-- De onde vens e para onde vais ?
-- Venho de Deus na escuridão e para Deus vou na Luz.

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terça-feira, 31 de março de 2020

Virus - que diferenças entre quem está no Caminho e quem ainda está fora dele

Discipulo:

Mestre, com a ameaça do virus actual,  em que divergem as posturas de quem Caminha e de quem ainda não o faz ?

Mestre :

Olha, meu filho, para todos nós, hoje em dia, as nossas viagens individuais na vida estão ligadas pela ameaça e pelo medo do coronavírus (vírus que cresce rapidamente no nosso materialismo e alucinação). 

Para alguns de nós, já significou a morte de pessoas queridas. 

Em todos nós, despoleta a consciência da nossa mortalidade e da incerteza das mudanças que não podemos controlar.

Nestes periodos negros, surge, porém, uma memória colectiva, suprimida antes pela hiper-distracção, que se torna de novo consciente.


Para quem já Caminha e estava já antes Focado e Atento e Desapegado, a memória da vida é experienciada como uma viagem espiritual, que começa e termina em mistério, cheia de inexplicável dor e alegria, mas cheia de Maravilhas.

É a Maravilha que, no final, nos liberta do medo.

Para quem ainda estava apegado ao mundo, consumo, poder, ganancia, fica agora confrontado- exposto, pela primeira vez, à aflição real: a de não terem um caminho espiritual, numa época como esta, tendo falta duma fonte de significado, sem ver a centelha de Vida escondida na escuridão das nossas mortes.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Mistérios e Iniciações Òrficas

Mistérios e Iniciações Òrficas 

Orfeu é uma figura lendária, de herói, semideus, filho de uma Musa e do Rei da Trácia, tido como poeta e músico insigne, tocador da lira de nove cordas (Nove Musas), cuja melodia paralisava homens e animais: os animais ferozes deitavam-se a seus pés como cordeiros; as árvores vergavam para melhor escutá-lo; os homens mais coléricos sentiam-se possuídos de ternura e bondade.
Grande educador da humanidade, foi iniciador dos cultos de Dionísio e dos mistérios órficos, prometendo a eternidade a quem neles se iniciasse.

Como a todos os heróis místicos, as lendas multiplicaram-se: mas a lenda mais difundida e sugestiva, é a da sua descida e regresso do Mundo dos Mortos, o Hades , onde a regra era enquanto caminhassem pelas trevas do Hades, em caso algum, poderia olhar para trás, até que atingissem o exterior. Ele não cumpriu pois foi assaltado por uma 'dúvida' e não resistindo, olhou para trás, transgredindo a regra e assim  ”morrendo pela segunda vez…”, alegoria que o caminho é sempre em frente...o passado já passou ...

Os Mistérios Órficos eram um culto que pretendia explicar o começo do homem (descida da alma), a sua personalidade e o seu destino (subida da alma). 

Os ensinamentos, a liturgia, os rituais funerários, a ajuda, eram ministrados pelos Mistérios, pois o homem inteligente, conhecedor, pode escolher o lado do Bem. 
Não o ignorante.

Origem dos deuses

No início era a Noite, e não o Caos. A Noite é “a geradora universal”.

Quanto aos deuses: “Zeus é o começo, o meio e o fim de todas as coisas”.
A seguir, Zeus criou um numeroso panteão no qual é preciso salientar Dionísio-Zagreus que terá realce fundamental no culto do orfismo.

Mas tudo emanando do Uno (Mônada), para a tríade e desta para a Ogdóade de oito imortais: Fogo, Água, Terra, Ar (Urano), a Lua (Selene), o Sol (Helios) Fanes e a Noite.
Os quatro primeiros elementos (deuses) são personificados pela deusa-mãe, representando Orfeu o seu filho, que vê e nomeia os deuses através de fórmulas mágicas, fórmula essa escondida em grupos de letras (números em Pitágoras).



 Origem do homem

O Homem é fruto das cinzas de um crime: Dessas cinzas, nasceram os homens, com sua dupla natureza: o corpo, o mal, da natureza dos Titãs; e a alma, o bem, de natureza divina, uma centelha divina de Dionísio, deus da fertilidade e da morte.
A verdadeira questão é saber qual a natureza que vai prevalecer (dualismo do Zoroastrismo).

Doutrina Órfica

Nos Mistérios órficos as águas do esquecimento do rio Letes não fazem a alma esquecer a existência terrestre, ao contrário, fazem-na esquecer o mundo celeste e levam-na de volta à Terra, reencarnando noutro corpo, um novo devir. 
Não beber da água do Letes era conservar a memória de existências anteriores, e com isso o fim do ciclo de reencarnação, ou pelo menos permitir, com essas lembranças, corrigir os passos dados no caminho errado.

Os Mistérios providenciam instrumentos para a viagem: ritos funerários, ritos de purificação e a unção dos doentes. 
Pelas lamelas encontradas, forneceriam mesmo instruções para ultrapassar a viagem depois da morte e de como a alma se deveria comportar : “À esquerda da morada do Hades, tu encontrarás o Lago da Memória, e os guardiões estarão lá. Diz-lhes… eu sou o menino da Terra e do Céu estrelado, mas estou morrendo de sede. Dá-me rapidamente a água fresca que flui do Lago da Memória”. ( Como acima se disse deviam conservar a memória para não reencarnar de novo e assim terminar o ciclo das reencarnações, pelo que nunca deviam beber da água do Rio Letes, água do esquecimento mas sim deste Lago da Memória).

Em uma outra lamela a alma informava que pertencia a um culto de Mistérios: “Venho de uma comunidade de puros, ó puro soberano dos Infernos”.
Ao que Persófone, a Rainha do Hades, replica: “Saúdo-te, toma o caminho da direita em direção aos prados sagrados e aos bosques de Perséfone”.
Era o prêmio que todos os iniciados procuravam!

Os mistérios fornecerão ainda um conjunto de regras de vida (vida órfica) destinada a um bem morrer, de alma pura. Para isso deveria seguir um conjunto de regras de todo o gênero:

Dieta vegetariana,constante purificação do corpo, pela água: ritos de purificação que se estendiam ao cadáver antes da alma iniciar a viagem.

Pois se entendia que tudo o que era impuro era abominável para os deuses.
A purificação era não só individual como coletiva.
Levar uma vida de contemplação, para atingir o êxtase, um estado em que a alma se aproximava da Harmonia universal. 
Para tal a música era um auxiliar precioso pois proporcionava-o.
Participar nos rituais mágicos onde, pelo êxtase e por fórmulas mágicas o iniciado se aproximava dos deuses. 


A Iniciação

Como todas as Escolas guardavam segredo sobre os seus ensinamentos, pelo que comportava um Juramento de Silêncio e uma Iniciação.
Esta era uma opção pessoal, mas o candidato era previamente avaliado sob o ponto de vista físico, de conhecimentos e psicológico.
Só depois era admitido numa cerimônia ritualística.

A iniciação constaria de um Juramento de Silêncio e de um ritual de iniciação em que o neófito era levado para uma cave onde decorria a mesma e onde lhe eram ministrados os primeiros conhecimentos escondidos nos símbolos, palavras (e números), e as fórmulas mágicas.

Deveria terminar com um compromisso de honra, solene.
Também ele com significado oculto para se manter secreto, mesmo que conhecidas as palavras.
É referida por muitos escritores a fórmula desse juramento que apresenta várias versões muito semelhantes. “Comprometo-me a honrar e venerar, na cripta, a Eros das Montanhas, o grande sagrado carismático, a ladrar três vezes, causando medo sagrado”.

A interpretação seria a de honrar Deus e venerar o seio da Deusa-mãe onde se dá a concepção do Filho, na presença do Deus masculino, criador, Eros e das três Deusas femininas (Ereshigal, Hecate e Brimo), representando as transformações da Deusa-mãe.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O segredo das Religiões de Mistérios ou Ordens Iniciáticas




 O segredo das Religiões de Mistérios


São conhecidas as cerimónias de Mistérios que se desenrolaram na Grécia antiga seja em Elêusis ou na ilha de Samotrácia mas pouco se sabe dos seus rituais.

Para que serviam? Qual o simbolismo dos seus rituais?

Sabe-se que :

---A regra do silencio é comum a todos os cultos de Mistérios.
-- A prática dos cultos não se divulga senão ao circulo fechado de pessoas (Iniciados) que neles participam. 

Acredita-se que o fundamental desses cultos esteja ligado à evolução da pessoa humana como ser espiritual e a fazer-lhe ‘ver’ por determinadas práticas que o que ‘importa’ não é a pessoa se ‘ligar’ ao mundo fisico e viver apenas em função dele, mas ao contrário, ‘vendo’ através dos rituais que existe uma realidade espiritual para além deste mundo, se possa ‘libertar’ dele, com amplos beneficios próprios seja em vida seja pós morte.

Felizes aqueles que perceberam antes de descerem á terra.
Sabem o que é  a morte, o fim da vida.
Pindaro citado por Clemente de Alexandria

Três vezes felizes aqueles mortais que conheceram os Mistérios
Quando morrerem, esses viverão
Os outros sofrerão males terriveis.
Sófocles




No Mistério e pelo ritual iniciático, o que conta é a ‘Visão’ que se tem, a visão garante do bem estar futuro ( em vida como ser equilibrado consigo mesmo, com os outros e com o mundo, e em morte como ser cooperante com o Divino).

Essa ‘Visão’ poderia não ser ensinada expressamente mas apenas ‘pressuposta’ pelo candidato durante a sua expêriencia ritual.

Os Mistérios ensinam a morrer com uma esperança melhor, oferecem aos mortais um refúgio contra os sofrimentos terrenos, uma sobrevivência bem aventurada em companhia dos deuses.
Cícero

Os iniciados livres dos corpos, se alegrarão dos beneficios celestes.
Proclus

Mais piedosos, mais justos e em tudo, melhores.
Diodoro de Sicile

Quem passou nos Mistérios domou o Cerbero, o cão monstruoso.
Euripedes faz dizer a Herácles




Haveria duas fases na iniciação aos Mistérios, a fase dos Pequenos Mistérios e a fase dos Grandes Mistérios (chamada também de Epoptia ou Iniciação Perfeita).

Ambas consistem, não em teorias intelectuais mas profundas experiências marcantes.

O Iniciado não aprende nada, o Iniciado recebe-vive impressões, sentimentos-emoções após ser colocado em ‘disposições’ que o predispõem a recebê-las.
Aristóteles

Nota : Que lhe mudam o sentido da vida que até aí tinha vivido, ocasionando uma morte para a vida antiga e um nascimento para uma nova vida, que é no fundo uma nova maneira de encarar, de perpectivar a vida.  O que muda é como se vive, de virado para fora para virado para dentro. 

Nos Mistérios apenas se contempla.
Clemente de Alexandria

Nota : Contemplar está associado á Epoptia.  


As consagrações ( os ritos iniciáticos) são para as almas, de um modo desconhecido e divino, uma causa de uma Simpatia.
Proclus

Nota: Simpatia equivale ao ‘abrir os olhos’ para uma nova realidade.
  

Nos Pequenos Mistérios haveria uma purificação corporal com lavagens rituais, determinado tipo de jejum, e eventualmente um periodo de abstinência sexual.  

Nos Grandes Mistérios, que se praticavam um ano após os Pequenos, o neófito passa ‘por labirintos confusos, desvios penosos, marchas perturbadoras e sem fim, com tremores, angústia e suores frios’, tudo isto às escuras até finalmente ‘ver uma Luz pura e maravilhosa’, a Epoptia que coroa essa noite de trevas. 

Existiria uma dupla impressão, terror inicial e serenidade final.


Descia através dos elementos à escuridão dos defuntos, via em plena noite um sol radioso, contemplava os deuses de cima e de baixo e maravilhado, conhecia-se a si mesmo e fazia-se re-conhecer pelos deuses’. 

O simbolo dos Grandes Mistérios era a ‘espiga de trigo colhida em silêncio’, representando o trigo que morre no inverno para renascer na primavera ( se o grão vingar=se o iniciado preservar) como um regresso à vida pela morte (pela mudança de atitude que fez), sendo que depois da morte fisica o Iniciado viveria integrado na existência celeste-divina-eterna que comprovou em vida ao passar pelos Mistérios.  



Quando a terra for verdejante das flores primaveris, tu te elevarás por cima das brumas negras para o regalo dos deuses e dos homens mortais.
Hino de Homero

Saí da sala dos mistérios como que estranho a mim mesmo.
Sópatros   

Nota : Que melhor definição da mudança de atitude obtida ? Passou a ser Ele, deixou de ser eu.

Os Mistérios têm como vocação de servir de ponte, de relação entre o homem e o Divino, de nos unir ao mundo e aos deuses para com eles cooperarmos.

Servem para simbolizar os acontecimentos da vida humana e dar resposta às perguntas dos homens ‘inquietos’, como disse Marguerite Yourcenar referindo-se aos Mistérios de Elêusis.