

B) Entre os meios positivos, dois há mais importantes:

a) Somos todos irmãos, todos membros do corpo místico que tem a Jesus por cabeça, e tanto as qualidades como os triunfos dum desses membros redundam sobre os demais; em vez, pois, de nos entristecermos, devemos antes regozijar-nos da superioridade dos nossos irmãos,  já que ele contribui para o bem comum e até mesmo para o nosso bem particular. 

b) O segundo meio é cultivar a emulação, esse sentimento louvável e cristão, que nos leva a imitar e sobrepujar até, apoiando-nos na graça de Deus, as virtudes do próximo.


Para ser boa e se distinguir da inveja, deve ser a emulação cristã:

1)  honesta no seu objeto, isto é, ter por objeto não os triunfos, senão as virtudes dos outros, para as imitar;

2)  nobre na sua intenção, não procurando triunfar dos outros, humilhá-los, dominá-los, senão tornar-se melhor, se é possível, para que Deus seja mais honrado e a Igreja mais respeitada;

3)  leal nos seus meios de ação, utilizando, para chegar os seus fins, não a intriga, a astúcia, ou qualquer outro processo ilícito, senão o esforço, o trabalho, o bom uso dos dons divinos.

Assim entendida, é a emulação remédio eficaz contra a inveja, porque não fere em nada a caridade e é, ao mesmo tempo, um excelente estímulo. 
E na verdade, considerar como modelos os melhores dentre os nossos irmãos para os imitar, ou até mesmo para os sobrepujar, é, afinal, reconhecer a nossa imperfeição e querer dar-lhe remédio, aproveitando os exemplos dos que nos rodeiam. 
Assim não será para nós a inveja senão uma ocasião de praticar a virtude.

Outra boa prática de combate a este pecado devastador é pedir ao Espírito Santo que lhe dê a sensibilidade para perceber essa fraqueza ainda no início (em sua mente), reconhecendo que está sentindo inveja, enquanto ela ainda não é mais forte que o seu desejo de fazer o que é certo e ser santo. 

A decisão e o esforço para viver em santidade são seus. 
Assim não deixará as portas abertas para qualquer tipo de cobiça das coisas ou qualidades do seu próximo.

Gera :

Cochichos - Procurar rebaixar a glória de alguém falando em segredo.

Maledicência - em seguida, fere-se a sua reputação, dizendo abertamente mal.

Alegria com o mal de outrem - Se o mal chega a alguém: "É bem feito!"

Tristeza pelo seu bem - Inveja-se a pessoa pelos seus bens materiais e espirituais (este último ponto é um pecado contra o Espírito Santo).

Rancor pelo próximo - Deseja-se mal ao próximo.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Os Pecados Mortais- A Ira ou Cólera


A Ira ou Cólera

A Ira é uma aberração daquele sentimento instintivo que nos leva a defender-nos, quando somos atacados, repelindo com força. 

A Ira manifesta-se nos acesso de cólera característicos, mas também na impaciência, na intolerância para com os outros e as suas (deles) fraquezas.
Manifesta-se também em maus modos quando a pessoa é contrariada.
Ou quando os planos não correm como gostaria que corressem.
Há mesmo uma Cólera que volta a pessoa contra si própria, se a pessoa é contrariada.

 Natureza da ira.


Há ira paixão e ira sentimento.

1.º A ira, considerada como paixão, é uma necessidade violenta de reação, determinada por um sofrimento ou contrariedade física ou mo­ral. 
Esta contrariedade desencadeia uma emoção violenta que distende as forças no intuito de vencer a dificuldade: sentem-se então impulsos de descarregar a cólera sobre pessoas, animais ou coisas.

Distinguem-se duas formas principais: a cólera rubra ou expansiva nos fortes, e a cólera branca ou pálida, ou espasmódica nos fracos. 

Na primeira, bate o coração com violência e impele o sangue para a perife­ria: acelera-se a respiração, purpureia-se o rosto, incha o pescoço, dese­nham-se as veias sob a pele; eriçam-se os cabelos, faísca o olhar, saltam das órbitas as pupilas, dilatam-se as narinas, enrouquece a voz, entre­cortada, exuberante. 
Aumenta a força muscular, todo o corpo se disten­de para a luta, e o gesto irresistível fere, quebranta ou afasta violenta­mente o obstáculo. 

Na cólera branca, contrai-se o coração, torna-se a respiração difícil, cobre-se a face de palidez extrema, goteja a fronte suor frio, cerram-se as maxilas, guarda-se um silêncio impressionante; mas a agitação, contida no interior, acaba por estalar brutalmente, des­carregando-se por meio de golpes violentos.


2.º A ira, considerada como sentimento, é um desejo ardente de repelir e castigar um agressor.

A) Há uma cólera legítima, uma santa indignação, que não é senão o desejo ardente, mas radical, de infligir aos criminosos o justo castigo. 
Foi assim que Cristo Senhor Nosso entrou em justa cólera contra os vendilhões que com o seu tráfico contaminavam a casa de Seu Pai;

Para ser legítima, a cólera tem que ser:

a)  justa no seu objeto, não tendo em vista senão castigar a quem o merece e na medida em que o merece;
b)  moderada no seu exercício, não indo mais longe do que reclama a ofensa cometida e seguindo a ordem que demanda a justiça;
c)  caritativa na sua intenção, não se deixando arrastar a sentimen­tos de ódio, não procurando senão a restauração da ordem e a emenda do culpado. 


Qualquer destas condições que falte, haverá excesso repre­ensível. 
É sobretudo nos superiores e pais que a cólera é legítima; mas os simples cidadãos têm por vezes direito e dever de se deixarem infla­mar de cólera santa, para defenderem os interesses da cidade e impedi­rem o triunfo dos maus; é que, efetivamente, há homens que a doçura deixa insensíveis, e nada temem senão o castigo.
          
B) Mas a cólera, que é vício capital, é um desejo violento e imoderado de castigar o próximo, sem atender às três condições indica­das. Muitas vezes é a cólera acompanhada de ódio, que procura não somente repelir a agressão, mas ainda tirar dela vingança; é um senti­mento mais refletido, mais duradouro, e que por isso mesmo tem mais graves conseqüências.


3. ° A cólera tem graus:

a) ao princípio, é apenas um movimento de impaciência: mostra-se mau humor à primeira contrariedade, ao primeiro revés;

b) depois, é arrebatamento, que faz que um se irrite desmedidamen­te e manifeste o descontentamento com gestos desordenados;

c) às vezes, vai até à violência e traduz-se somente por palavras, mas até por golpes;

d) pode chegar ao furor, que é uma loucura passageira; o colérico nesse caso já não é senhor de si mesmo, mas deixa-se arrebatar a pala­vras incoerentes, a gestos tão desordenados que antes se diriam um verdadeiro acesso de loucura;

e) enfim, degenera por vezes em ódio implacável que não respira mais que vingança e vai até desejar a morte do adversário. Importa dis­cernir estes graus, para apreciar a sua malícia. 



Na Divina Comédia, Dante coloca a Ira no no Quinto Ciclo do Inferno, quem comete o pecado da Ira era atirado no Lago Estiges, e se agrediam violentamente tentando sair do lago que parecia um pântano.
Contudo tais pecadores nunca conseguiriam sair do lago e passariam a eternidade se agredindo dentro dele.
Já no Purgatório, Dante conta que os irados eram punidos no Terceiro Ciclo, onde viviam em meio a uma densa fumaça e cantavam o hino da misericórdia.
A fumaça seria uma alusão à "cegueira" causada pela Ira. 


Malícia da ira

Podemo-la considerar em si mesma e nos seus efeitos.

1. ° Em si mesma, pode sugerir ainda várias distinções:

A) Quando a cólera é simplesmente um movimento transitório de paixão, é de sua natureza pecado venial: porque então há excesso na maneira por que ela se exerce, neste sentido que ultrapassa a medida, mas não há, assim o supomos, violação das grandes virtudes da justiça ou da caridade. 
Há casos contudo em que é tal o excesso, que o coléri­co perde o domínio de si mesmo e se deixa arrastar a graves insultos contra o próximo. 
Se estes movimentos, posto que passionais, são deli­berados e voluntários, constituem falta grave; muitas vezes, porém, não passam de semi-voluntários.

B) A cólera, que chega a ódio e rancor, quando é deliberada e voluntária, é pecado moral de sua natureza, porque viola gravemente a caridade e muitas vezes a justiça. 
Mas, se o movimen­to de ódio não é deliberado, ou se não se lhe dá senão consentimento imperfeito não passará de leve a falta.


2. ° Os efeitos da cólera, quando não são reprimidos, são às vezes terríveis.

A) Sêneca descreveu-os em termos expressivos: atribui-lhes trai­ções, assassínios, envenenamentos, divisões intestinais nas famílias, dissensões e lutas civis, guerras com as suas funestas conseqüências. 
Ain­da quando não chega a tais excessos, é fonte dum sem-número de faltas, porque nos faz perder o senhorio de nós mesmos, e em particular per­turba a paz das famílias e cria inimizades tremendas.

B) Sob o aspecto da perfeição, é a ira, diz São Gregório, um grande obstáculo ao progresso espiritual. 
     É que, de fato, se a não repri­mimos, faz-nos perder:

    a sabedoria ou a ponderação;
    a amabilidade, que faz o encanto das relações sociais;
    a preocupação da justiça, porque a paixão impede de reconhecer os direitos do próximo;
    o recolhimento interior, tão necessário à união íntima com Deus, à paz da alma, à docilidade, às inspirações da graça. Importa, pois, en­contrar-lhe o remédio.


 Remédios contra a ira 

Estes remédios devem combater a paixão da cólera e o sentimento do ódio que às vezes dela resulta.

1. ° Para triunfar da paixão, não se deve descurar meio nenhum.

A) Há meios higiênicos, que contribuem para prevenir ou moderar a cólera: tais são um regime alimentício emoliente, banhos tépidos, duchas, abstenção de bebidas excitantes, e em particular das alcoólicas: por causa da união íntima entre o corpo e a alma, é mister saber moderar o mesmo corpo. 


B) Mas os remédios morais são ainda melhores.

a) Para prevenir a cólera, é bom acostumar-nos a refletir, antes de fazer qualquer coisa, para nos não deixarmos dominar pelos primeiros ímpetos da paixão: trabalho de longa duração, mas eficacíssimo.

b)  Quando esta paixão, a despeito de todas as cautelas, nos sobres­saltou o coração, «melhor é sacudi-la com presteza que querer negociar com ela; porque, por pouco lugar que lhe demos, se faz senhora de toda a praça, havendo-se como a serpente que introduz facilmente todo o corpo, por onde pode meter a cabeça... E mister, logo que a sentirdes, convocar prontamente vossas forças, não áspera nem impetuosamente, mas suave e ainda assim seriamente». 
Aliás, se quisermos reprimir a cólera com ímpeto, mais nos perturbaremos.

c)  Para melhor sofrear a ira, é útil divertir a atenção, isto é, pensar em qualquer coisa diversa do que a possa excitar; é necessário, pois, desterrar a lembrança das injúrias recebidas, afastar as suspeitas, etc.

d)  Devemos invocar o auxílio de Deus, quando nos vemos agita­dos pela cólera, à imitação dos Apóstolos, combatidos pelo vento e tem­pestade no meio do mar, porque Deus mandará às nossas paixões que sosseguem e sobrevirá grande tranquilidade.

Como ensina Isabel da Trindade, ''quando te sobreveêm estas agitações, imprevistos e contrariedades, desce para o mais fundo de ti, onde tens uma cela pequenina e onde sabes que Deus lá se encontra à tua espera,  descansa Nele e espera para Ele te instruir a seu tempo. Assim te acalmas, dás tempo ao tempo e não te deixas levar para fora de ti por movimentos coléricos e impetuosos que só danificam a tua alma e não te deixam avançar no caminho da salvação dela.''

          
2. ° Quando a cólera excita em nós sentimentos de ódio, ran­cor ou vingança, é impossível curá-los radicalmente com outro remédio que não seja a caridade fundada no amor de Deus. 
É caso, então, de nos lembrarmos que somos todos filhos do mesmo Pai celestial, incorpora­dos no mesmo Cristo, chamados à mesma felicidade eterna, e que estas grandes verdades são incompatíveis com qualquer sentimento de ódio. Assim pois:

a) Recordaremos as palavras do Pai-Nosso: perdoai-nos as nossas (dívidas), assim como nós perdoamos (aos nossos devedores); e como desejamos vivamente receber o perdão divino, de mais bom grado per­doaremos aos nossos inimigos.


b) Não esqueceremos os exemplos de Cristo Senhor Nosso, cha­mando a Judas Seu amigo, ainda no momento da traição, e orando do alto da cruz pelos próprios verdugos; e pedir-lhe-emos ânimo para es­quecer e perdoar.

c) Evitaremos pensar nas injúrias recebidas e em tudo que a elas se refira. 
Os perfeitos orarão pela conversão de quem os ofendeu, e encon­trarão nesta prece bálsamo suavíssimo para as feridas da sua alma.