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sábado, 30 de maio de 2020

Deus e o Barco da Vida

Deus e o Barco da Vida

Deus está no barco, mas não é o piloto.
O piloto somos nós.
O barco sofre tempestades mas não se afunda pois Deus está lá dentro a dormir.

Porque razão Deus não comanda o navio ?
Porque nos deu livre arbitrio segundo as capacidades de cada um.

Porque dorme Deus no barco?
Ele dorme com um olho aberto e outro fechado, evitando que se afunde e mantendo-nos a 'flutuar', agitados, angustiados, sofredores mas.....vivos a resistir com a Sua Presença. Ele está a dormir porque está à nossa espera, à espera que abrissemos os olhos e fossemos ter com Ele para fazermos a Sua Vontade.

Durante a viagem no barco para que servem as tempestades e as bonanças?
As tempestades servem para percebermos o nosso Nada, para nos melhor conhecermos, para nos abrigarmos em Deus.
As bonanças para nos prepararmos para melhor resistir nas próximas tempestades.
São tempo de recreio e preparação, não de férias, férias só quando se chega ao porto.
Na vida espiritual também não há férias apenas recreios.
Férias, só começam uma vez, e são eternas.
 


Algum dia Deus toma o comando do barco?
Quando nós nos desapegarmos das coisas do mundo, da nossa ânsia de controle do que se passa à nossa volta e da nossa vontade própria e percebermos que a nossa Liberdade e a nossa missão na terra é fazer A outra Vontade, a Vontade do Criador.
Aí Deus toma o comando, pois aí nós e Deus somos uma só Vontade.

Alguma vez Deus abandona o barco?
Pergunta complexa que envolve os Mistérios da Criação, talvez não a 100% mas com o olho aberto cada vez mais 'fechado'....face ao afastamento do homem para os 'maus' caminhos, radicalismos, fanatismos, obsessões, ruptura de personalidade, crises psiquiátricas de rotura da consciência, o barco até pode virar e afundar em caso de suicidio.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

6 Práticas de Purificação Espiritual


6  Práticas de Purificação Espiritual em periodo de Quaresma cristã ou Renascimento Interior

1)  Desconfiar do nosso afeto de propriedade  (instinto de posse)

Quem tem fome, impacienta-se enquanto não come.
Quem se impacienta, apega-se a algo, neste caso, o alimento, e perde o controle de si como Ser  Livre-Desapegado, perde a Paz  Interior e desvia-se da Estrada Real.
Quem assim se encontra é prato fácil das ‘tentações consumistas’  deste mundo e nele se perde.
‘’Nem só de pão vive o homem’  pois o seu Alimento principal é a Luz Interior que lhe dá a Paz e a Liberdade da sua Alma.
Infelizmente, Adão e Eva  seguiram este caminho errado : apoderaram-se diretamente do fruto. E nós fazemos o mesmo quando vivemos como seres independentes, esquecidos de que tudo nos vem de Deus   «Que tens tu que não tenhas recebido?» 

Para João da Cruz o obstáculo principal ao nosso crescimento espiritual reside naquilo a que ele chama o nosso «afeto de propriedade»
Deus não pára de nos dar, e nós recebemos pensando que esse dom é só para nós, ou então que obtivemos esse dom porque o merecemos. 
Pior, por vezes servimo-nos a nós mesmos à custa do bem dos outros porque temos inveja.
«A nossa vã ganância é de tal condição e sorte que a todas as coisas se quer apegar; é como o caruncho: carcome o que é bom e faz a sua obra em coisas boas e más.»

Assim nos agarramos a todas as coisas, muitas vezes inconscientemente, porque pensamos que somos o centro do universo. 
E admiramo-nos porque os outros não parecem perceber isso assim tão claramente…
Esta constatação geral não diz respeito apenas às realidades materiais, mas também aos bens espirituais. 
A nossa atitude de posse faz com que não aproveitemos bem os dons de Deus e que os desperdicemos.

Isso conduz à perda das «mercês de Deus,porque [a alma] as toma com propriedade e não se aproveita bem delas
E tomando-as com propriedade, e não se aproveitando delas, é querê-las tomar. Porque Deus não as dá para que a alma as queira tomar»  de forma egoísta .
Em vez de acolher reconhecidos esses dons e de os pormos ao serviço dos outros, consideramo-los muitas vezes com autocomplacência e caímos no delito de desviar as graças todas para nós.


2)  Desapegar-se… para aproveitar melhor

 Não desprezar os dons que recebemos, sejam eles naturais ou espirituais: tal talento inato, tal bem material, tal graça espiritual recebida. Mas, para melhor os aproveitar, temos que nos desapegar deles.
No homem espiritual «o gozo e o prazer das criaturas, aumenta mais desprendendo-se delas do que se olhar para elas com o desejo de as possuir

Este é um cuidado a ter, porque [o apego] causa uma inquietação que, como um laço, amarra o espírito à terra e não lhe deixa ter o coração livre.»
Sabemos por experiência: a nossa atenção é mobilizada pelas coisas às quais estamos apegados. Quando estamos focados em determinada coisa não conseguimos ver o que se passa à volta e a nossa interioridade permanece estreita e egoísta.

Aquele que não se considera possuidor, ao não estar preso, «goza de todas as coisas como se as possuísse», enquanto o que as considera como sua propriedade «perde o gosto de todas elas em geral. 
O primeiro, parecendo não ter nenhuma delas no coração, tem-nas todas com grande liberdade, como diz S. Paulo (2 Co 6,10); 
o segundo, porque tem a vontade um pouco presa a elas, não tem nem possui nada. 
Ao contrário, elas é que lhe roubam o coração e, por isso, como cativo, pena. Daqui se conclui, portanto, que aos gozos que quiser ter nas criaturas, hão de necessariamente corresponder outras tantas aflições e penas do seu preso e apossado coração.

A quem está desprendido, as preocupações não o apoquentam nem na oração nem fora dela. Sem perda de tempo, granjeia facilmente muitos bens espirituais.»

A Lliberdade a que  fomos chamados é à Liberdade de sermos filhos do Criador do Universo  : a capacidade de aproveitar de todas as coisas e de não sermos submergidos pelas nossas preocupações. Pelo contrário, aquele que não empreende este trabalho de desapego continua escravo daquilo a que está apegado
O seu coração está possuído e sofre terrivelmente. 

Julga-se livre, mas está escravizado pelas suas paixões. 

Só o apego ao Criador nos torna livres e semelhantes a Ele e nos dá Paz interior neste mundo de transição para a nossa verdadeira Pátria.
Na tradição cristã, face ao diabo, Jesus demonstra ser  um homem profundamente livre; afirma a sua identidade ao rejeitar todas as armadilhas do adversário. 
E consegue fazê-lo porque está desapegado de tudo exceto do seu Pai Criador do Universo.


3)  Recorrer ao Discernimento e à Razão.

É de capital importância para o caminho espiritual conhecermos bem as fases desse mesmo Caminho com base nas tradições escritas e orais, ignorar isso é caminharmos  sem rumo e ás cegas para o abismo .

Como poderíamos unir-nos ao Senhor se não O conhecêssemos?

Esse Conhecimento discernido ajudar-nos a calar os pensamentos interiores que nos causam perturbação.  
Por exemplo, se me sentir tentado pelo desencorajamento, digo: «O Senhor é minha luz e salvação; de quem terei medo?»
Se  for provado pela inveja, digo: «Na partilha foram-me destinados lugares aprazíveis e é preciosa a herança que me coube.» .

Compete-me descobrir as passagens das Sabedorias que mais me ajudarão a lutar contra os pensamentos de morte e a redescobrir a Paz interior e a comunhão com Deus.

4)  Recorrer  à nossa compreensão da  

Além  de Conhecer é preciso aplicar a nossa razão- compreensão na altura de  agir.
Conhecemos este procedimento  humano: citar o que alguém disse fora do contexto em que foi dito para desacreditar essa pessoa.
João da Cruz insiste no papel da nossa inteligência para a vida espiritual. O Verbo (logos, em grego) significa Palavra, mas também Razão. 
A nossa razão é desde logo um dom de Deus que nos ajuda a ler corretamente como devemos agir.  

É, pois, inútil procurar revelações extraordinárias que poderiam desviar-nos do Caminho  certo.
Não nos deixemos, por isso, impressionar por qualquer acontecimento milagroso que possa ser um artifício humano ou diabólico.
«Não há necessidade nenhuma disso, pois existe a razão natural, a lei e as doutrinas das várias tradições espirituais por onde se podem muito bem reger.
Se nos comunicassem coisas sobrenaturais, quer queiramos ou não, só devemos aceitar aquilo que se coaduna muito bem com a razão e o Saber.» 

O ser humano tem fascínio pelo paranormal e pelo extraordinário
Embora Deus possa agir de maneira espetacular, raramente o faz e só se não Lhe deixarmos outra opção. O que nos convida, pois, a uma grande prudência e à escuta da voz Interior acerca de tudo o que sai do ordinário: aparições, sinais, milagres, etc. 
O discernimento far-se-á a seu tempo. 
É necessário que tenhamos confiança na razão mas também no acompanhamento espiritual no qual escutamos a voz Interior que nos guia e orienta.


5)  A caminho da Liberdade

Agora já nos apercebemos melhor de que a nossa jornada Espiritual não será uma viagem aprazível. 
Não faltarão turbulências nem desilusões. 
As tentações são muitas e capazes  de utilizar o nosso desejo de Luz  para nos enganar:  

Não nos deixemos enganar pelas falsas grandezas deste mundo.

Recordemo-nos que não podemos ser santos pelas nossas próprias forças, mas apenas estando sempre na dependência do nosso Pai.

Quanto mais formos Filhos e Filhas de Deus,mais seguros estaremos. 
Os Filhos de Deus são livres de si mesmos e esta liberdade é bem diferente da liberdade do mundo que as tentações nos apresentam . 

«Todo o senhorio e liberdade do mundo, comparado com a liberdade e senhorio do espírito de Deus, é sumamente escravidão, angústia e cativeiro. (…) [a liberdade não pode habitar num coração curvado a quereres, porque é coração de escravo, mas num livre, que é coração de Filho


6)  A caminho da Transformação

É necessário que aceitemos entrar num profundo caminho de transformação
Não poderemos unir-nos a Deus sem mudar radicalmente a forma de pensar, falar e agir.

O Papa Francisco tem esta frase que resume este  dificil caminho ‘’ Não devemos ser como as  «pessoas que de cristãs só têm o verniz’’ . Hoje uma gratificação, outro dia uma cunha  e, pouco e pouco, chegamos à corrupção». 
Tornamo-nos então «cristãos mundanos,pagãos pintalgados com duas pinceladas de cristianismo», «habituados à mediocridade» .

Ofereçamo-nos então com confiança ao Espírito Divino que nos conduziu ao deserto. 

Ele saberá destruir o obstáculo em nós e fazer-nos caminhar cada vez mais alto até aos cumes de Deus.

Boa caminhada


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

São Teófanes o Recluso - A Guerra contra as Paixões

     


São Teófanes o Recluso - A Guerra contra as Paixões 


Teófanes o Recluso (1815–1894) , também conhecido como como Teófanes o Eremita, foi um santo da Igreja Ortodoxa Russa, traduziu para russo as obras dos Padres do Deserto e da Filocalia.


Se nosso espírito se afastar de Deus, o poder de auto-determinação dado ao homem por Deus também será retirado de nós.
Dessa forma um homem não pode mais dominar nem as inclinações da alma ou as necessidades do seu corpo ou os contatos externos.
Ele será despedaçado pelos desejos de sua alma e de seu corpo e pela vaidade da vida exterior, embora todas essas coisas no nível superficial pareçam contribuir para seu próprio prazer e felicidade.

Compare esses dois estados da vida e você verá que no primeiro o homem vive totalmente dentro de si mesmo diante de Deus e que no segundo o homem está totalmente fora de si mesmo, esquecendo Deus.

Esse segundo estado da vida é tornado muito pior pela entrada das paixões que se enraízam no ego e penetram toda a alma e o corpo e dão uma direção maligna a tudo o que está lá, uma direção que não é construtiva, mas sim destrutiva, afastando o homem do caminho do Espírito e do temor a Deus, colocando-o contra a sua consciência.
Dessa maneira o homem se torna ainda mais superficial do que antes.

Dando a si mesmo numa entrega súplice para Deus e Sua graça, chame cada uma das coisas que incitam-lhe ao pecado e tente afastar o seu coração delas, dirigindo-o para o oposto delas.
Dessa forma elas serão arrancadas do coração e sua violência irá retroceder.
Nessa tarefa, dê livre redea ao seu poder de discernimento e conduza o coração vigiando-o.

Essa luta contra as forças do mal é absolutamente essencial se queremos dominar nossa vontade. 

É necessário continuar trabalhando sobre nós mesmos dessa maneira, assim, ao invés de auto-piedade, é nascida em nós uma atitude impiedosa e implacável para com nós mesmos, um desejo de sofrer, de torturar a nós mesmos, de cansar nossa alma e nosso corpo. 

Isso deve ser continuado até que, em vez de tentarmos agradar os homens, formemos um sentimento de repulsão contra todos os maus hábitos e conexões – até que formemos uma resistência hostil e feroz contra eles, ao mesmo tempo submetendo-nos a todos os males e depreciações que os homens inflijam a nós. 

É necessário prosseguir trabalhando até que nosso apetite exclusivamente por coisas materiais, sensórias e visíveis desapareça completamente e seja substituído por um sentimento de desgosto por tais coisas, que em seu lugar comecemos a ansiar e buscar apenas o que é espiritual, puro e divino.
Em vez da mundaneidade - a limitação da vida e da felicidade somente à essa Terra – o coração venha a ser preenchido com um sentido de ser apenas um peregrino na Terra, cujo anseio seja totalmente por seu lar celestial.

Após o despertar inicial através da graça, o primeiro passo cabe ao livre arbítrio do homem.
Exercendo esse livre arbítrio, ele viaja para dentro de si mesmo de três maneiras.



Primeiro, sua vontade inclina-se para o que é bom e escolhe isso.
Na segunda, ela remove os obstáculos: para desatar as amarras que o atam ao pecado, ela bane do seu coração a auto-piedade, o desejo de agradar os homens, a inclinação pelas coisas sensórias e mundanas e em seu lugar ela incita a impiedosidade para com ele mesmo, a ausência de desejo por coisas dos sentidos, a aceitação de todo tipo de desgraça. 

Ela o faz sentir que seu verdadeiro lar está no mundo vindouro, enquanto que aqui ele é apenas um errante e um exilado.
Em terceiro lugar, o livre arbítrio é inspirado a prontamente enveredar pelo caminho correto, não permitindo auto-indulgência e fazendo o homem manter-se constantemente em alerta.

Dessa forma tudo se acalma na alma.
Incitado pela graça, o homem é libertado de todas as algemas e com total prontidão diz para si mesmo: vou erguer-me e seguir adiante.
A partir desse momento outro movimento se inicia na alma – um movimento na direção de Deus.
Tendo dominado a si mesmo através da compreensão dos motivos de todas as suas inclinações e assim reconquistando a liberdade interior, ele deve agora sacrificar-se por completo para Deus.
Ainda assim, apenas metade do trabalho foi alcançado.

A guerra contra as paixões que é requerida de nós é essencialmente uma guerra da mente.
Nós obtemos êxito nela ao negar todo alimento para as paixões e assim matando-as de fome.
Mas há também a guerra da ação, que consiste em deliberadamente empreender e realizar o que é diametralmente oposto às nossas paixões.
Por exemplo, para conquistar a avareza deveríamos distribuir dinheiro livremente; para lutar contra o orgulho deveríamos escolher algumas ocupações degradantes, para superar um anseio por divertimento deveríamos ficar em casa e assim por diante.

É verdade que esse método usado sozinho não conduz diretamente à meta, pois quando suprimida a paixão pode forçar sua entrada ou retirar-se para dar lugar a alguma outra paixão.
Mas quando essa luta ativa une-se com a interior, as duas juntas rapidamente tonam-se aptas a superar qualquer ataque das paixões.

Se a batalha é conduzida apenas internamente ela expulsa a paixão da consciência do homem, mas a paixão ainda permanece viva, embora não esteja em evidência.
Mas a oposição ativa apunhala essa cobra bem na cabeça.
Isso não significa que a luta interna deveria ser abandonada.
Ela deveria permanecer constante, de outro modo a luta poderá ser infrutífera e nossa inclinação às paixões poderá até aumentar em vez de diminuir. 
Se abandonarmos a batalha interna, poderemos descobrir que enquanto lutamos com uma paixão, uma outra nos cliva: por exemplo, nós expulsamos a glutonia com o jejum e então a vanglória assume o seu lugar.
Se falhamos em dar a devida atenção à batalha interior, nenhum esforço, não importa o quão enérgico, dará frutos. 

A batalha interna aliada à oposição ativa às paixões ataca-as igualmente de dentro e de fora e assim destrói-nas tão rapidamente quanto um inimigo é destruído quando e cercado e atacado pela frente e pelas costas.

De modo a impedir seus pensamentos de vagarem, você deveria adquirir um sentimento de estar constantemente com Deus no coração.
Assim não haverá espaço para pensamentos estrangeiros. 
Para parar de condenar os outros você deveria tornar-se profundamente consciente da sua própria pecaminosidade e afligir-se a respeito dela, lamentando por sua alma como se ela estivesse morta.
Como foi dito: com alguém da sua familia morto em casa você não se preocupará com o funeral de outra pessoa.

É dito que a vaidade é um ladrão interno que está coligado com ladrões de fora.
Ela abre a porta e as janelas para eles, eles entram e causam grande devastação internamente.
Quem sabe? Talvez o período de trevas que você experimentou e que o abandonou assim que você orou é uma fraude do inimigo para engendrar pensamentos de vaidade – para fazê-lo dizer para si mesmo: 'Como sou bom na oração! No momento em que oro todos os demônios se afugentam!' Atente-se: se pensamentos de vaidade vêm a você após a oração, isso mostra que o inimigo está tentando aguçar o seu orgulho.

Torne uma regra nunca encorajar de bom grado qualquer pensamento, sentimento ou desejo proveniente das paixões e manda-los embora com aversão assim que você os notar.
Dessa forma você será sempre inocente perante Deus e sua consciência.
Você ainda terá a impureza da paixão em você mas também terá inocência.

O diabo não tem acesso à alma, a alma não abriga ela mesma nenhuma paixão.
Em tal estado ela é transparente e o diabo não pode vê-la.
Mas quando ela admite o movimento de uma paixão e consente esse movimento, ela escurece e o diabo a vê.
Ele aproxima-se dela audaciosamente e assume controle sobre ela.

Duas paixões malignas principalmente perturbam a alma – a luxúria e a irritabilidade.

Quando o diabo consegue aprisionar alguém através da luxúria, ele o deixa sozinho em seu turbilhão: o diabo não se incomoda mais, exceto talvez para o perturbar um pouco com a raiva.
Mas se um homem não adere à luxúria, o diabo apressa-se em incitar-lhe à raiva e reúne ao redor dele um número de coisas irritantes. 
Um homem que falha em discernir as artimanhas do diabo permite-se ficar irritado com qualquer coisa, permitindo que a raiva o domine, então ele 'dá lugar ao diabo'.

Mas um homem que abafa toda explosão de raiva resiste ao demônio e repele-o e não dá lugar a ele dentro de si mesmo.
A raiva que 'dá lugar ao diabo', faz com que o inimigo imediatamente entre na alma e começa a sugerir pensamentos, cada um mais irritante que o outro. 
O homem começa a inflamar-se com a raiva como se estivesse em chamas.
Esse é o fogo do inferno.
Um homem que rapidamente supera a ira dispersa essa ilusão e assim repele o diabo como se lhe desse um forte golpe no peito.
Existe alguém que, após extinguir sua raiva e analisar todo o assunto de boa fé, não percebe que havia algo errado na base de sua irritação?

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

São Teófanes o Recluso - O trabalho interno



São Teófanes o Recluso - O trabalho interno

Sao Theofanes , o Recluso ou o Eremita (Janeiro 10, 1815 – Janiero 6, 1894) é um conhecido santo na Igreja Ortodoxa  Russa, traduziu a Philokalia para russo,  escreveu livros sobre a oraçao continuada e a evoluçao espiritual, sendo o mais conhecido ‘ A Vida Espiritual e como a seguir’.

Examine a si mesmo para ver se você tem dentro de si um forte sentimento de sua auto-importância, ou, se você falhou em perceber que você é um nada.

Esse sentimento de auto-importância está profundamente escondido, mas ele controla a totalidade de nossa vida.

Sua primeira demanda é que tudo deveria ser como desejamos e se isso não acontece reclamamos para Deus e nos aborrecemos com as pessoas.

O alto valor que damos a nós mesmos, em consequência desse sentimento de importância, não apenas prejudica nossas relações com as outras pessoas mas também nossa atitude para com Deus.

A auto-importância é tão astuciosa quanto o demônio e esconde-se habilmente atrás de palavras humildes, fixando-se firmemente no coração, fazendo com que fiquemos alternando entre a auto-depreciação e a auto-glorificação.

Observe as seguintes regras :

1) Antecipe os problemas a cada momento e quando eles vierem encare-os como sendo algo esperado.

2) Em segundo lugar, quando algo que conflitue com a sua vontade acontecer, e estiver a ponto de lhe irritar ou lhe chatear, apresse-se em trazer sua atenção para seu coração e lute com toda sua força para impedir tais sentimentos de aparecerem: e peça ajuda, reze.

Se você conseguir impedir que sentimentos de irritação e perturbação surjam dentro de você, então você acabou com seus problemas, pois esses sentimentos são seu ponto de partida.

Mas mesmo se alguns sentimentos surgem, resolva, se possível, não fazer ou dizer nada até que tenha conseguido mandá-los embora.

Se você achar impossível não dizer ou fazer algo, tente não falar ou agir de acordo com esses sentimentos mas sim de acordo com o mandamento de Deus, quietamente, como se nada tivesse acontecido.

3) Em terceiro lugar, tire de sua mente o pensamento de que a natureza das coisas irá mudar e resigne-se a um combate longo. 

Não esqueça ou subestime a importância disso, pois a menos que você aja dessa forma a paciência não pode ser firmemente estabelecida.

Finalmente, com tudo isso, preserve uma expressão bem humorada, um tom de voz afável, um comportamento amigável e acima de tudo evite sempre se lembrar das pessoas pelas suas ações ou palavras injustas.
Comporte-se como se elas não tivessem feito nada de errado.

Acostume-se a preservar a lembrança de Deus incessantemente.

Até que a alma esteja estabelecida com a mente no coração, ela não vê a si mesma e nem está propriamente ciente de si mesma.


O verdadeiro autoconhecimento é ver nossos próprios defeitos e fraquezas tão claramente que eles preencham toda nossa visão.
E marque isto – quanto mais você se vir em falta e merecedor de toda censura, mais você avançará.

Não deixe o olho da mente desviar-se do coração e quando alguma coisa surgir dali, capture-a imediatamente e examine-a.

Se for boa coisa, deixe-a ficar, se não for boa, ela deve ser abandonada imediatamente.
Dessa maneira, aprenda a conhecer a si mesmo.

Se algum pensamento emerge com mais frequência do que outro, isso significa uma paixão mais forte do que o resto.
Significa que você deve combatê-la com maior energia.

Ainda assim não ponha nenhuma confiança em você mesmo e não espere alcançar nada através de seus próprios esforços.
Todos os meios de cura e todos os remédios são enviados pelo Senhor.

Então entregue-se a Ele – e isso em todos os momentos.
Lute e continue lutando mas espere todo o bem vir apenas do Senhor.

Existem dois caminhos para se tornar um com Deus: o caminho ativo e o caminho contemplativo. 

O primeiro é para cristãos que vivem no mundo, o segundo para aqueles que abandonaram todas as coisas mundanas.

Mas na prática nenhum dos caminhos pode existir em total isolamento um do outro. 
Aqueles que vivem no mundo devem também, numa certa medida, manter-se no caminho contemplativo.

Como disse antes, você deveria acostumar-se a lembrar do Senhor sempre e caminhar sempre diante da face Dele.
Isso é o que se entende por caminho contemplativo.

Surge a questão: como podemos manter o Senhor em nossa atenção enquanto estamos ocupados com várias atividades? 

É desta maneira que pode ser feito.

Qualquer que seja sua ocupação, grande ou pequena, reflita que é o próprio Senhor onipresente que lhe ordena realizá-la e que observa para ver como você a desempenha.
Se você mantiver esse pensamento constantemente na sua mente, você cumprirá atentamente todos os deveres delegados a você e ao mesmo tempo lembrará do Senhor.

Nisso reside todo o segredo da conduta cristã para alguém na sua posição, se você deseja ter sucesso na sua meta principal.
Por favor, pense sobre isso cuidadosamente e ajuste-se a essa prática.
Quando você tiver feito isso, seus pensamentos irão parar de vagar aqui e ali.


Por que é que as coisas não vão bem com você agora neste momento?
Eu penso que é porque você deseja lembrar do Senhor, esquecendo dos afazeres mundanos.

Mas esses afazeres se intrometem na sua consciência e afastam a lembrança do Senhor.

O que você deveria fazer é exatamente o reverso: você deveria ocupar-se com os afazeres mundanos, mas pensar neles como sendo uma ordem do Senhor, como algo feito na presença Dele. 
 
Como as coisas estão agora, você falha tanto no nível espiritual quanto no material.
Mas se você agir como expliquei, as coisas irão bem em ambas as esferas. 
 
O corpo trabalhando mas o pensamento com Deusassim deveria ser o estado de um verdadeiro Cristão. 
Deveríamos colocar em ordem nosso estado interno assim que abríssemos nossos olhos de manhã.

Nesse mesmo estado de ordem interior deveríamos nos manter o dia todo e de noite aquecê-lo e fortalecê-lo e dessa maneira adormecermos.

Tente manter em ordem seus pensamentos a respeito de assuntos mundanos.
Tente chegar num estado no qual seu corpo possa cumprir seu trabalho usual, enquanto deixa você livre para estar sempre com o Senhor em espírito.

O piedoso Senhor dar-lhe-á liberdade das ansiedades e onde essa liberdade prevalece, tudo é feito no seu próprio tempo e nada é uma preocupação ou um fardo. 

Busque, peça – e será dado.

 

O que quer que lhe seja falado para fazer, faça sem ficar discutindo internamente, com total boa vontade, como se fosse um comando de Deus.
Coloque essas palavras que sublinhei fundo em seu coração e aja no espírito delas. 

Aceite cada ordem como vindo diretamente do próprio Senhor e execute-a com todo zelo e atenção como um trabalho dado por Deus e realizado na presença Dele.

Atue como se você estivesse obedecendo não os homens mas ao Deus que tudo vê.

Quando nossa ação é santificada por sua dedicação a Deus, então no processo de desempenhá-la, um certo elemento divino entra em todos os órgãos e poderes que participam do trabalho. 

Quanto maior o número de tais ações, mais serão os elementos divinos entrando no ser de um homem.
 
E, posteriormente, eles preenchem-no completamente de modo que toda sua natureza é imersa no divino e passa a habitar em Deus.

Fazer tudo em nome do Senhor significa voltar tudo para Sua glória, tentar realizar tudo de tal maneira a agradá-Lo, consciente de que é Sua vontade. 


Significa também circundar toda a ação de orações a Ele, começar a ação com oração e terminá-la com oração; quando começarmos, pedir Sua bênção, conforme prosseguirmos, rogar por Sua ajuda e quando terminarmos, dar graças a Ele por completar Seu trabalho em nós e através de nós.



Aprenda a desempenhar tudo o que você faz de tal maneira que isso aqueça o coração em vez de esfriá-lo.
Seja lendo ou orando, trabalhando ou falando com os outros, você deveria firmar-se à esta meta – não deixar o seu coração esfriar.

Mantenha o seu forno interno sempre quente recitando uma prece curta e vigie seus sentimentos caso eles dissipem esse calor. 
As impressões externas muito raramente estão em harmonia com o trabalho interno.

Já foi dito que sem a luta mental interna nossos esforços externos não podem ter êxito. 

A luta interna deveria portanto ser contínua e incessante.

Toda a nossa tarefa pode ser reduzida à regra seguinte: coletando a si mesmo em seu interior, recobre sua consciência de si espiritual, ponha-se a trabalhar internamente, e, preparado dessa maneira, pratique as tarefas externas impostas a você.

Mas enquanto fizer isso você deve observar e notar com uma atenção rigorosa e inabalável tudo o que surgir dentro de você.

Assim que alguma paixão for despertada, cace-a e golpeie-a, tanto mental como ativamente, não esquecendo de reacender dentro de si e aumentar o calor do espírito da contrição e do pesar por seus pecados.

É sobre isso que toda a atenção do gladiador espiritual deveria ser dirigida. 

Dessa forma, através de contínua concentração ele irá impedir-se de ser distraído e irá como que montar no lombo de sua mente.

Conforme seguir esse caminho interno sempre vigilante com relação a si mesmo, ele aprenderá a virtude da sobriedade.

Agora você pode entender por que os gladiadores espirituais sempre consideraram a sobriedade como a principal virtude em todo o trabalho espiritual e por que eles consideram aqueles que carecem dela como estéreis.



Apenas Deus e a alma: isso é o caminho espiritual.
 

Mas como podemos atingir isso?

Através de qualquer maneira que você prefira, contanto que você de fato alcance isso, pois enquanto um homem não atingiu esse estado, ele é apenas um animal.

O residir de nossa alma com o Senhor, que é toda a essência do trabalho interno, não é algo que depende de nós.

O Senhor visita a alma e a alma habita com Ele.

A alma regozija-se com Ele e Ele preenche-na com calor espiritual.

Então o Senhor se afasta e de imediato a alma fica vazia, não está de modo algum em seu poder fazer o Bom Visitante das almas retornar.

O Senhor se afasta para colocar a alma em teste, ou algumas vezes para puni-la, não tanto pelas transgressões externas mas por algum mal interior ao qual a alma garantiu admissão.

Quando o Senhor se afasta para colocar a alma em teste, Ele prontamente retorna outra vez quando ela começa a chamar por Ele.

Mas quando se afasta como uma punição, Ele não retorna logo – não até que a alma tenha percebido o pecado que cometeu, tenha se arrependido, tenha chorado por isso e feito penitência.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A Grande Obra Universal na doutrina Elus Cohen



A Grande Obra Universal na doutrina Elus Cohen 
segundo Robert Ambelain



O Mundo, considerado como "domínio material", submetido a nossos sentidos, e "regiões espirituais" do Além, não é obra própria de Deus, o qual é considerado como Absoluto.

É o Evangelho segundo São João que nos ensina:
"No princípio" (isto é, quando o "Tempo" começou, período no qual se manifestam seres relativos), "era o Verbo,"(o Logos, a Palavra Divina).

"O Verbo estava junto de Deus”... (expressão literal, usando o texto grego em lugar do "com Deus" das versões comuns) "O Verbo era deus”... (e não Deus, com maiusculas. O texto grego não tem o artigo)

"Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito”... (João – Cap. I).


Este Logos cria os seres e Adam Kadmon os nomeia  (subentende-se: "para a Vida Real, manifestada"):
"E Adão pôs nomes a todos os animais, a todas as aves dos Céus e a todos os animais dos campos; mas não se encontrava, para o homem, um nome que lhe fosse adequado.
 
Esses "animais do campo", essas "aves dos Céus" não são os seres comuns desses nomes.
O sentido esotérico designa as criaturas, inferiores ao homem-Arquétipo, povoando os "planos",  ou mundos do Além, "regiões espirituais".

Quando desta criação, Deus serve-se de um intermediário, um Demiurgo.

É o que nos confirma o Cap. I do Gênesis (vv. 1-2,3): "A Terra, (a Matéria primordial, o Caos) era informe e vazia, e o Espírito de Deus se movia sobre as Águas" (o nous grego, o elemento mais sutil desta matéria).

O termo "Espírito de Deus" é o  'sopro' de Deus, distinto de Deus, e  do espírito de Deus; o que seria absurdo, pois Deus é necessariamente espírito em Si-mesmo!

E o Gênesis não nos diz que "Deus se movia sobre as Águas" ... É porque ele nos ensina mais tarde que "O Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo”... (Gênesis II, 15).

Este jardim é um símbolo, significando o Conhecimento Divino, acessível aos seres relativos. 

Com efeito, a Cabala, tradição secreta, é freqüentemente designada como o "Pomar" místico. 
Em hebraico, pomar se diz guineth, palavra formada por três letras (guimel, nun, tav), iniciais das três ciências secundárias, chaves da Cabala: a Gematria, o Notarikon e a Temurah.

O homem primitivo do qual fala o Gênesis, em sua narrativa puramente simbólica, não é um ser de carne como nós, mas um Espírito, criado por Deus, composto de uma "forma" (o que o Gênesis chama de corpo), análogo ao "corpo glorioso" definido pelos teólogos, criado pelo Deus Eterno, e de uma centelha vivificante, que é completamente divina, já que o Gênesis nos conta que era o próprio "sopro" de Deus.



Nosso homem-Arquétipo é, portanto, semi-divino.


Ele nasce da Matéria Primordial (do Caos, composto de Terra e Água – simbólicas), por sua "forma", e nasce de Deus por esse sopro divino que o anima,  sopro nascido do próprio Deus.

Adão, o homem-Arquétipo continua o trabalho iniciado pelo Espírito-de-Deus no "jardim" simbólico.


Certamente, é indiscutível que o Cristo (que Martinez denomina por o Reparador) é ao mesmo tempo Deus (por sua origem) e homem (por sua encarnação). A Teologia demonstra isto.

Mas, do mesmo  modo que uma criança de dez anos e o idoso que ela será mais tarde são um e a mesma pessoa, (sob características e aspectos diferentes)!...
Há uma continuidade de consciência absoluta entre eles, mesmo se não existe mais a semelhança do aspecto ou de reações inferiores.

De forma semelhante, uma alma  que anima um corpo humano ordinário, e um outro, vinte séculos depois, será sempre idêntica a si mesma em suas duas manifestações diferentes, embora as ditas manifestações possam ser, aparentes e diametralmente opostas, em razão do processo 'causa e efeito' definido pela expressão usual do “Karma".

Paralelamente à Adam Kadmon (o homem-Arquétipo ou Cósmico), haviam outros Seres, emanados de uma Criação anterior, de uma natureza e um "plano" diferentes, sem nenhuma conexão com o que nos  detalha a Tradição do Génesis.


Esta emanação inicial e anterior à Criação é a dos "Anjos".
São estas as duas fases diferentes ( emanação e criação ) que o Gênesis subentende no primeiro versículo: "No princípio, Deus criou o Céu e a Terra".

Imediatamente, o Génesis deixa a primeira fase, a Emanação (sobre a qual aparentemente Moisés não possuía nenhum conhecimento) e passa à segunda: "A Terra era informe e vazia; as trevas cobriam o abismo”... (Gênesis I, 2).

Outros elementos da Tradição judaica-cristã nos ensinam que os serem desta Emanação primitiva (simbolizada pelo "Céu"), ou seja, os Anjos, dividiram-se em duas categorias – os Anjos fiéis e os Anjos rebeldes – após uma prova, requerida por Deus.

Isto tem sido mal compreendido.
Deus, príncipe de infinita perfeição, não podia tentar os Anjos após sua emanação, nem rejeitá-los, após sua involução. 
Ao contrário, certas entidades, tendo completado a Missão para as quais elas foram emanadas por Deus (isto é, libertadas, dotadas necessariamente de livre arbítrio),  recusaram-se a se reintegrar no Absoluto, o Plano Divino, fonte do Soberano Bem.


Elas preferiram, então, o "eu", momentâneo, perecível, ilusório, ao "UM", eterno, real e imperecível.

Elas preferiram viver "fora" de Deus em lugar de serem absorvidas por Ele, e se beneficiando de Sua infinita perfeição.

Foram, portanto, elas que momentaneamente se afastaram de Deus por um ato livre, ainda que errôneo.

Não foi o Absoluto que as rejeitou injustamente, nem que Ele foi a causa de seu exílio.

Conseqüentemente, o retorno e a redenção poderão ser possíveis, se a Entidade celestial aceitar
retomar o caminho ao Divino.

Mas, enquanto isso, antes do seu retorno à Luz e à Imanente Verdade, elas, por sua atitude egoísta, permanecem: rebeldes (a primeira e constante oferta do divino), desviadas (porque estão fora do seu destino legítimo), perversas (porque habitam "fora" do Bem Soberano, e, portanto "no Mal").

Agora, toda coisa corrupta tende a corromper aquilo que é são, por sua natureza.

E nos domínios dos seres espirituais, isto é ainda mais real do que nos corpos materiais, já que lá estão mesclados: inveja ou ciúme, (consciência, apesar de tudo, de uma inferioridade real), o orgulho (vontade de ter a última
palavra!) e a inteligência (como antes, mas carregando estes defeitos ao máximo).


É por isso que a Tradição nos ensina que o Conjunto dos Seres espirituais perversos, (a Egrégora do Mal), denotada pela imagem da Serpente, teve inveja deste ser, que era superior a eles e "imagem" de Deus, do qual essas Entidades decaídas alegavam terem sido subtraídas.

Elas agiram, portanto (telepaticamente sem dúvida), sobre Adam Kadmon, incitando-o a ultrapassar os limites de suas possibilidades naturais.


Um ser misto por sua natureza, meio espiritual, meio formal, andrógino, no qual Forma e Espírito se interpenetram mutuamente, o homem-Arquétipo deveria manter uma certa harmonia, um equilíbrio necessário, no Domínio onde Deus o havia colocado. 

Ele deveria velar por suas ordens, fazer seu trabalho, e continuar os projetos deste "Espírito-de-Deus", do qual ele era o reflexo, o administrador, o celestial "faz-tudo"...

Era neste papel de Arquiteto do Universo que Adam Kadmon era inspetor, mas de um Universo mais sutil do que o nosso, o "Reino" que não é deste mundo, do qual falam os evangelhos.

Sob o impulso das entidades metafísicas perversas, o homem-Arquétipo transformou-se em um Demiurgo independente.

Repetindo suas faltas, ele modificou e perturbou as Leis as quais era sua tarefa cuidar e observar.

Ele tentou, audacioso e rebelde, fazer-se criador por seu próprio direito, e de igualar ao próprio Deus com suas obras. 
Ele não conseguiu senão alterar seu Destino original...

É assim que as duas lendas idênticas, a de Lúcifer, primeiro dos Anjos, e de Adão, primeiro dos Homens, relatam suas histórias paralelas a nós.
Quem sabe, vem desta tradição a idéia de consagrar aos deuses ou a Deus, os primeiros frutos de uma colheita, ou ao primogênito de um rebanho.

Este é o fato de que, no relato simbólico da humanidade chamamos de Gênesis, todos os primogênitos – Caim, Ham, Ismael, Esaú, etc. – são misteriosamente marcados por um destino contrário.

Mas, enquanto que Deus, em Suas infinitas possibilidades, pode tirar algo do Nada, o homem, criatura de possibilidades limitadas, pode modificar só o que já existe, e não pode extrair algo do Nada.

O homem-Arquétipo, querendo criar seres espirituais, como Deus havia criado os Anjos, apenas conseguiu objetivar seus próprios conceitos.



Desejoso de lhes dar seus corpos, pode apenas integrá-los na Matéria mais grosseira.

Ao querer animar o Caos (as "Trevas exteriores"), como Deus havia animado o Mundo Metafísico, o qual foi confiado originalmente ao homem, ele acabou sendo engolido em sua totalidade.

Em verdade, Deus "sendo", no sentido mais absoluto da palavra ("Eu Sou O Que Sou", diz a Moisés, no Sinai), era impossível que o Nada tivesse existido anteriormente.

Qurendo imitar o Absoluto, Adam Kadmon tentou criar uma "matéria primordial".
Alquimista inexperiente, esta será a origem de sua Queda.

O homem-Arquétipo é um ser andrógino.

O Gênesis (Cap. I, 27, 28), nos conta que: "Deus criou o homem à sua imagem; macho e fêmea os criou”.... É este elemento negativo, feminino, que Adão vai objetivar fora de si mesmo.

É esta "costela" esquerda, feminina, passiva, lunar, tenebrosa, material, que irá se separar da direita, masculina, ativa, solar, luminosa, espiritual, dando nascimento a Eva.

A Mulher-Arquétipo é por isso retirada de uma das duas "costelas" do Andrógino, e não de uma de suas "costelas"... (Todas as religiões antigas conheceram um ser divino, original, que era ao mesmo tempo macho e fêmea).


O Gênesis relata (Cap. II, 23, 24): "Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne (ele conserva, pois, o espírito, a alma). Ela se chamará mulher, - ( porque foi tomada do homem )

Foi esta nova Matéria, a Eva do Gênesis, a mulher simbólica, que Adão "penetra" para criar a Vida.

O homem-Arquétipo se degrada, portanto, ao tentar imitar a Deus. 
Seu novo domínio é o mundo hílico da Gnose, nosso Universo material, mundo repleto de imperfeições e de males.

O pouco de bem que restava vinha das antigas perfeições do homem-Arquétipo.
Pois, divididos em dois seres diferentes, aquela perfeição original não pode ser total em cada um deles...
Portanto, a Queda.

É por esta razão também que a Natureza foi deidificada pelas antigas religiões.

Ela foi certamente a Mãe de tudo o que existe, mas também de tudo "sob os Céus", simplesmente... Isis, Eva, Demeter, Réia, Cibele, são símbolos da Natureza Material, emanada de Adam Kadmon, personificada pelas Virgens
Negras, símbolos da Matéria Prima.


O Andrógino Gnóstico

A essência superior de Adam Kadmon, integrada ao seio da nova Matéria, tornou-se Enxofre, expressão alquímica designando a alma do mundo.

A segunda essência, o mediador plástico, aquilo que constituía a "forma" de Adão, seu duplo superior, tornou-se o Mercúrio, outra expressão alquímica designando o Astral dos ocultistas, o plano intermediário.

A segunda Matéria emanada do Caos é o Sal alquímico, o suporte, o receptáculo, a prisão.

Paralelamente, nos podemos dizer que Adão se tornou o Enxofre, que Eva é o Sal, e que Caim do Gênesis era o Mercúrio nesta tríade simbólica.

Termos que o Alquimista conhece também como os de Rei, de Rainha, e de Servo dos sábios...

Concebe-se, portanto, porque em todos os seus graus, a Matéria Universal é viva, conforme é aceito pela antiga alquimia e pela moderna química, e como, em suas manifestações, ela pode ser mais ou menos consciente e inteligente.


Este Universo 'material' tornou-se igualmente o refúgio das Entidades decaídas.

Elas buscaram refúgio lá para se distanciarem do Absoluto, na vã esperança de escapar das sempre atuantes Leis Eternas.

Os Seres maléficos possuíam um interesse primordial em que o homem disperso, mas presente em todo lugar no seio da Matéria constituinte o Universo visível, continuasse a organizar e animar este domínio.
Como o homem caido não conseguia ser Rei deste mundo então os seres maléficos tomaram as rédeas do mundo e dos homens que ainda não 'abriram' os olhos.


Como a alma do homem-Arquétipo é prisioneira da Matéria universal, a alma do homem-indivíduo é prisioneira do seu corpo material. 


E a morte física, (o único efeito que é por mérito, diz o Gênesis...) e as reencarnações que se sucedem, são os meios pelos quais as Entidades decaídas manifestam seu controle sobre o homem.

Agora compreendemos melhor as palavras do Redentor, "entendido" pelos Profetas, como Isaías: "Oh Morte, onde está tua Vitória? Oh Morte, onde está teu aguilhão?”...
(o aguilhão dos sentidos, que incitam a alma separada a se reencarnar novamente em um corpo material).


A Força, a Sabedoria e a Beleza que se manifestam ainda no Universo material são devidas aos esforços do homem-Arquétipo para voltar a ser, o que ele era, antes de sua Queda.

As qualidades contrárias são manifestadas pelas Entidades decaídas, para manter o "clima" o qual elas desejavam que ele criasse, para manter o estado anterior, quando deliberadamente interromperam o retorno delas ao Absoluto.

O homem-Arquétipo pode apenas retomar a posse de seu Esplendor e Liberdade originais se ele puder se separar desta matéria na qual ele está preso por todos os lados. 

Para isto, é preciso que todas as células que o compõe (ou seja, os Homens-indivíduos), possam após sua morte natural, reconstituir o Arquétipo pela última reintegração, e assim escapando do ciclo de reencarnações.

Agora, os microcosmos referem-se ao Macrocosmo.
Os Homens-indivíduos, reflexos materiais do Arquétipo, são igualmente reflexos do divino (embora vários níveis abaixo), exatamente como o Arquétipo é, por si, reflexo de Deus, do primeiro Verbo Criador ou Logos, do espírito-de-Deus que fala o Gênesis.

Dessa forma, ele é o "Grande Arquiteto do Universo".
Todo culto de adoração prestado a ele é, portanto um culto satânico, pois é dirigido ao homem e não ao Absoluto.

É por isso que a Maçonaria o invoca sem o adorar.

Mas, como o homem está imerso na atmosfera demoníaca deste Mundo Material onde ele respira a cada instante o intelecto maléfico, como Martinez de Pasqually nos afirma, e porque ele está em uma má posição para resistir, o Criador restabeleceu o equilíbrio destacando do seu Círculo Espiritual Divino um Espírito Maior para ser o guia, o apoio, o conselheiro e o companheiro do Menor.


Este Espírito Maior emanou e desceu da Imensidão Celeste para ser incorporado ao Mundo Material (ou centro da matéria elementar) para trabalhar, segundo seu livre-arbítrio, no Círculo Terrestre.

Mas o conselho de um Espírito Maior não basta. 

É preciso ainda a assistência de um Menor Eleito.

O auxílio que ele traz a sua "reconciliação" é duplo.
Ele transmite diretamente as instruções do Criador sobre o culto Teúrgico que deve ser prestado; ele também comunica aos "Homens de Desejo" – aos quais ele é enviado – os dons que ele recebeu, marcando-os com a característica, o "selo" místico, sem o qual nenhum menor pode ser reconciliado.

Esta ordenação misteriosa é a condição essencial para sua "reintegração", desde que, sem ela, não importa quais sejam seus méritos pessoais, um Menor permanecerá "em privação", ou seja, sem comunicação com Deus. 

Mundo Divino

a.- Os Seres Espirituais são os Eons da Gnose, as Idéias-Mães que vivem no seio da Divindade;

b.- Os Espíritos Superiores, também chamados de Espíritos Denários, ou Espíritos Divinos, são as entidades sefiróticas da Cabala, os Números-Deuses.

Mundo Celeste

a.- Os Espíritos Maiores asseguram a comunicação do homem com Deus, limitam os domínios inferiores, compõe os mundos celestiais e terrestres. Como Agentes das Leis do Universo, eles comandam a conservação do "Tempo", isto é, da Energia Vital no Mundo Material, mas eles não têm poderes para produzir essências materiais.

b.- Os Espíritos Inferiores asseguram a própria existência da matéria. São, por exemplo, os Poderes dos Elementos, os Seres da Região Astral Superior, Os Gênios Planetários, Estelares, etc...

Esta última classe se subdivide em quatro partes:

a.- Menores Eleitos – São os dez grandes guias da Humanidade: Abel, Henoc, Noé, Melquizedek, José,
Moises, Davi, Salomão, Zorobabel, Jesus.

b.- Menores Regenerados – São os Adeptos, os mestres da doutrina espiritual. Este estágio é aquele atingido pelos Reau+Croix.

c.- Menores Reconciliados – São os Iniciados da Ordem em seus graus inferiores.

d.- Menores em Privação – São os Profanos.


A fim de escapar dos ciclos de reencarnações sucessivas neste mundo infernal (inferno = lugares inferiores), é necessário que o homem-indivíduo se solte de tudo aquilo que o atrai à Matéria, e assim se liberte da escravidão das sensações materiais.

Ele deve elevar-se moralmente.
Contra essa tendência em direção à Perfeição, as entidades decaídas lutam sem cessar, tentando de mil maneiras atirá-lo de volta ao seio do Mundo visível, e reter seu jugo oculto sobre ele.


Contra elas, o homem-indivíduo deve lutar desmascarando-as e expulsando-as de seu domínio.

Ele consegue isso, parcialmente pela Iniciação – a qual o liga aos elementos do Arquétipo já reunidos e que formam em termos exotéricos a "Comunhão dos Santos" – e parcialmente pelo Conhecimento libertador, que lhe ensina os meios de acelerar, para o restante da Humanidade cega, e pelo seu trabalho pessoal, a libertação definitiva.

Esta última possibilidade inclui a participação notadamente nas grandes Operações dos Equinócios, que procuram purificar a Aura terrestre por meio de exorcismos e de conjurações, sujeitas aos Ritos da Alta-Magia, e que os Elu Cohens denominam as "Obras" ou o "Culto".

Apenas após esta definitiva libertação individual, surgirá a grande libertação coletiva, que permitirá a reconstituição do Arquétipo, e então sua reintegração no Divino que o emanou outrora.

Abandonado a si mesmo pelo seu animador, o Mundo da matéria irá se dissolver, não sendo mais vivificado, harmonizado, conduzido pelo Arquétipo.

Sob o impulso, naturalmente anárquico, das Entidades decaídas, esta desagregação das partes do Todo irá se acelerar.
O Universo chegará ao seu termo enfim; este será o "Fim do Mundo" anunciado pelas tradições universal.

"Como uma pedra que rola, Céus e Terra passarão”...!

A Essência Divina reocupará gradualmente as "regiões" de sua essência das quais ela primitivamente retirou-se. 

As ilusões momentâneas, batizadas com o nome de criaturas, de seres, de mundos, desaparecerão, pois Deus é tudo, e Tudo está em Deus, embora Tudo não seja Deus! 


O Absoluto não tirou nada de um Nada ilusório, que não saberia existir fora d’Ele, sem ser Ele-mesmo.
 
Somente esta retração da divina essência permitiu a Criação dos Mundos, angélicos, materiais, etc...

Como foi também esta retração, desta mesma essência, que permitiu a emanação dos seres espirituais.

E assim, a simbólica "Vitória" do Bem sobre o Mal, da Luz sobre as Trevas será conquistada por um simples retorno das coisas ao Divino, por uma reassimilação dos seres, purificados e regenerados.

Tal é o desdobramento esotérico da Grande Obra Universal.