-- De onde vens e para onde vais ?
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Ibn Arabi - O Discurso da Águia Real






Eu sou a águia.

A mim pertencem a mais elevada estação, a beleza e a luz brilhante mais resplandescente.

Carrego tudo de acordo com sua classe determinada nas fronteiras deste mundo, mas meu poder é mais inacessível.
Sou a efusão sublime Dele, a luz de Sua existência.

Sou aquele que chama a existência e ela obedece.

Sou aquele que nunca cessa de ser o “servo” de meu criador,

O instrumento de Sua generosidade.


As realidades apressam-se em minha direção para buscar sua suficiência.

Eu dou e retiro de quem quer que eu deseje.

Se me aproximo, a beleza do ser Dele me aturde.

Se me afasto, Seu esplendor me chama.
A aproximação confere sobre mim uma sabedoria amável, mas rasga meu coração.
A distância confere um comando partilhado cuja luz ilumina Suas fronteiras.
Quando estou distante sou o comandante.
Minha miséria está em meu comando e minha felicidade é quando ele é removido.



Estava ainda não-existente como uma entidade em um dos níveis da criação quando a solicitude divina surgiu e deu inicio à minha existência. 
Tendo se manisfestado para si mesma, a minha existência foi prolongada com a minha contemplação. 
Recebi a classificação suprema através da forma e a parte mais secreta do meu ser tornou-se o Seu Trono. 

O nome divino todo-abrangente sentou-se sobre mim. 

Seus dois vizires, Aquele que dá e Aquele que toma e seu dois camareiros, Aquele que confere o mal e Aquele que confere o bem, montaram em seus dois estribos. 

Após se ter sentado e aparecido e os nomes “poderoso” e “sublime” terem me sido dados, a corte ficou completa. 

A subsistência e a aniquilação apareceram, efusão e profusão se seguiram em curso alternado e a expansão e a contração foram firmemente estabelecidas. 

Através do reino o rei foi confirmado, através da mensagem o anjo tornou-se manifesto e através das estrelas a esfera foi posta em movimento.

Sou o conhecimento da criação oculto no manto da inviolabilidade divina. 
Um bando de filósofos inventou mentiras a meu respeito e um bando de nobres tentou capturar-me. 
Eles armaram a rede de caçar aves a partir dos seus pensamentos para me capturarem e usaram contra mim os próprios meios que eu mesmo lhes tinha fornecido para se aproveitarem do meu trabalho. 

E quando as aspirações espirituais deles foram suficientes para me enredar em sua rede ilusória de pensamentos, eles capturaram nela uma águia com a minha forma mas no país da ilusão.

Eles disseram: “Esta é a clara verdade!” 
Mal sabiam que a verdade não estava clara para eles e nunca estará. 
O conhecimento de mim e de minha existência depende do que é oferecido como presente ou recompensado por mérito. 

Satã incitou-os a duvidar e eles imaginaram que tinham aterrado no cume quando na verdade aterraram no vale em baixo.

Eles confundiram anterioridade com eternidade, declarando-me eterno e que minha existência não ia de encontro com a não-existência. 

Abandonei-os em sua confusão “assim como carne na tábua do talhante".

” Aqueles que cometem uma injustiça ao comando divino devem ser oprimidos! 
Estou livre do que eles me atribuem, e não acredito aonde me colocam. 

Pois Deus, seja Sua glória magnificada, era de toda a eternidade enquanto eu estava sob o decreto da não-existência.

Então Ele trouxe-me à existência da não-existência através de uma precedência pré-eterna e minha essência tornou-se manifesta. 

Ele iluminou minha existência com seu conhecimento e proveu-me de pobreza e fraqueza, afastando-me do poder e da glória. 

Sou um humilde que não tem glória e o poderoso que não cessa de ser fraco.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O conhecimento do Fim dos Tempos e a Ressureição

IBN ARABI- EPISTOLA DAS LUZES



O conhecimento do Fim dos Tempos e a Ressureição

Deus atribuiu 7000 anos a este mundo que correspondem ao ciclo da Virgem, findo este ciclo este mundo termina (Fim dos tempos) com a Ressureição e começa um novo, o da Balança.

´Antes do fim dos tempos, reinará o AntiCristo que atraindo pessoas as conduzirá á perdição  e surgirão catastrofes que dizimarão multidões. 
Chegada a Hora, o Messias (Jesus) renascerá para derrotar o AntiCristo e selar o ciclo da Amizade divina. 
O Messias e seus companheiros serão depois levados por um ‘sopro de vento’ e só restará na terra gente perversa agindo como bestas sobre as quais se abaterá a Hora’.

Este mundo ao fim de 7000 anos será liberado num estado de extinção, passaremos para o mundo intermédio (Barzakh) onde as realidades subtis dominarão as outras, o Califado será exercido pelo Anjo Gabriel. 

Verás as formas exteriores subordinadas aos espiritos ( que lhes correspondem) e o homem transformar-se-á na forma que desejar, por uma realidade que lhe será confirmada aquando da Ressureição das sepulturas na nova criação e nisso consistirá a estadia no Mercado dos Paraisos.

Na Ressureição, Deus disporá as balanças exactas para nenhuma alma ser lesada na mais pequena coisa.
Tudo estará a claro, cada um reconhecerá os seus méritos e perfidias, tudo será pesado na justa medida’.


Quando o ser humano se transfere deste Mundo, jamais retorna.
Mas pela sua transferência, este Mundo transfere-se com ele, pois este Mundo é o indicio do Outro, ‘aquele que fôr cego neste Mundo, será cego na Vida Futura, e mais extraviado’.
Antes da Ressureição, ficam numa espécie de purgatório, e é ali retido pelos seus actos até ser Ressuscitado, nessa forma (que adquiriu em vida) no Outro Mundo.
Na Ressureição há quem se transfira para o Jardim e quem se  transfira para o Fogo, pois o Fogo e o Jardim abarcam a morada deste Mundo e os seus desfrutes e não há mais morada nenhuma senão estas duas. 
Cada uma terá a sua população, de onde não sairá. 
Cada Paraiso e cada Inferno é de acordo com os seus moradores.

‘Aquele que deseja o imediato, Nós apressamo-nos a dar o que queremos, a quem queremos. 
Logo destinamos-lhe o Geena (local de provação), onde entrará desgraçado e rejeitado. 
Mas quem deseja a Vida  Futura e se esforça efectivamente por ela, o seu esforço será reconhecido’.

As portas da Ascenção e os Nomes de Deus

IBN ARABI-- EPISTOLA DAS LUZES


As portas da Ascenção


O discipulo subiu aos céus com o Sábio e viu que uma porta em certo nivel lhe estava vedada pela qual passou o Sábio. 

Foi-lhe dito que esta porta era o seu ponto final, ele então declarou para passar na porta que  ‘submeto-me á mesma autoridade que o meu companheiro’ mas é-lhe objectado ‘Este não é o lugar próprio para se aceitar o Islão, regressa á tua terra e aí, sim, quando te submeteres e creres e seguires o caminho daqueles que se remetem a Deus, só então serás aceite’.

O Sábio continua a sua ascenção até ao Trono, onde aprende os Nomes divinos, que a sua constituição e evolução espiritual pode suportar, em seguida regressa, buscando o seu ponto de partida e o Real viaja com ele por uma via diferente da primeira. 

É uma via de que é impossivel falar, apenas conhecida por quem a experimenta. 

Quanto ao discipulo, ele regressa á terra e presta juramento de fidelidade e passa a crer em Deus, porque Deus lhe decretou a Fé Nele, e não por lhe haver fornecido alguma prova conclusiva-racional. Ele encontra então uma luz no seu coração que antes não havia encontrado e graças a essa luz, vê, do lugar onde se encontra, e de um só relance, tudo o que havia visto na ascenção anterior e agora já não é detido e sobe pela mesma escada do Sábio até á Nuvem Primordial.

Sem deixar o seu lugar, vê a coisa nas coisas, e a necessidade de ser das realidades, cuja existência se lhe havia mostrado por reflexão e intelecção. 
Recebe o elixir da genese e vê a congregação dos corpos animados, passando de uma condição a outra, por uma alteração de propriedade e de ciclo, de tal modo que as configurações fisicas das coisas se encontam modificadas e os seus estados invertidos.

Nota: O muçulmano é aquele que se submete, e que, ao fazê-lo, conhece a Paz ( Al Salam, que é um dos Nomes Mais Belos de Deus).       

Os Nomes de Deus contêm Tudo.

Dos 99 Nomes de Deus, não há nenhum que Ele que se tenha nomeado a Si mesmo, são os Seus servos que ao passar por esses ‘estados’ a Ele atribuem esses Nomes para Sua glória e por isso quem nesses ‘estados’ passa, Ele fá-los viajar de noite pelos seus Nomes e mostra-lhes ainda mais sinais para que eles se tornem mais ouvintes e videntes.

Desses 99 Nomes, uns existem como o Vingador , o Terrivel na Punição e o Avassalador que estão em conflito com outros como O Misericordioso, o Perdoador, o Subtil. 

Pois o Vingador busca a ocorrência da vingança no objecto sobre que se exerce, enquanto o Misericordioso busca a remoção da vingança nesse mesmo objecto. 

Prova de quem em Deus está Tudo, incluindo a ‘polaridade’ dos Nomes divinos. 

Mas esta polaridade, este exercicio da propriedade permanece na relação (ou seja, as propriedades dos Nomes permanecem nos Nomes)  e não em nós. 

Eles, os Nomes, são relações que se opõem pelas suas próprias realidades e jamais concordam, pois nunca cessam a sua oposição, mas nunca em nós. 

Daí, nós devermos buscar a união e não a polaridade (que só existe nos Nomes) pois buscando-a estamos a buscar algo que não nos pertence na realidade e a afastarmo-nos da nossa real propriedade, que nos foi dada pelo Deus dos 99 Nomes que nos criou.

  
A Perfeição (em vida) é ter Deus e não o Mundo?

Quem chega a Deus, só vê Deus e nada do Mundo resta que se Lhe compare.
Deixaram de ver o Mundo.
Mas acaso despareceu do Mundo o que desapareceu para esses? 
Não ! Então, falta-lhes o que lhes desapareceu e ficam privados do Real (pois o que perderam do Mundo faz parte do Real) e Dele, pois o Mundo inteiro, para quem conhece o Real, é a Sua própria Epifania.


A Transformação dos seres

Pode ser pelo arrependimento e obra meritória (orações-rituais-esforço pessoal de procura) ou após algum ‘castigo’ cobrar o seu direito ( após acidentes-doenças graves-crises psicologicas). 

Para quem lá conseguiu chegar, o que é mais elevado, permanecer Nele em contemplação, a ouvir o que Ele te diz, Nele dissolvido ou regressar de novo?
O que é mais elevado em vida, a extinção na Essencia (fanã) ou a extinção nos actos (baqã)?

Digo-te que a estação mistica de lá ficar é inferior à do retorno, pois enquanto formos vivos,  no retorno ficamos na Presença dos Seus actos, por Ele e para Ele e isto é superior a só O  contemplarmos.

Os mestres dizem que é inferior porque é um desperdicio do momento espiritual e procedimento inadequado para com a morada actual, porque este Mundo é uma prisão provisória que tem de ser aproveitada enquanto se está nela preso.

Se ficas em contemplação, ficas estático numa estação e deixas de ascender a outra superior, pois a Epifania molda-se ao conhecimento e à forma.

Obténs, assim, (se alcanças e ficas em contemplação em vida) o que devias ter deixado para a sua morada apropriada, que é a casa do Outro Mundo, na qual não há a prática de actos.

Deves, sim, neste Mundo, em vez de ficares em contemplação ( te extinguires na Essência – fanã) , te ocupares de actos meritórios exteriores e receberes, interiormente, por eles, um melhor conhecimento Dele ( te extinguires nos actos-baqã).

Fanã é o servo ter a visão do seu acto executado por Deus (o contemplativo não age, Deus age por ele).

Baqâ é o servo ter a visão que Deus está em todas as coisas ( o que se extingue nos actos que pratica, vê Deus em cada um deles e assim engloba este Mundo Nele).   

Isso seria preferivel para ti, porque aumentarias virtude e beleza à tua dimensão espiritual -- que busca o seu Senhor- assim como à tua alma – que busca o seu Paraiso. 

Quando abandonares o mundo da sujeição à Lei, colherás então o fruto do que semeaste pelos teus actos em vez de uma contemplação estática.