-- De onde vens e para onde vais ?
-- Venho de Deus na escuridão e para Deus vou na Luz.

Mostrar mensagens com a etiqueta Peregrinações. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Peregrinações. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Viagem à Armenia, Terra do Fogo e do Espirito Santo


Viagem à Armenia,Terra do Fogo e do Espirito Santo



O território da Arménia foi ocupado desde tempos imemoriais sendo o centro de passagem dos povos primitivos nas suas migrações.

Existem vestígios arqueológicos abundantes sobre a presença humana desde pinturas rupestres a alinhamentos de menhires que revelam um pouco das suas crenças e práticas.


Existe um local com 223 menhires com cerca de  3m altura dos quais 84 têm um buraco redondo na parte superior. 




Data de cerca de 7000 AC e presume-se ser parte de um complexo com funções astronómicas pois foi verificado que o alinhamento dos orificios aponta para a constelação do Cisne. 


 
Noutro local existem menhires em forma de falos, datados do séc. 1-2 AC, presumindo-se a sua relação com ritos de fertilidade e como simbolo divino.


Datados de 1000-2000  AC existem uns curiosos menhires com cerca de 4-5 m altura com imagens de peixes e touros. 

Estes monumentos estão associados á protecção das fontes de água, o seu nome Vishaps, significa Dragões de pedra e também se presume serem imagens de seres miticos cultuados pelos povos da altura.  


   


Mais tarde o cristianismo apoderou-se deste culto e transformou os Dragões de pedra em Cruzes de pedra, as Khachkars, que para além da cruz Arménia apresentam desenhos geométricos representando a árvore da vida, e constituem uma obra prima que mais parece um bordado de renda em pedra.
     

 No período  primitivo antes de Cristo  o panteão de Deuses nesta zona era básicamente o panteão da zona Mesopotamica-Suméria-Assíria-Babilónia e a sua escrita baseada na escrita  cuneiforme.

Entre este panteão estava a Deusa Anahit, derivada da Deusa Mãe primitiva e que ainda hoje é lembrada em potes de cerâmica com a sua forma que são usados na cozinha para conservar o sal. 


No séc. 1 DC foi erigido um templo romano à Deusa Anahit em Garni que foi reconstruido e ainda hoje maravilha quem o visita.

   
Conta a tradição que foi o herói  Haya ( Deus Haik do mundo da luz e relacionado com o Deus Assírio Enki-Ea e  descendente de Noé )  ao combater e vencer o Deus Bel ( Baal)  do mundo subterraneo que se fixou nesta terra vindo da Babilónia  dando origem ao Hayastan como os Arménios  designam o seu pais.

Um dos simbolos mais antigos na Arménia, são as romãs como símbolo da prosperidade e  fertilidade e de vida, como árvore de vida tem as duas partes, a amarga da pele interior amarela e a doce dos graos interiores encarnados, o amargo e doce da vida logo um bom símbolo como arvore da vida. 
Também como símbolo de realeza pois tem uma  coroa na parte superior.




Na Arménia, mais própriamente no Monte Ararat (agora em território Turco), diz a tradição que pousou a Arca de Noé.


                                  Vista do Monte Ararat 

Dessa Arca saiu primeiro um corvo preto (simbolo da morte como transformação pessoal) e depois uma 1º pomba branca á procura de terra sólida, que regressou à arca sem a alcançar, e alguns falam neste retorno de uma maneira também simbólica (o homem que abandona o mundo e se entrega a Deus cria em si um vazio interior onde Deus pode habitar e o Espirito Santo agir, pois fora desse vazio nada existe para Deus habitar, ou seja, o regresso da pomba pode simbolizar o regresso do homem ao seu Eu, à sua origem divina pois cá fora no mundo não há sitio para ‘pousar’). 

Assim desde tempos imemoriais a pomba do Espírito Santo esteve presente na espiritualidade arménia. 


 Na Arménia pré-cristã existiu o culto ao Fogo de origem Zoroastriana, e como os cristãos costumam dizer, o Espirito Santo é um sopro de Vida, um Fogo de Vida dentro de cada um de nós. 

A tradicao inicial dos rituais de fogo como culto aos Deuses tambem terá vindo da Mesopotamia antiga cerca de 2000-3000 AC e  terá sido reforçada pela introducao da religião Zoroastriana implantada cerca do séc. 2-3  AC.

Na antiga cidade da Idade Média de Ani (Ani significa, chama, fogo, culto da deusa do fogo) existiu um dos agora mais bem preservados Atrushan ou Templos do Fogo.

Assente em 4 pilares tinha uma cúpula redonda por baixo da qual deveria existir um altar para o fogo eterno arder em permanência.

Neste templo era adorado o elemento Fogo (simbolo de morte-transformação interior).


                              Esquema do Templo do fogo em Ani


                              Trabalhos arqueológicos em Ani 

Curioso como as igrejas cristãs posteriores copiaram mais tarde esta geometria das cúpulas redondas dos Atrushan, que ficou como caracteristica de quase todas as igrejas cristãs.

                                 Moeda com altar do fogo

O culto primitivo do fogo foi ‘assimilado’ pelo cristianismo e passou a culto do Espirito Santo, contudo ainda hoje existem festas populares (inseridas em contexto cristão) onde se celebra este culto ‘pagão’, as pessoas fazem uma grande fogueira em frente á igreja e saltam (sobretudo jovens noivos) sobre as chamas para ‘queimar’ os pecados , é chamada a festa do Trndez (ou Tyarndarach), uma festa de purificação cristã 40 dias após o nascimento de Cristo e também um rito de renascimento, de fertilidade da Primavera que começa.


 


 
Outra interessante assimilação das tradições pagãs pelo cristianismo foi de manter os cânticos populares antigos que são ou não acompanhados por flautas especiais (duduk) fabricadas localmente desde tempos antigos e cujo som é inspirador de uma profunda e meditativa espiritualidade.




Com a implantação do cristianismo foram abolidos os cultos pagãos antigos e destruidos os seus templos ou altares rituais, o único templo que não foi destruido foi o templo em Garni que já foi reconstruido e ainda preserva 60% do seu material original.  


 

 

A Arménia foi o 1º pais a oficializar o Cristianismo como religião oficial em 301. 

A prática da Igreja Apostólica Arménia funda-se nos preceitos cristãos originais e manteve-se assim durante séculos até aos dias de hoje tendo o seu próprio Papa, o Catholicus.

A igreja Arménia é independente de Roma como todas as igrejas ortodoxas mas pertence ao ramo Oriental a que estão também ligadas as igrejas Copta do Egipto e Ortodoxa da Etiópia , sendo os rituais da igreja armenia muito próximos dos da igreja etíope.

Na sua prática a doutrina do Espirito Santo tem um papel fundamental expresso nas muitas canções litúrgicas em vigor já referidas acima.


Para os cristãos arménios, o Espírito Santo : 
1) desce dos céus, 
2) entra dentro de cada crente como um sopro de fogo, 
3) dá-lhes a força dessa chama, 
4) dá-lhes a faculdade das linguas, ou abertura de espirito,
5) e dá-lhes multiplas prendas-benesses, conforto espiritual e uma ‘alegria intoxicante’. 

Gregório, O Iluminador descreve o Espirito Santo como uma fornalha, que queima o pecado, sendo o fogo o agente purificador do Espirito, só quem passa, diz ele, pela experiência do fogo, pode receber conhecimento das coisas divinas expressas no Antigo Testamento.

                              Gregório , o Iluminador

Gregório, o Iluminador é o santo padroeiro e primeiro líder oficial da Igreja Apostólica Armênia.

Ele é o líder religioso a quem é creditada a conversão da Armênia do paganismo arménio ao cristianismo, dando ao país a distinção de ter sido o primeira a adotar o cristianismo como religião oficial em 301 d.C. 

A tradição também fala que S. Bartolomeu e S. Judas Tadeu ajudaram na fundaçao da Igreja Arménia.


 
Acredita-se que o pai de Gregório, era um príncipe relacionado aos reis arsácidas da Armênia que foi encarregado de assassinar o rei Khostrov II da Armênia, um dos reis da dinastia, e foi condenado à morte.
Gregório foi levado para Cesareia, na Capadócia, onde foi criado e se tornou um devoto cristão.
Gregório deixou a Capadócia e voltou para a Armênia na esperança de conseguir ser perdoado pelo crime de seu pai através da evangelização de sua terra natal.

 
 
Na época, reinava Tiridates III e em 301, Gregório batizou Tiridates III juntamente com os membros de sua corte e das classes dominantes. 
O rei emitiu um decreto pelo qual ele concedeu a Gregório plenos direitos para levar a cabo a conversão da nação toda à fé cristã.

No mesmo ano, a Armênia se tornou o primeiro país a adotar o cristianismo como religião estatal. 

A primeira catedral a ser construída, a Igreja-mãe em Vagharshapat (Echmiadzin) se tornou e ainda continua sendo o centro espiritual e cultural do cristianismo armênio e sede da Igreja Apostólica Armênia com o seu Papa, o Catholicus. 

Os primitivos Dragões de pedra foram cristianizados e substituidos pelas  'pedras cruz' , chamadas 'khatchkar' que são esculpidas com multiplos desenhos associados à Àrvore da Vida e se colocam nos mosteiros e cemitérios para honrar e proteger os mortos e simbolizar o mistério da vida. 


Numa fase inicial estas pedras tinham imagens da Biblia e de Cristo mas durante a ocupação árabe as imagens foram proibidas e substituidas pelas cruzes em formato de árvores da vida. 
 
 
Normalmente a maioria das igrejas construidas pelos cristãos, o foram por cima de antigos templos do fogo zoroastriano (Atrushan ou templo do fogo eterno) ou mesmo de cultos primitivos anteriores como por exemplo no mosteiro de Gehgard onde uma das salas da igreja se implantou onde existe ainda hoje uma fonte de água e simbolos primitivos de animais simbólicos ( touro, águia, leão e cordeiro) de cultos antigos aí praticados.



 
                                Mosteiro de Ghegard


                       Esquema de Templo de fogo Zoroastriano



A escrita arménia foi criada em 401 e teve um papel fundamental na preservação da cultura armenia, pois como povo errante e dividido era importante o uso da escrita em jornais, manuscritos, livros que mantivessem viva a sua cultura.

Dai serem os arménios o povo que deu origem à Impressão gráfica e por todo o mundo terem sido  eles a dar um grande impulso a essa nova tecnologia.


O povo arménio tem sofrido  ao longo dos tempos várias vicissitudes desde terramotos que arrasaram zonas do pais com milhares de mortos a perseguições e massacres.

Durante a ocupação persa em 1640 foram deportados e levados para a Pérsia cerca de 300.000 arménios, só lá chegaram com vida cerca de metade.

Durante a ocupação turca- otomana  entre 1850 e 1928 foi perpetrado um dos maiores genocídios da historia da humanidade, cerca de 1,5 milhões de arménios foram mortos e deportados pelo ocupantes turcos.




Este ultimo genocídio originou também uma partida  de arménios para todo o mundo, em particular para os Estados Unidos e Europa, havendo muitas pessoas públicas de origem armenia como Charles Aznavour, a cantora Cher e o benemérito de Portugal o milionário Calouste Sarkis Gulbenkian.

Este êxodo fez com que actualmente a Arménia tenha 3 milhões de habitantes dentro do pais e cerca de 7 Milhões fora da Arménia.


É  um povo que tendo sofrido tantos dramas conseguiu até hoje manter viva a sua identidade cultural e religiosa e apesar do seu território actual ser 25% do que teve na época do apogeu da sua civilização devido às ocupações russas e turcas que dividiram entre si o território arménio.


Esta faceta de sofrimento é expressa na sua música e cânticos, onde a saudade , a melancolia e o desespero se misturam e se parecem muito com a Saudade portuguesa e a tonalidade de Fado, onde a guitarra é substituída pela flauta ' duduk' e os cânticos se assemelham ao Fado.

                

A Arménia e Portugal têm uma historia comum.

Um passado de expansão , colonizador e de riqueza e um presente de contracção territorial e de pobreza .


A Arménia passou por muitas mais guerras e sofrimentos que Portugal mas os dois têm nas suas estruturas culturais factores de dor , sofrimento , afastamento da fonte de felicidade que marcam ainda hoje as duas sociedades e se reflectem nas suas mentalidades  e musicas populares.


A melancolia e a saudade no Fado português é muito idêntica à melancolia e dor dos cânticos populares na Arménia sendo a guitarra do Fado substituida pela flauta armenia , o 'Duduk'.



É um país que merece a visita de quem Caminha ao lado do Espirito Santo para o Fogo de Deus.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Viagem à Anatólia , berço de Civilizações e Espiritualidades




Viagem à Anatólia, berço de Civilizações e Espiritualidades 


Esta provincia da Turquia foi desde tempos imemoriais ocupada por seres humanos que nela encontraram um local ideal para viver e expressar a sua espiritualidade.

A Espiritualidade, como sempre, inicia-se pelos cultos à natureza, á fertilidade, ao ritmo das estaçoes e do céu, e os deuses desses povos reflectem esta preocupação seja em rituais de natureza xamanica de inicio, indo a pouco e pouco com o desenvolvimento das sociedades para outros rituais mais ‘teorizados’.

As primeiras aglomerações urbanas de populações encontram-se aqui e uma delas a de Catalhoyuk data de 10.000 anos AC e já tinha um culto á Deusa Mãe como sua protectora e os seus habitantes deixaram pintadas em murais de suas casas várias cenas da vida diária, com os animais e a natureza (ex- vulções activos) que os rodeavam e influenciavam.







Datado de 9000 anos AC existe um sitio arqueologico denominado de Göbekli Tepe que é considerado um dos primeiros templos da humanidade que precede Stonehedge de 7000 anos e presume-se que foi construido com um intuito de culto religioso, talvez de natureza xamanica face aos multiplos animais ai representados, estando ainda a decorrer escavações arqueológicas para obtenção de mais dados. 








Não se encontraram habitações nas redondezas o que pode indicar ser um local de reunião sagrado onde as pessoas se deslocavam para cerimónias e rituais especificos. 

Entre 2000 AC e 1200 AC esta região foi habitada por povos vindos do Cáucaso que estabeleceram a civilização Hitita contemporânea da Egipcia com quem disputou terrirório e guerras (Kadesh). 







12 Deuses do submundo

Esta civilização manteve o culto à Deusa Mãe já numa forma mais estruturada, tendo já um Deus Criador (o Deus das Tormentas Teshub) e sua esposa Hepat ( Deusa Mãe representada no dorso de leões ou leopardos) com seus filhos e uma hierarquia de outros deuses ( ex- existiam 12 deuses do submundo).

Nesta região encontra-se a provincia da Capadócia, cujo nome há quem diga que quer dizer ‘Terra da Deusa  Mãe’ pela preponderância deste culto durante milhares de anos.

As rochas da região, principalmente tufo calcário, adquiriram formas caprichosas ao longo de milhões de anos de erosão, e são suficientemente macias para permitir que os humanos construam as suas habitações escavando-as, em vez de erigir edifícios, o que faz com que nessas paisagens lunares abundem desde tempos imemoriais cavernas naturais e artificiais para uso habitacional e religioso, algumas delas ainda hoje utilizadas. 








Supõe-se que as mais antigas podem remontar ao tempo dos Hititas, há mais de 3000 anos, e que muitas ainda estarão por descobrir.
Algumas cidades subterrâneas podem ser visitadas, e têm vários níveis — a de Kaymakli, por exemplo, tem nove, embora apenas quatro estejam abertos ao público, estando as outras reservadas para investigação arqueológica e antropológica, — e dispõem de canais de ventilação, cavalariças, padarias, poços de água e tudo o mais necessário para que os seus ocupantes, cujo número podia alcançar os 20 000, pudessem resistir durante vários meses sem que fossem detectados pelos invasores.




O cristianismo surgiu na Capadócia relativamente tarde, sem nenhuma evidência de uma comunidade cristã antes do final do século II .

O cristianismo expandiu-se principalmente durante o século IV, devido à conversão de Constantino I, e os bispos da Capadócia estavam entre aqueles que participaram no Concílio de Nicéia.

É nesta época que surgem as primeiras igrejas rupestres e as primeiras comunidades de monges cenobitas, que habitavam grutas escavadas nas rochas nas proximidades e se reuniam regularmente na igreja para actos de oração em colectivo.
As igrejas escavadas na rocha eram decoradas e acondicionadas. 
Atualmente ainda existem centenas de igrejas na região decoradas com frescos nas paredes e tectos.








Na Capadócia ao contrário dos eremitas do Egipto (chamados Pais do Deserto), os monges tinham um papel menos isolado entre si e estavam mais perto das populações locais num papel mais missionário.

No desertos do Egipto estas comunidades eremitas acabaram no sec. 3 DC enquanto na Capadócia se mantiveram até ao sec. 6-7 DC, tendo subsistido por mais tempo devido ao isolamento do local que também serviu de refúgio a muitos cristãos perseguidos pelas heresias da altura.




São Paulo efetuou três viagens à Capadócia entre 44 e 58.
Muitos dos primeiros cristãos habitavam a região, tendo as cidades subterrâneas sido usadas como refúgio pelos primeiros cristãos durante as perseguições de que foram alvo durante os séculos II, III e IV.

Aí nasceram nessa época os seguintes santos e teólogos:

São Basílio, São Gregório de Nissa e São Gregório de Nanzianzo, o Novo, são chamados os Padres ou Filósofos Capadócios



               São Basilio 

Os Padres Capadócios iniciaram o desenvolvimento da teologia cristã, por exemplo, a doutrina da divinidade da Trindade, e combateram a doutrina do arianismo ( que ensinava que o Filho não era como o Pai, mas havia sido criado, e não era pois, Deus), para eles o Filho foi considerado como o Pai, mas não da mesma essência que o Pai. 

Os Padres Capadocianos ensinavam a doutrina da homoousia, ou consubstancialidade do Filho com o Pai.
Em seus escritos fizeram uso extensivo da fórmula (hoje ortodoxa) uma substância (ousia)  em três pessoas (hypostaseis). 

Não nos é possível saber o que Deus é (a natureza de Deus é incognoscível para o homem), só que ele é, porque ele revela-se em três como o Pai, Filho e Espírito Santo.

Os três são pessoas individuais mas todos partilham uma parte comum, a sua humanidade.
Cada um de nós participa da existência, porque se compartilha uma substancia (ousia) enquanto por causa de suas propriedades individuais ( hipostase), cada um é A ou B.
Ousia se refere à concepção geral, como bondade, divindade, ou noções, enquanto hipóstase se observa nas propriedades especiais da paternidade, filiação e poder santificador.

Os Padres Capadócios distinguem entre a "essência" de Deus (que não se pode conhecer) e as "energias" de Deus (que se podem conhecer).

No caminho espiritual, eles distinguem três etapas: 
1) a "limpeza" (afastamento das coisas do mundo), 
2) o desenvolvimento das virtudes (as "energias" de Deus), 
3) o amor a Deus (para chegar à "essência" de Deus).

Eles explicam que só conhecendo as "energias" de Deus (na etapa 2) se pode saber o que é Deus, para o poder amar (na etapa 3). 
Dizem também que o processo de aproximação a Deus (etapa 3) nunca está terminada.

São Gregório de Nissa fala de três etapas do crescimento espiritual: a escuridão inicial da ignorância , em seguida, a iluminação espiritual e finalmente, a escuridão da mente na mística contemplação do Deus que não pode ser compreendido.

Para Gregório há uma distinção ontológica entre o criado e o incriado.

O homem é uma criação material, e, portanto, limitado, mas infinito em sua alma imortal e tem uma capacidade indefinida de crescer para perto do divino.

Gregório acreditava que a alma é criada simultaneamente à criação do corpo (em oposição a Orígenes , que acreditava na preexistência), e que os embriões eram assim, pessoas.

Para Gregório, o ser humano é excepcional pois é criado na imagem de Deus


S. Gregório de Nissa


A humanidade tem tanto auto-consciência como livre arbítrio, o último dá a cada um poder individual existencial, porque para Gregório, quem desrespeita a Deus , nega a sua própria existência.

No Cântico dos Cânticos , Gregorio metaforicamente descreve vidas humanas como pinturas criadas pelos aprendizes de um mestre: os aprendizes (as vontades humanas) imitam o trabalho de seu mestre (a vida de Cristo), com belas cores (virtudes) , e assim o homem se esforça para ser um reflexo de Cristo.

Gregório, em contraste com a maioria dos pensadores de sua época, viu grande beleza na Queda :. do pecado de Adão a partir de dois seres humanos perfeitos acabaria por surgir a miríade da vida.

Assim os Padres Capadócios compartilham a idéia de que a realidade de Deus é completamente inacessível aos seres humanos e que o homem só pode conhecer a Deus através de uma jornada espiritual em que o conhecimento é rejeitado em favor da meditação.





A Capadocia foi também um região onde se implantou na época muçulmana a filosofia Sufi tendo como Mestre principal um sufi que viveu precisamente no século 13 e que teve um papel muito importante em todo o movimento sufi. Ele chama-se Haci Bektas e os seus seguidores se chamam de Bektashis e ainda hoje se encontram em varias zonas do mundo ( Bósnia, Albãnia , India).

O amor de Deus e o amor do homem jazem na base da filosofia Haci Bektas que examinou o universo que o Criador tinha criado e foi profundamente influenciado pela perfeição, harmonia que ele observou no universo.
Os Bektasis dão importância à iniciação nos mistérios como os gnósticos cristãos, incluem as mulheres no seu meio, dão valor divino e sagrado à natureza como os animistas, dizem que o acesso a Deus se faz sem intermediarios como sacerdotes ou gurus e, dizem que a percepção do divino se faz pelo esforço pessoal de cada adepto.

De acordo com Hacı Bektaş há quatro estágios na abordagem a Deus:

Seriat: os comandos divinos (as leis da religião)
Tarikat: os princípios das ordens místicas
Marifet: conhecimento em questões religiosas e espirituais
Hakikat: conhecimento em todos os mistérios da religião, da vida e do universo

Seriat (regras, os comandos, as leis divinas ): a capacidade de julgar entre o limpo e o sujo, entre o certo e o errado. Um homem deve aprender a julgar, praticando o que Deus tem prescrito no Alcorão e evitar o que Ele nos disse deve ser evitado. Mas o conhecimento por si só não pode elevar um homem.

Tarikat (a prática das ordens misticas) : o caminho dos dervixes que oram dia e noite, invocando o nome de Deus. Eles se esforçam para a vida eterna, mas devem evitar a forma monótona e apática; se a adoração de um homem não é suficientemente activa e dá lugar ao orgulho, ele não pode esperar alcançar a elevação.

Marifet (o conhecimento das questões religiosas e espirituais ou iluminação): os místicos iluminados são como a água, que é limpa e faz outras coisas limpas . Eles são amados por Deus, pois mesmo que eles não olhem para os interesses mundanos e celestiais, eles respeitam fielmente as regras.

Hakikat (conhecimento em todos os mistérios da religião, da vida e do universo ou realidades): Os homens que conhecem as realidades são a mais elevada das quatro categorias. Eles praticam a renúncia, modéstia e submissão; eles apagaram-se na presença de Deus, já atingiram o nível de contemplação e oração constante (münacat), eles são homens santos que amam a Deus e são amados por Ele.

Assim, estas quatro categorias são como quatro portas sucessivas através das quais o homem deve passar para chegar ao mais alto nível.
Cada porta é constituida por dez etapas ou obrigações, fazendo um total de 40 ao todo.
Nenhum homem pode chegar a Deus sem ascender cada passo.

Por exemplo, ‘’se um homem ora sem realmente acreditar, ou age desonestamente na sua caridade, ou muda de idéia ao retornar de sua peregrinação, ou não tem fé em Maomé ou de um dos seus discípulos, tudo é em vão ".

O Caminho Bektashi insiste na necessidade de um guia espiritual para levar o crente ao longo desta caminhada longa e extenuante e que vai emprestar seus ouvidos e sua mão durante toda a viagem espiritual do candidato que se esforça para remover os maus pensamentos e dúvidas que o atormentam.
Sem um guia ninguém pode alcançar seu objetivo, mesmo se ele ou ela é dotada de conhecimento inato, virtude e força espiritual. 
O viajante precisa avançar sua autoconfiança e de nutrir sua alma.



Nesta região encontra-se também a origem da famosa Sema , a dança sufi dos Derviches rodopiantes, cuja escola nasceu a partir dos ensinamentos do Mestre sufi Mevlana Celaleddin-I Rumi (1207-1273).

A cerimônia dos derviches rodopiantes simboliza os diferentes significados de um ciclo místico até à perfeição (ascensão - Mirac). 

A cerimônia dos dervixes rodopiantes representa toda uma jornada mística de ascensão espiritual do homem através do amor, para encontrar a verdade e chegar ao "perfeito". 
Em seguida, ele retorna desta jornada espiritual como um homem que atingiu a maturidade e uma maior perfeição, a fim de amar e servir a toda a criação, a todas as criaturas, sem discriminação em matéria de crença, classe ou raça.




O dervishe com seu chapéu ( simbolo da morte do seu ego) e sua saia branca (simbolo da mortalha do seu ego) nasce espiritualmente para a verdade. 
Quando ele remove o manto preto, ele viaja e avança para a maturidade espiritual através dos estágios da cerimónia.
No início de cada fase segurando seus braços cruzados, ele representa um número e atesta a unidade de Deus.

Enquanto girando com os braços abertos, mão direita dirigida para o céu, pronto para receber a beneficência de Deus, contemplando a mão esquerda virada em direção à terra para dar o que ele recebeu , ele vira da direita para a esquerda, girando em torno do coração. 
Esta é sua maneira de transmitir o dom espiritual de Deus para as pessoas sobre quem Deus olha com uma divina vigilância. 
Girando finalmente em torno do coração, da direita para a esquerda, ele abraça toda a humanidade, toda a criação com carinho e amor. 

Hoje em dia é apenas um mero espectáculo turistico sem qualquer força espiritual.

Para um derviche ( que significa Caminhante em arabe ) é mais uma viagem de conhecimento e aprofundamento interiores.