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quinta-feira, 5 de maio de 2011

O livrinho da Vida Perfeita- Parte 9 e Final


Parte 9 e Final


As duas liberdades, a verdadeira e a natural.


No reino celeste não há nada de próprio, daí tudo estar em paz e felicidade.
Se houvesse algo de próprio saia logo para o inferno, onde todos têm sempre algo de próprio.

Neste mundo o homem está entre os dois reinos e pode ir para um ou para outro.

‘ O homem é criado e colocado entre dois termos, a eternidade e o tempo.’
Quanto mais tem e mais quer de próprio mais tende para o inferno.

Quem tem ou quer ter algo de próprio, pensa que é livre mas fica como que prisioneiro desse algo ( que se torna proprietário dele) ou seja, a sua liberdade não é verdadeira mas natural.

Quem nada tem de próprio é livre de tudo, não é propriedade de ninguem, goza da liberdade verdadeira.

Como diz Jean Tauler : O homem nada tem próprio, tudo pertence a Deus em plena e imediata propriedade .

A liberdade natural pensa ter tudo abandonado mas quando lhe pedem para levar a cruz ela diz que não precisa, já ‘estou noutro patamar’ e ‘não preciso do peso da cruz’.

Engana-se ! Se por uma vez tivesse ‘saboreado’ a cruz nunca a abandonaria.

O natural, o próprio quer evitar o sofrimento a todo o custo mas sem cruz.....nada feito!!.

Abandonar o eu, nada ter de próprio, ter a verdadeira liberdade é o necessário para Deus se tornar homem em nós e tornar a nossa vida Perfeita pois passamos a ser para Deus o que a mão é para o homem.

O livrinho da Vida Perfeita- Parte 8



Parte 8

As duas vontades, a vontade eterna e a vontade natural.

Como vimos atrás a vontade eterna é o Bem , o Perfeito.
A vontade natural é o eu, o meu, o parcial .

Nota : Não é que existam 2 vontades independentes mas ou se faz uma ou outra consoante a inclinação e desejo do homem .

Quem procura Deus e quer a vida Perfeita deve abandonar a sua vontade própria, o seu eu e deixar que Deus se instale no vazio deixado pelo eu abandonado e realize ai a Sua vontade, a vontade eterna.

Se apenas fizer a sua vontade própria, natural então fará apenas o pecado, realiza apenas o eu e afastar-se-à de Deus e se aproximará do diabo e do inferno .

Quem procura Deus e ainda tem vontade própria e algo que considera seu, nunca encontrará Deus, pois Deus só aparece a quem está vazio em vontade e não acompanhado por outras coisas’.

Neste sentido deve aceitar tudo que lhe surja na vida, se for essa a Vontade eterna, mesmo o sofrimento, com plena aceitação e sem oposição.

Deus criou o homem com livre arbitrio, logo o homem "pode escolher" com a sua vontade entre seguir os seus desejos ( e fazer a sua vontade egoista) ou seguir a Vontade eterna, como as duas são inconciliáveis, a sua decisão final levá-o ou ao Paraiso ou ao inferno.

Pode-se perguntar : Se a vontade natural é contrária á vontade eterna, porque então Deus, como criador, a colocou no homem ?

A resposta leva-nos a repetir algo dito atrás .

A vontade eterna existente antes da criação, tem um querer activo, uma propriedade, que é a sua necessidade de actuar, de se reflectir em algo para se autoconhecer na acção.

Sem isso não teria utilidade e seria inútil.
Para isso precisa de um ‘vaso’, de uma criatura, do homem , daí a criação.

Deus precisa do homem-criatura para se Amar e ser Amado por ele em acção (como um reflexo activo num espelho) e não em essência pura pré-criação (onde sempre foi e será amado porque é o Bem, o Perfeito,o Amor) e por isso criou o homem com duas caracteristicas inseparáveis, conhecimento-inteligência e vontade que o distingue dos animais bestiais que por não terem essas duas caracteristicas não podem amar a Deus .

Sem conhecimento e vontade no homem, Deus não poderia ser conhecido e o homem sem essas caracteristicas não qualquer valor ou utilidade para o Criador .

Ora se conhecimento e vontade se originam em Deus, então a Deus devem regressar mas ‘reflectidos activamente’ pelo homem deificado que assim mostra a Deus como O ama.

Assim a vontade eterna existe no homem pela criação porque sem ela o homem nunca poderia amar a Deus e seria mais um animal na terra .

Problema é que o homem cego pelo mundo se apropria dela como sua para fins egoistas e a transforma em vontade natural, assim impedindo o seu fluxo normal que seria o regresso á sua origem, a Deus.

Daí a necessidade do homem deixar o seu eu, de abandonar tudo o que seja relativo ao seu amor próprio, à sua vontade própria e deixar que Deus habite nesse vazio para aí agir ou não agir, no fundo fazer a Sua vontade que é a vontade eterna (a única verdadeira e por isso eterna) , sendo o homem deificado não um mero espectador ‘sem reflexo’ dessa obra mas um cooperante de Deus, um ‘vaso activo que reflecte’ .

Pelo que é explicado acima e como resumo , Deus colocou a vontade eterna no homem para ele O amar após deificado e não para que ele a use como vontade própria.

Esse uso, essa apropriação errada origina o diabo, o mal, a injustiça, é o acto de Adão a desobedecer e comer a maçã proibida, o que causa turbulência em vez de paz e repouso.

O livrinho da Vida Perfeita- Parte 7



Parte 7


As duas luzes (dois conhecimentos) e os dois amores.


Existem duas luzes, a verdadeira e a falsa.

A verdadeira é divina, é a semente de Deus, procura o Bem como Bem .

A falsa é natural, é a semente do Diabo, é mesmo a natureza (aqui entendida como um desvio do normal e não a Natureza que é normal em si), procura o Bem para se servir a ela mesma, o seu eu, o seu meu, pois considera, erradamente, que isso é o Melhor.

A falsa luz pensa que é o que não é, pensa que é Deus quando não passa de natureza.

Engana-se a ela mesma e aos outros que a seguem.

A falsa luz procura o fácil, o agradável, o não doloroso, procura como natureza que é, evitar o sofrimento, a espera, a angustia.

Mas luz (conhecimento) sem amor, não conduz a nada, o amor deve seguir-se ao conhecimento e ser por ele guiado.

É este amor que liga o homem a Deus e os torna inseparáveis.

Um homem pode ser muito sábio mas se não tiver amor nunca se torna num homem deificado.

Daí existem dois amores, um para cada luz, o amor verdadeiro e o falso.

Costuma dizer-se: Quem conhece a Deus, só pode amá-lo!

Frase certa, se ... quem o conhecer levar a luz verdadeira seguida pelo amor verdadeiro .
Frase errada, se...quem o conhecer levar a luz falsa que só possui o amor falso, logo pode conhecer mas não amar a Deus .

Quantos sábios não chegam a conhecer Deus pelo conhecimento que não inclui amor e não conseguem amar esse Deus que alcançaram pois não levam as ‘armas’ certas, a luz e o amor verdadeiros.

Quem chega a Deus pelo amor verdadeiro guiado pelo verdadeiro conheciemento só pode amar Deus de imediato, é automático .

É próprio da luz falsa ter grande saber, estudar muito e atingir grandes alturas da mente e do conhecimento.

Tem grande prazer nisso, fica eufórica quando constata o seu elevado conhecimento e está sempre pronta para conhecer, estudar mais e mais, sem nunca ter descanso ou plena satisfação.

Mas o seu amor não é Deus (apesar de ela o ter conhecido pelos seus estudos), é ela própria, o seu saber, o seu elevado conhecimento.

Amar verdadeiramente a Deus é anular o seu eu e não amá-lo, anulação essa que é causa de continuo sofrimento e luta na vida, que é precisamente aquilo que a luz natural não quer, ela quer é ‘sopas e descanso’, quer vida fácil e sem muitos sobressaltos.

Nota: Jean Tauler também disse que ‘A vontade natural tenta sempre evitar o sofrimento, mas a vontade superior diz ‘ faça-se a Tua vontade e não a minha ‘.

Para alcançar o seu objectivo de ‘sopas e descanso’ a luz natural até pretende que chega a Deus pelo seu conhecimento e diz que sendo Deus não precisa de ser mais natureza, de ser mais homem sujeito ás dificulades e sofrimentos da vida, agora que é Deus tem ‘direito’ a vida fácil porque acredita que isso é o Melhor para ela própria.

Não esquecer que diabo e natureza são um, quem vence um vence o outro, quem não venceu um também não venceu o outro.

E todas as palavras abaixo são uma única , são todas contra e isentas de Deus.

Adão- homem velho – amor próprio – vontade própria – egoismo- eu- meu- natureza- falsa luz- diabo- pecado.

O livrinho da Vida Perfeita- Parte 6



Parte 6

União

Quem está unido a Deus, abandonou a sua vontade própria e deixa Deus nele fazer a sua Vontade.

Isso não quer dizer que nada mais faça na vida, pois enquanto está vivo o homem deve actuar e agir (na realidade quem actua é Deus e não mais o eu, o meu) de uma maneira ou doutra.

Na união o homem interior está imóvel e só o homem exterior (Deus de facto toma o lugar do homem exterior) tem movimento.

Só após a morte fisica é possivel existir uma imobilidade permanente e um apaziguamento pois acabou a criatura e renasceu um Deus .

Regressemos ao motivo da criação.

Deus antes de criar, conhece-se e ama-se em essência mas não em acção.

Quando cria o homem e nasce o homem novo, Deus torna-se Deus-homem nesse homem deificado e nesse homem novo existe ‘qualquer coisa’ ( que sempre lá esteve mas só com o surgir do homem novo é despertada por assim dizer) que só a Deus pertence e não ao homem como criatura .

Nota : Mestre Eckhart dirá que ‘essa qualquer coisa é tão pura e elevada que nenhuma criatura a pode penetrar, só Deus habita aí , nesse canto secreto da alma humana ‘ .

Essa ‘qualquer coisa’ tem em Deus a sua origem e essência, mas não a sua forma e realidade.

Daí Deus querer que essa ‘qualquer coisa’ se realize e isso só se pode concretizar na criatura ,no homem criado por Deus , pois ela está lá para se realizar .

Logo Deus sofre ( impotente perante o livre arbitrio que deu ao homem) se o homem não despertar essa ‘semente’ escondida por se ligar ao seu eu,ao seu meu, em vez de acordar para o seu destino original.

A realização dessa ‘ qualquer coisa’ com a criação do homem novo (ou seja, a evolução espiritual do homem na terra) é o motivo porque Deus criou o homem, pois sem o homem não existiria um ‘vaso’ onde Deus depositasse essa ‘qualquer coisa’ para aí Deus se conhecer e amar a Si próprio em acção e não apenas em essência .

Neste processo Deus faz como que uma parceria com o homem novo ( seu depositário da semente) e passa a existir uma única vontade, um único amor, uma única luz, um único conhecimento que ao despertar essa ‘qualquer coisa’ são postos em acção e dão origem ao Bem único.

Deus não se ama porque é Deus, ama-se porque é o Bem.

Daí a importância da criação e da parceria com o homem para Deus poder amar-se como Bem, como Amor em acção no homem .

O homem unido, deificado, não tem vontade, nem desejos, nem pensamentos de fazer ou não fazer, de dizer ou não dizer, considera-se inferior a todos e sem direitos especiais, tem obrigações com todos e ninguém é obrigado perante ele, tudo isto entenda-se de uma forma passiva e não activa.

Tal como Deus sofre pelo pecado do homem (só pensar matéria e não espirito) assim o homem deificado sofrerá até à sua morte fisica esse desgosto pelos outros homens que não evoluem no sentido espiritual .

Esse desgosto e lamentos permanentes são inerentes à sua nova condição de homem deificado os quais são uma propriedade de Deus e não dele (diz-se não ser o homem mesmo deificado capaz de a ter).

Obter essa propriedade (que é Dele e não do homem) de sofrimento no homem, é para Deus o mais amado e digno, pois é também o mais amargo e custoso para o homem de viver até á sua morte fisica com este permanente sofrimento pelos outros.

O homem deificado vive assim nesta vida nobre e verdadeira.

Preferiria sofrer a abandoná-la, pois quem lhe ‘toma o gosto’ não mais o quer perder.

Não busca qualquer recompensa pois a vive por Amor e o Amor torna a vida leve e sem preocupações .

terça-feira, 3 de maio de 2011

O livrinho da Vida Perfeita- Parte 5


Parte 5

Iluminação

Esta etapa do caminho é a etapa da preparação espiritual.

Os homens criam necessidades e obrigações que são meras ilusões.

Nas suas ligaçoes ao mundo dizem que ‘isto é necessário,aquilo é indispensável’ , porque o orgulho, a inveja, a simpatia, a amizade ou o desejo fisico os empurram nesse sentido.

Mas tudo isso é ilusório e há que saber distinguir e afastar essas ilusões.

Quem quer aprender uma arte que desconhece, precisa de quatro coisas.

A primeira, a mais necessária, um forte desejo e continuo fervor em aprender a arte. Sem este factor fundamental, desejo espiritual e ampla abertura de espirito não pode existir aprendizagem.

A segunda, ter um modelo de aprendizagem, uma estrutura teórica e prática dos passos da aprendizagem.

A terceira, confiar e obedecer a um mestre, seja um mestre exterior ou á voz interior da intuição.

A quarta, se dedicar ao trabalho prático com perseverança .

Nesta etapa é fundamental ter bem fortalecido o sentido da aceitação plena para sabermos receber aquilo que nos acontece na vida, seja de alegrias ou sofrimentos com a mesma naturalidade e humildade.

O homem iluminado está abandonado a Deus e a todas as coisas e tudo recebe em silèncio sem procurar desculpas esfarrapadas nem ajudas externas nem procurar contestação ou vingança pois tem presente a frase ‘ Pais, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem’.

Os perigos (as sementes do diabo) desta etapa

Quem percorre esta etapa é normalmente confrontado com perigos que testam a sua determinação em prosseguir no caminho certo e não recuar ou ficar parado.

São eles , o orgulho espiritual e a falsa liberdade desordenada.

O homem, aqui chegado, pensa que já subiu alto e que se pode considerar acima de todos os outros e de todas as coisas.

“ Eu cheguei aqui ao alto, próximo da meta , não preciso de escrituras nem mais ensinamentos , estou acima dos que não subiram até aqui, que agora me servem”.
Tudo o que fazem por ele é pouco, tudo o que possui lhe é devido.

Eis, pois, o resultado da semente que o Diabo depositou na alma destes homens.

Para combater estes perigos, em primeiro lugar, o homem tem de os admitir e considear como válidos, depois usar duas armas ao seu dispor , a pobreza e a humildade espirituais.

Ao ser tentado pelo orgulho deve dizer ‘sou inferior a todas as coisas e indigno do que possa receber de Deus ou das criaturas, tudo o que me acontece é por culpa minha e nada mereço e a nada tenho direito’.

Com a mesma determinação, não fala em demasia , nem procura explicar o seu estado seja para ensinar ou se queixar, excepto se a isso for ‘empurrado’ pelo amor divino ou pela fé e mesmo assim, com muita humildade e moderação.

Não entra em conflito com as regras e leis gerais da sociedade as quais podem servir de guia inicial a todos os que ‘não veêm’ e se dedicam ao eu e ao meu, pois com o seu exemplo pode-os desviar do mau caminho e conduzi-los ao Bom.

No homem iluminado, Deus habita e age nele e a sua vida é a de um coração abandonado, humilde e que sofre secretamente com a sua imperfeição e com todos os males do mundo pois se considera inferior e indigno de tudo.

O livrinho da Vida Perfeita- Parte 4



Parte 4

Dois bons e seguros caminhos

O inferno e o céu são para o homem dois bons e seguros caminhos neste mundo.

Porquê?

Quando está no inferno nada o pode consolar e ninguém o pode livrar .
Quando está no céu nada o pode perturbar nem afligir.

Quer um quer outro aparecem ao homem sem que ele tenha alguma intervenção seja na chegada ou partida de cada um .

“O vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz mas não sabes donde vem nem para onde vai”.

Que o homem esteja num deles é bom e neste mundo pode passar de um para o outro como a noite passa para o dia, faz parte do caminhar .

Quando o homem não está num destes dois estados , é porque se ocupa das criaturas e isso é mau pois não sabe onde está e anda perdido sem sequer caminhar.

É preciso o homem não esquecer estes dois estados.


As três etapas

Para se unir a Deus o homem tem de se iluminado.
Para ser iluminado o homem tem de ser purificado.

Logo as três etapas , a purificação , a iluminação e a união.

Purificação

Nesta etapa o homem deve ser e permanecer livre de tudo e dele mesmo.

Deve considerar a sua existência como pouca coisa, nada de relevo, considerar-se tão pequeno como se não existisse.

O engano é considerar-se a ele mesmo em estima, imaginar-se que é, que sabe e que pode alguma coisa, que se procura nas coisas para si próprio e busque o amor por si mesmo.

Na atitude correcta temos o homem Novo que está morto para si mesmo, na incorrecta o homem velho que se ama a ele mesmo e às coisas.

Quando se fala em ‘morrer’, em ‘renascer’, significa que o homem velho tem de morrer ao seu amor próprio e se esvaziar para nesse vazio nascer o novo homem.

Quanto mais diminui o meu eu ,o meu amor próprio mais o ‘eu’ de Deus aumenta em mim.

É o segundo nascimento que fala Cristo : Se não nasces uma segunda vez não entras no Reino de Deus “.

O mal e o sofrimento dos homens do mundo nascem desta ‘desobediência’, deste agarrar ao eu e ás coisas.

Sem renúncia ao seu eu, ao seu meu, não se avança.

Desiluda-se quem pensa que pondo questões, ouvindo teorias, em estudar, em ler, pela elevação da arte ou da ciência se chega ao verdadeiro conhecimento.

Direi mais, quem se agarra às coisas, quem as conserva no seu amor, no seu pensamento, na sua pesquisa, seja disto ou daquilo, dele mesmo ou doutro, não chega a lado nenhum.

Não basta rezar, ler escrituras, saber falar e compreender a ciência para podermos entrar, é preciso na verdade algo mais .

Isso acontece, por vezes, aos homens de grande inteligência, que elevam a sua própria inteligência tão alto na sua própria luz que se iludem e a tomam pela luz verdadeira, a Luz eterna.

Enquanto o homem amar a parte, o fragmento, ele é cego, pois ignora a visão global e só ‘vê’ os bens que lhe são a si ou aos seus,mais úteis e mais agradáveis.

Em geral, o mais agradável nunca é o mais útil ao homem velho para se tornar novo.

‘Quem não renunciar e se perder a si mesmo, não me encontrará nem acederá á vida verdadeira’.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O livrinho da Vida Perfeita – Parte 3



O livrinho da Vida Perfeita – Parte 3


O que é o pecado ?

É o acto que ocorre quando a criatura se afasta do Perfeito e se volta para aquilo que é sujeito à mudança, o parcial e em particular quando se volta para o seu eu próprio.

Quando surge o Diabo ?

Surge quando esse ser (que integrava até aí a esfera do Perfeito) desejou ser ‘qualquer outra coisa’, pretendeu possuir ‘qualquer coisa’.

Essa apropriação, o eu , o meu, foram a causa do seu afastamento do Perfeito e da sua queda.

Assim aconteceu com Adão que caiu, não por ter comido maças..., mas por pensar e querer apropriar-se de algo e ser ‘ qualquer coisa’, ter um eu , um meu .

Como ocorreu e se repara a queda do homem ?

Tal como com Adão, a queda do homemm ocorre quando ele se afasta do Perfeito e se apropria de algo ( que lhe não pertence por natureza ) e quer ter um eu, um meu.

A reparação consiste em deixar-mos Deus, o Perfeito, fazer-se homem em nós de modo a sermos deificados.

Em deixarmos a nossa apropriação das coisas e esvaziarmos o nosso interior delas para que Deus venha ocupra o espaço deixado vazio e nele actura e fazer a Sua obra.

Nisto coniste a deificação do homem.

A apropriação e a usurpação

A honra e a glória só a Deus pertencem.

Quando o homem se apropria de um bem (algo que é, que faça, que lhe pertença em função so seu eu) está a apropriar-se e a usurpar dessa honra e glória que só a Deus pertencem.

O acto de apropriação do homem é duplamente mau e tem duas consequencias , uma queda/ afastamento do Perefeito e uma usurpação da Sua honra e glória.

Não se apropriar significa ser ignorante do conhecimento ?

Não, isso seria tornar o homem igual aos animais selvagens.

O conhecimento deve existir mas deve ser tão puro e perfeito que não seja apropriado pelo homem mas que seja apenas o conhecimento do Eterno.

Então o homem como criatura desaparece e assim não se apropria desse conhecimento.

Assim deve acontecer com a vontade, o amor, o desejo, etc, quanto menos apropriação houver mais eles são nobres, puros e divinos.

Mais apropriação significa menos pureza, mais imperfeição.

Eis pois o segredo para a libertação : Livrar-se da apropriação !!

Quem se apropria é ignorante na sua ilusão, só quando se percebe isso pelo conhecimento da verdade é que a apropriação termina.

Um mestre dizia : Ah, pobre louco que era, imaginava que era eu!!

Outro acrescentava : A nossa imperfeição é nos apropriarmos do que não é o Melhor, pois a vida Perfeita é nos ligarmos ao Melhor .

O livrinho da Vida Perfeita – Parte 2


O livrinho da Vida Perfeita – Parte 2


O Perfeito

“Quando surgir o Perfeito tudo o que é imperfeito e parcial será abolido”.

O Perfeito é um Ser que engloba tudo em Si mesmo e na Sua essência.

Nada de verdadeiro existe fora Dele.

Nele todas as coisas têm o seu ser, pois Ele é o ser de todas as coisas e é Ele que move e modifica todas as coisas.

O Perfeito é denominado de Nada ou Vazio, pois nada o pode conhecer, apreender, nomear ou pensar.

A criatura

O parcial (essa qualquer coisa ) é o que surge, que emana do Perfeito, como uma luz emana do sol, e se denomina criatura aquilo que então surge.

Quando chegar o Perfeito, o parcial será desprezado, mas quando virá Ele ?

Quando Ele for conhecido, na medida do possivel, pela alma.

Mas se o Perfeito, por definição, não pode ser conhecido ou compreeendido por nenhuma criatura como pode a alma, que é criatura, O conhecer?

Por isso se diz “ enquanto criatura”, enquanto criada e produzida, enquanto houver eu e amor próprio, que a alma não O pode conhecer .

Para O conhecer, é preciso que tudo o que exista de criado e produzido, de eu e amor próprio seja extinto e abolido na criatura que é a alma e aí então virá o Perfeito e o parcial (o criado e produzido, o eu e o amor próprio) será desprezado e tido por inútil.

Basta haver apego a essa “qualquer coisa” para que o Perfeito não se dê a conhecer, pois o Nada onde Ele devia habitar está 'ocupado' por ‘essa coisa ‘ .

O ser

Essa “qualquer coisa” que emana do Perfeito, emana para fora Dele ?

Pois se diz que nada de verdadeiro existe fora Dele .

Mas o que emana não é um ser verdadeiro, pois não há ser sem ser Nele ( dentro Dele) .

É apenas um acidente, uma claridade, não um ser verdadeiro que só se torna verdadeiro quando imerso no fogo, na fonte dessa claridade.

domingo, 1 de maio de 2011

O livrinho da Vida Perfeita – Parte 1


O livrinho da Vida Perfeita – Parte 1

Pelo Anónimo de Frankfort

O pequeno livro do Anónimo de Frankfurt gerou grande entusiasmo entre os grandes místicos, desde Silesius a S. João da Cruz, como também dos grandes filósofos, de Hegel a Schopenhauer, que nele viram uma "obra imortal, "pelo seu gênio comparável ​​às de Buda e Platão.

Há mesmo quem veja nele um Tao-Te-King cristão.

Escrito em um estilo brilhante por um anônimo misterioso que vivia em Frankfurt, logo após a morte de Mestre Eckhart (a segunda metade do século XIV), é uma síntese extraordinária do pensamento místico Renano .

Diziam-no cavaleiro teutónico, monge e custódio do mosteiro em Frankfurt , mas permanecerá para sempre como o "Anónimo " autor de um livro escrito por um "amigo de Deus", "sensato, razoável, justo e sincero.

O autor não é Mestre Eckhart.

Ele não tem nem a sua cultura, nem a força da sua violência escolástica e da sua pregação alemã.

Ele tem o que é seu: a acessíibilidade e a clareza, precisas, para todos, do que pode e deve ser uma "Vida Perfeita".

Isso fez com que a riqueza prodigiosa deste folheto, onde são reconhecidos e se reconhecem muitas diferentes correntes ,como católicos e protestantes, reformadores e românticos, místicos e espirituais , alquimistas e teosofistas, religiosos e leigos.

A mensagem chave do livro é

DEUS FEZ-SE HOMEM PARA QUE O HOMEM SE FAÇA DEUS,

frase fortissima em especial à altura e contexto em que foi escrita.

Deus cria para se revelar , se conhecer a Ele mesmo, Nele mesmo no homem deificado.

Daí a sequência tripla , Criação, Incarnação e Inabitação (Deus a habitar dentro do homem) que vamos conhecer de seguida .