-- De onde vens e para onde vais ?
-- Venho de Deus na escuridão e para Deus vou na Luz.

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

O ´pobre’ do José

O  *pobre* do  José


José era marido de Maria, estava na sua vida normal, como cada um de nós no dia a dia.

De repente dizem-lhe que Maria vai ter um filho sem ele….coisa inesperada e ‘chocante’, tal como a nós nos pode acontecer a qualquer momento.

José faz como nós, revolta-se e não aceita ?   

Não, porque José tem aquilo que nós queremos mas que na maioria das vezes não temos….Humildade e Aceitação !!!

Como diz Teresa de Avila ‘’Não entendo como se pode pensar em Maria sem agradecer a José o auxílio que lhes prestou. Quem não encontrar um mestre que lhe ensine o Caminho, tome este  José por mestre e não se enganará no caminho’’.

Fazer face ao Imprevisto

O mínimo que podemos dizer, é que este anúncio é desconcertante para José. Acolher a vinda do Filho de Deus na sua vida vai levá-lo a renunciar aos seu projeto pessoal, ou antes, a renunciar à forma como tinha, legitimamente, encarado a realização do seu projeto pessoal.

Também cada um de nós está na vida sujeito a surpesas e imprevistos que não se enquadram no ‘nosso ‘ projecto de vida. Como os encaramos e os resolvemos depende óbviamente da evolução espiritual de cada um.

Os imprevistos vêm à nossa vida não forçosamente da maneira que imaginamos mas da maneira que Ele quiser…..imitando José abramos mão da nossa ‘casca’ e ‘preconceitos ‘ e tal como ele aceitemos o impensável que estava prestes a produzir-se na sua vida.

Esta Humildade e Aceitação a renunciar a projectos ‘normais’ de vida é um mergulho no desconhecido que pode suscitar um verdadeiro pavor: é-lhe pedido que aceite uma paternidade inteiramente diferente do que ele, legitimamente, tinha previsto.

Também nós podemos saber que premissas estão em causa, pequenas ou grandes, nos nossos projetos pessoais. Evidentemente, importa que sejamos atores responsáveis da nossa vida, que não nos deixemos levar à deriva pelos acontecimentos. Mas, quando o inesperado surge na nossa vida, José convida-nos a não temer, a ter confiança, a fim de podermos acolher, mesmo naquilo que não tínhamos previsto, o Desígnio do Universo e a colaborar com Ele.

Também nós, através das circunstâncias por vezes desconcertantes das nossas vidas, somos chamados a descobrir como vamos participar no Designio Divino com as nossas vidas.

José mostra-nos que o Caminho implica sobretudo discrição e discernimento.

«José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor».

Tal é José que assim, sem ruído, age segundo a Palavra de Deus, na humildade daquele que não procura boas razões para cumprir a sua própria vontade, em lugar da Vontade do Senhor, mas que encontra a sua alegria em agir, com silenciosa confiança, segundo a Palavra de Outro.

E nós ? Como faremos o que a Vida espera de nós? Em que sonhos escutaremos a voz de um anjo que nos dirá por que caminhos andar?

Apenas e só, permanecendo Despertos !!  Atenção, Foco a cada minuto, a cada segundo das nossas vidas !!

E isto basta – e quanto! – para que nos levantemos em cada manhã e façamos o que o Senhor do Universo ( alguém dirá ‘o que a Vida’ ) espera de nós.

José não toma apenas conta da criança , José vive na Sua Presença, deixa-se humildemente guiar por Ele. José é o «homem que passa despercebido, o homem da presença quotidiana, discreta e escondida»

Assim também devemos nós nos comportarmos, aceitar, agradecer a Presença na nossa alma e deixarmos guiar por Ela, passo a passo, através de um Caminho que não conhecíamos antecipadamente e não pela nossa pobre egocêntrica vontade.

Este é o Caminho da nossa Fé no nosso Criador, ter plena Confiança que ele sabe melhor que nós o que é Melhor para nós .

Este é o Caminho da vida de todos os dias, ali, onde estamos e não onde sonharíamos estar; o Caminho da coragem e da perseverança, da criatividade em tempos de crise.

Tal é a santidade da vida na presença de Deus, da escuta paciente, crente, da Palavra de Deus e da prática, humilde e determinada, dos apelos recebidos de Deus, como José que, quando acordou,«fez como lhe ordenou o anjo do Senhor».

Dicas práticas

             presto atenção aos «pequenos serviços» que posso prestar às pessoas que encontro – as que me são próximas e aquelas com quem me cruzo «por acaso»: fazendo por elas os «pequenos nadas», semeio e recolho já qualquer coisa da alegria do Natal.

             procuro reconhecer as atenções de que beneficio: nada é banal, cada um desses pequenos gestos é um eco da mão de Deus que vem tomar conta de mim.

             face a uma situação desconcertante ou inesperada, peço a Graça de reconhecer a que tipo de abertura talvez ela me chame. Não se trata de aceitar as coisas inaceitáveis, mas de estar disponível para modificar, com liberdade, o meu olhar sobre as coisas, os acontecimentos, as pessoas, a fim de ver mais longe.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Deus está aqui e eu estou noutro lado

   Deus está aqui e eu estou noutro lado


A alma cai na conta do que está obrigada a fazer, e
vê que a vida é breve , que o caminho da vida eterna é estreito,  que o justo se salva a custo,  que as coisas do mundo são vãs e enganosas, que tudo termina e acaba como a água que corre, que o tempo é incerto, o juízo rigoroso, a perdição muito fácil e a salvação muito difícil.

Por outro lado, sabe que tem uma enorme dívida para com Deus: Ele criou-a só para Ele, portanto, tem de O servir toda a sua vida; redimiu-a só por Si, portanto, só lhe resta na sua vontade uma resposta de amor.

 Ela sabe que, mesmo antes de nascer, tem muitos outros benefícios que deve a Deus e, no entanto, a maior parte da sua vida tem decorrido no ar.

De todas estas coisas, da primeira à última, há de prestar contas e dar razões até ao último centavo , quando Deus vier esquadrinhar Jerusalém com lanternas acesas, pois já é tarde e, talvez, o fim do dia.

Para remediar tanto mal e dano, sentindo sobretudo Deus aborrecido e escondido por ela O ter esquecido no meio das criaturas, tocada de pavor e dor interior de coração por tanta perdição e perigo, renunciando a todas as coisas, põe tudo de lado sem adiar um dia ou uma hora, e, com ânsias e gemidos saídos dum coração já ferido pelo amor de Deus, começa a invocar o seu Amado, dizendo:


Aonde Te escondeste, Amado,

e me deixaste num gemido?

Qual veado fugiste

Havendo-me ferido.

Atrás de Ti clamei, tinhas partido!

 

A nossa conversão começa por uma tomada de consciência:

Deus está aqui e eu estou noutro lado.

Deus está aqui e espera-me, mas eu deixo-me atrair e polarizar por outras realidades.

Esta tomada de consciência pode ser dolorosa, tal como quando compreendemos que durante muito tempo nos enganámos sem sequer nos apercebermos disso.

Mas a dor não nos deve conduzir ao desencorajamento, a nossa dor não deve ter a última palavra.

Ela é como um aguilhão que nos faz avançar.

E o nosso caminho de conversão prossegue com um grito, uma súplica que fazemos a Deus: «Vem em minha ajuda!»

 Esta tomada de consciência da nossa dispersão – Deus está aqui e eu estou longe– vai a par com a tomada de consciência dos nossos apegos desordenados.

 Os apegos desordenados são as nossas formas de nos relacionarmos com as pessoas, com as coisas, com os acontecimentos, as ideias, e que nos impedem de ser livres.

Todas essas realidades podem ser boas em si mesmas, mas posso ter com elas uma relação que me impede de ser livre.

Para ilustrar esta dificuldade e as consequências nefastas que tem sobre a vida espiritual, existe a alegoria da imagem dum pássaro que estivesse preso por um fio: não pode voar para o Céu da presença de Deus.

Eis alguns hábitos de imperfeição: o costume de falar muito, o apego a uma coisa da qual nunca se quer desfazer, bem como a uma pessoa, um vestido, um livro, uma cela, determinada espécie de comida, certas bisbilhotices e gosto de querer saborear coisas, como, por exemplo, saber, ouvir e outras semelhantes.

 E, enquanto a alma permanecer nessa imperfeição, por mais pequena que seja, é escusado tentar avançar na perfeição.

Pouco importa que um pássaro esteja preso por um fio delgado ou por um fio grosso, porque, apesar de delgado, enquanto não se desfizer dele, estará tão preso para voar como por um grosso.

É verdade que o delgado é mais fácil de partir, mas, mesmo assim, se não o partir, não voará.

Assim também a alma que está presa nalguma coisa: por muita virtude que tenha, não chegará à liberdade da vida eterna. 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Dizem que Ele está cá dentro mas...eu não O vejo....

 


Discipulo:  Mestre, dizem que Deus está em nós mas eu não O vejo.

Mestre : Ele está em nós mas está escondido.

Discipulo : Escondido ? Porquê ?  Se Ele nos criou e nos dá vida , porque se esconde ?

Mestre : Deixa-me ver se te consigo explicar coisa tão Sublime.

                Duas coisas para estarem juntas 'em consciência' têm de estar no mesmo Patamar Energético, na mesma Vibração.

                Ora, se falamos do Criador, falamos numa Elevada Vibração, numa Energia, uma Luz muito Especial.

                Ora, para se estar nesse elevado Patamar de consicència, há que 'estar com os pés no mundo mas com a cabeça nos Céus', ou seja, a alma que O quer achar tem de sair de todas as coisas segundo a afeição e a vontade, entrar em recolhimento interior e olhar para as coisas e afectos do mundo com total desprendimento, não apenas desprendendo-se delas materialmente mas e sobretudo deles se afastando com o afecto e a vontade.

             Existe dentro de nós uma série incontável de inclinações, impulsos e paixões desordenadas que nos arrastam para as criaturas e nos levam a entregar-lhes o nosso coração, a situar nelas a nossa esperança, a procurar nelas a nossa consolação.  Assim vivemos neste mundo superficial que nos absorve ao ponto de nos esquecermos da nossa outra vida mais profunda, interior. Deus está no fundo de nós mas nós não penetramos nesse fundo porque estamos absortos apenas nas preocupações exteriores da vida neste mundo.

             Na verdade Deus não se esconde nem se afasta de nós, nós é que nos escondemos e nos afastamos Dele com o nosso apego constante aos afectos e ' brilhos' do mundo. 

                Tudo isso nos afasta do 'nivel Energético' do Criador e por isso Ele se 'esconde' de nós. 

               É como se pertencessemos a uma Orquestra e o nosso instrumento estivesse em desarmonia com os restantes e daí resultar um péssimo concerto, estando as nossas 'cordas' em dissonància com a Obra, pois estamos escravos dos afectos do mundo. 

              A única 'solução'  é o Caminho do Nada.  

Porque só sendo nós Nada, estamos vazios do mundo e só aí podemos ser Cheios do Tudo que é Deus. Morrer para o mundo e para a nossa vontade própria é Nascer para a Vida em comunhão com o Universo .

              Sendo Nada para o mundo, sendo Nada de vontade própria, entramos nesse Patamar Elevado de Energia e Vibração onde o dois se faz Um.

              Onde a nossa vontade é a Vontade do Criador, onde já não precisamos de O procurar pois Ele já não está escondido mas sim a agir em nós e a guiar os nossos pensamentos, palavras e acções no sentido Bom e Certo. 

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Abandona as Multidões e Voa para O Reino !!!

Acima de tudo, para sermos livres, para sermos nós mesmos, temos que nos afastar da multidão.

Existem 2 multidões : a exterior e a interior.

A multidão exterior é um animal gerado pelos medos escondidos.

Está cheia de agressividade; é mantida unida pelo medo do que não está dentro dela. Torna-se violenta por causa do medo. A multidão vira-se sempre contra a pessoa livre por causa do seu próprio medo da liberdade. Porém, o problema para os que são livres é que isto não significa que tenhamos que sublinhar a nossa individualidade para nos mantermos livres. De facto, as multidões formam-se, em primeiro lugar, como não seres, por super-egoístas que sublinham a sua individualidade a qualquer custo, à custa dos que estão à sua volta. Os que são livres são capazes de ser eles mesmos em comunhão e não precisam duma colectividade impessoal (colectividades religiosas, sociedades esotéricas, grupos de auto ajuda, etc, etc...) para afirmar o seu ego, que, pelo contrário, é inseguro ou invejoso.

Abandonar a multidão interior é sempre o primeiro passo no caminho espiritual.

É o primeiro passo solitário para sermos nós mesmos e é muito mais um processo interior do que possamos pensar. O que, muitas vezes, parece sermos nós mesmos é meramente uma afirmação do ego, tentando ser diferente, tentado ser especial, tentando estar separado, tentando ser o vencedor. Mas abandonar a multidão é um desapego do ego e uma descoberta, não do isolamento, mas do envolvimento e do relacionamento com os outros. 

A verdadeira multidão de que devemos fugir, a verdadeira prisão, está dentro de nós. 


Não a vemos, muitas vezes. As grades que erguemos para manter os outros lá dentro são, muitas vezes, de facto, as que nos rodeiam, mantendo os outros de fora. Pensamos que a multidão está fora de nós e, assim, culpamos alguma coisa fora de nós por qualquer falta de liberdade que sintamos. Mas a multidão que nos priva da liberdade é interiorizada. Primeiro que tudo, temos que lançar o foco sobre ela, mesmo que isso possa ser desconfortável ou desagradável. 

Alcançar o conhecimento de nós mesmos não é um assunto agradável. 

Mas temos de ser capazes de ver a causa da nossa falta de liberdade e vemo-la, realmente, no caminho muito simples de nos sentarmos, em quietude de corpo e mente.

Sentando-nos quietos, durante meia-hora, a cada manhã e cada fim de tarde, iremos encontrar a multidão. E, ao encontrá-la, iremos libertar-nos dela. A multidão interior é composta por todos os “eus” estilhaçados que o ego continua a produzir; todas as vozes que clamam, de forma competitiva, por reconhecimento, por auto-afirmação, por domínio; todas aquelas partes feridas e quebradas de nós, os bocadinhos das nossas experiências, os fins pendentes das histórias inconclusas; os desejos e medos, com as suas vozes sem restrições gritando pelo inatingível. 

A multidão está sempre desesperada porque ela sente que aquilo por que anseia não está lá 

enquanto os seus desejos só podem ser atingidos quando ela se torna plena, quando se torna um só “eu”. O ruído da multidão é o fluxo de distracção mental. Quando meditamos, experienciamos essa multidão e a desarmonia do “eu” estilhaçado, sob a forma de distracções. Não há uma única pessoa que não experiencie um certo grau de distracção quando medita. Mas o caminho da meditação não deve ser mapeado por nada tão superficial como as nossas distracções. Deve ser lido pela escala do nosso próprio pequeno “eu”. Saberemos que somos livres quando formos livres de meditar-rezar, em toda a simplicidade e amor. 

O caminho para a liberdade, por entre a multidão das distracções, consiste em meditar-rezar sem nada esperar de volta.

Para encontrar a Verdade de quem somos, temos que abandonar as multidões exterior e interior. Vemos essa Verdade se, simplesmente, pudermos meditar, se conseguirmos ser, simplesmente, nós mesmos.

Não a temos que procurar para que aconteça porque ela irá acontecer dentro de nós, não fora de nós. 

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

“Quem sou eu?”


Somos como Nasrudin, numa história sufi, que foi a um banco para levantar um cheque.

Quando lhe pediram que se identificasse, pegou num espelho, olhou para ele e disse: “Sim, sou mesmo eu.”



“Quem sou eu?” é uma pergunta com que somos confrontados em diferentes momentos da nossa vida, especialmente quando a vida muda de súbito para nós dramaticamente.

Isso é particularmente pungente quando o nosso sentido de identidade esteve dependente dum só aspecto que era importante na nossa forma de definir quem somos e que valor temos.

Assim, quando deixamos de ser precisos, quando nos reformamos ou quando os filhos saem de casa, isso pode ter um efeito devastador.

Perder aquilo que considerávamos ser o nosso papel na vida faz-nos sentir como se tivéssemos removido uma máscara e nada real existisse por baixo.

Portanto, as mudanças abruptas podem causar-nos desorientação e depressão.

Esquecemos quem verdadeiramente somos no fundo.

Quem pensamos que somos? Não sabemos realmente quem somos.

Baseámos a nossa identidade apenas em factores superficiais e exteriores.


Se as marcas da vida , da sociedade, com que fomos influenciados foram positivas, temos autoconfiança e coragem para enfrentar os desafios da vida.

Mas se foram negativas, porque outros nos disseram que éramos um fracasso, que éramos fracos, não éramos suficientemente bons, se nos sentimos vítimas do comportamento de outros, então não temos fé nas nossas próprias capacidades, por muito que futuros empreendimentos nos mostrem o contrário.

De facto, as falsas imagens podem ser muito destrutivas.

Além disso, a projecção exterior de falsas imagens e da energia a elas associadas irá atrair acontecimentos e pessoas que confirmam esta opinião defeituosa que temos de nós mesmos – uma profecia que se faz cumprir a ela própria.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

A ORAÇÃO AO DIVINO


Qualquer oração de qualquer Tradição 'verdadeira', tem o seu significado simbólico- mistico-esotérico.

Abaixo segue alguma Luz sobre a oração da tradição cristã, O Pai Nosso, elementos úteis sobretudo para quem já começou a Caminhada e percorreu algumas ''etapas'' do Caminho e já interiorizou este Simbolismo na sua vida.

Em anexo vai um quadro das várias ligações do texto sagrado aos vários aspectos do Ser humano.

                           O Pai Nossso

O Pai Nosso é uma fórmula abstrata ao melhoramento e  purificação de todos os veículos do homem.

Por ex. o cuidado a prestar ao corpo denso-materia está expresso nas palavras: “o pão nosso de cada dia dai-nos hoje”.

A parte que se refere às necessidades do corpo vital é: “perdoai as nossas faltas-pecados, assim como nós perdoamos a quem nos ofendeu”.

O corpo vital é a sede da memória.

Nele estão arquivadas subconscientemente as lembranças de todos os acontecimentos passados, bons ou maus, isto é, tanto a injúria como
os benefícios feitos ou recebidos.

Lembremos que, ao morrer, as recordações da vida são tomadas desses arquivos imediatamente depois de abandonar-se o corpo denso e que todos
os sofrimentos da existência “post mortem” são resultado dos acontecimentos aí registrados como imagens.

Se pela oração contínua obtemos o perdão ou esquecimento das injúrias que tenhamos praticado e procuramos prestar toda compensação possível, purificamos nossos corpos vitais.

Perdoar àqueles que agiram mal contra nós elimina todos os maus sentimentos e salva-nos dos sofrimentos “post mortem”. 

Além disso, prepara o caminho para a Fraternidade Universal, que depende mui especialmente da vitória do corpo vital sobre o corpo de desejos.

As idéias de vingança são impressas pelo corpo de desejos, em forma de memória, sobre o corpo vital.

A vitória sobre isso é indicada por um temperamento equânime em meio dos incômodos e sofrimentos da vida.

O aspirante deve cultivar o domínio próprio, porque tem ação benéfica sobre os dois corpos.

A Oração do Senhor exerce o mesmo efeito porque ao fazer-nos ver que estamos injuriando os outros voltamo-nos para nós mesmos e resolvemo-nos a descobrir as causas.

Uma dessas causas é a perda do domínio próprio, originada no corpo de desejos.

Ao desencarnar, a maioria dos homens deixa a vida física com o mesmo temperamento que trouxe ao nascer.

O aspirante deve conquistar, sistematicamente, todos os arrebatamentos do corpo de desejos e assumir o próprio domínio.

Isto efetua-se pela concentração sobre elevados ideais, que vigoriza o corpo vital.

Feita com devoção pura e impessoal, dirigida a elevados ideais, a oração é muito superior à fria concentração.

A oração para o corpo de desejos é: “Não nos deixeis cair em tentação”.

O desejo, o grande tentador da humanidade, é o grande incentivo para a ação. 

É bom quando cumpre os propósitos do espírito, mas quando se inclina para algo degradante, para algo que rebaixa a Natureza, certamente devemos rogar para não cair em tentação.

O Amor, a Fortuna, o Poder, a Fama! Eis os quatro grandes motivos de toda ação humana.

O desejo de alguma ou várias destas coisas é o motivo por que o homem faz ou deixa de fazer algo.

Os grandes Guias da humanidade agiram sabiamente quando lhe deram tais incentivos para a ação, a fim de obter experiências e aprender.

O aspirante deve continuar usando-os como motivos de ação, firmemente, mas deve transmutá-los em algo superior.

Por meio de nobres aspirações, deve saber transcender o amor egoísta que busca a posse de outro corpo, e todos os desejos de fortuna, poder e fama fundados em egoísticas razões pessoais.

O Amor a que se deve aspirar é unicamente o da alma, que abarca todos os seres, elevados e inferiores e que aumenta em proporção direta às necessidades daquele que recebe.

A Fortuna pela qual se deve lutar é somente a abundância de oportunidades para servir os semelhantes.

O Poder que se deve desejar é o que atua melhorando a humanidade.

A Fama a que se deve aspirar é a que possa aumentar nossa capacidade de transmitir a boa nova, a fim de os sofredores poderem encontrar o descanso para a dor do seu coração.

A oração para a mente é: “Livrai-nos do mal”.

Como vimos, a mente é a ligação entre as naturezas superior e inferior.

Admite-se que os animais sigam os seus desejos sem nenhuma restrição.

Nisso nada há de bom nem de mau porque lhes falta a mente, a faculdade de discernir.

Os meios de proteção empregados para com os animais que roubam e matam são muito diferentes do empregado em relação aos seres humanos que fazem tais
coisas.

Mesmo quando um homem de mente anormal faz isso não se considera da mesma forma que ao animal.

Agiu mal, mas porque não sabia o que fazia,  é isolado.

O homem conheceu o bem e o mal quando seus olhos mentais se abriram.

Aquele que realiza a ligação da mente ao Eu superior permanentemente, é pessoa de elevado entendimento.

Se, pelo contrário, a mente está ligada à natureza emocional inferior, a pessoa tem mentalidade inferior.

Por tais razões, a oração para a mente traduz a aspiração de nos libertarmos das experiência resultantes da aliança da mente com o corpo de desejos e de tudo quanto tal aliança origina.

No aspirante à vida superior, a união entre as naturezas superior e inferior é realizada pela Meditação sobre assuntos elevados, pela Contemplação que consolida essa união e, depois, pela Adoração que, transcendendo os estados anteriores, eleva o espírito ao Trono.

No “Pai Nosso” geralmente usado na igreja, a adoração está colocada em primeiro lugar, o que tem por fim alcançar a exaltação espiritual necessária para proferir uma petição que represente as necessidades dos veículos inferiores.

Cada aspecto do tríplice espírito, começando pelo inferior, expressa adoração ao aspecto correspondente da Divindade.

Quando os três aspectos do espírito estão colocados ante o Trono da Graça, cada um emite uma oração apropriada às necessidades da sua contraparte material.

No fim os três unem-se para proferir a oração da mente.

O Espírito Humano se eleva à sua contraparte, o Espírito Santo (Jeová), dizendo:

“Santificado seja o Vosso Nome”.

O Espírito de Vida reverencia-se ante sua contraparte, o Filho (Cristo), dizendo:      “Venha a nós o Vosso Reino”.

O Espírito Divino ajoelha-se ante sua contraparte, o Pai, e diz : 

Seja feita a Vossa  Vontade...”.

Então, o mais elevado, o Espírito Divino, pede ao mais elevado aspecto da Divindade, o Pai, para a sua contraparte, o corpo denso:                                      ''O pão nosso de cada dia, dai-nos hoje”.

O próximo aspecto, em elevação, o Espírito de Vida, roga ao Filho, pela sua contraparte em natureza inferior, o corpo vital:                                                “Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”.

O aspecto inferior do espírito, o Espírito-Humano, dirige o seu pedido ao aspecto mais inferior da Divindade para o mais elevado do tríplice corpo, o de desejos:      "Não nos deixeis cair em tentação”.

Por último, os três aspectos do tríplice espírito juntam-se para a mais importante das orações, o pedido pela mente, dizendo em uníssono:                  Livrai-nos do mal”.

A introdução, “Pai nosso que estais no Céu” é somente um indicativo de direção.

A adição: “Porque Vosso é o Reino, o Poder e a Glória para sempre, Amém”  é muito apropriada como adoração final do tríplice espírito por encerrar a diretriz correta para a Divindade.

O diagrama anexo ilustra a explicação antecedente de forma fácil e simples, mostrando a relação entre as diferentes orações, em suas respectivas cores e os veículos correspondentes.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Fases do Caminho Espiritual



Fala-se muito em Meditação.

O que existe antes e depois ?   É preciso ter um Mestre ?  Em que fases ?

Texto abaixo ilumina um pouco as várias fases do percurso Introspectivo do Caminho Espiritual.

Qual o objectivo ?  Alcançar a Consciência Continua explicada no fim do texto.

ANTES DA MEDITAÇÃO 

1)  Antes sequer de se pensar em meditar é preciso sabermos ter

    CONCENTRAÇÃO

A primeira prática a efetuar é a fixação do pensamento em um ideal e assim mantê-lo, sem permitir que se desvie. Tarefa sumamente difícil, deve ser realizada regularmente pelo menos até que se possa alcançar algum progresso.

O pensamento é o poder que empregamos na formação de imagens, cenas, pensamentos-formas, de acordo com as idéias internas. É o nosso poder principal, e temos de aprender a mantê-lo sob nosso absoluto controle de modo a produzirmos não absurdas ilusões induzidas pelas circunstâncias exteriores, mas sim imaginações verdadeiras geradas pelo espírito, internamente.

A única maneira de imaginar-se corretamente é conseguida pela prática ininterrupta, dia após dia, exercitando-se o pensamento, pela vontade, a manter-se enfocado sobre um assunto, objeto ou idéia, excluindo tudo o mais. O pensamento é um grande poder que costumamos desperdiçar. Permitimo-lo fluir sem qualquer objetivo, do mesmo modo que a água despeja-se no precipício sem aproveitamento na movimentação de uma turbina.

A força do pensamento é o meio mais poderoso para obter-se conhecimento. Se é concentrada sobre um assunto, abrirá caminho através de qualquer obstáculo e resolverá o problema. Possuindo-se quantidade necessária de energia mental, nada existe que esteja além do poder da compreensão humana. Enquanto a desperdiçamos, é uma força de pouca utilidade, mas tão logo estejamos prontos a enfrentar as dificuldades para dominá-la, todo conhecimento poderá ser nosso.

Todo êxito é alcançado através da concentração persistente no objetivo desejado.
Isto é algo que o aspirante à vida superior deve aprender positivamente. Não há outro caminho. A princípio se achará pensando em tudo quanto há debaixo do Sol, ao invés de pensar no Ideal sobre o qual tenha decidido concentrar-se, mas isso não deve desanimá-lo.
Com o tempo verá que já é mais fácil cerrar os sentidos e manter firmemente os pensamentos.

Persistência, persistência, sempre PERSISTÊNCIA e vencerá por fim. Sem ela, entretanto, não pode esperar resultado algum.

Não será de nenhuma utilidade fazer os exercícios duas ou três manhãs ou semanas, e deixar de fazê-los por outro tanto tempo. Para serem eficazes devem ser praticados fiel e ininterruptamente todas as manhãs.

Escolha-se qualquer assunto, de acordo como temperamento e convicções do aspirante, contanto que seja puro e consiga elevar a mente em sua tendência.

O objeto em si pouco importa mas, qualquer que seja, precisa ser imaginado vivente em todos os pormenores.

Se for uma flor, imaginemos que plantamos a semente no solo, fixando bem nossa mente sobre ela. Observemos a seguir o seu desenvolvimento, ao deitar raízes que penetram na Terra em forma espiral. Das raízes principais vejamos sair miríades de pequenas raízes ramificando-se em todas as direções. Então o caule começa a surgir, rompendo a superfície da terra, aparecendo como uma pequenina haste verde. Cresce mais: surge um botão, e dois pequenos raminhos brotam do talo. Continua crescendo, outro jogo de raminhos aparece, e deste brotam pedúnculos com folhinhas. Surge um botão na ponta que cresce até abrir-se, dele surgindo uma formosa rosa vermelha por entre o verde das folhas. Esta continua a desabrochar, exalando delicioso perfume que sentimos perfeitamente como se chegasse até nós, trazido pela balsâmica brisa estival que balança suavemente a bela criação ante nossos olhos mentais.

Só quando “imaginamos” do modo acima, sem sombras ou aparência vaga, mas clara e distintamente, é que penetramos no espírito da concentração.
Os que têm viajado pela índia falam-nos de faquires que mostram uma semente, plantam-na e a planta cresce rapidamente ante os olhos atônitos das testemunhas,  produzindo frutos que o viajante pode provar. Isto resulta de uma concentração tão intensa que o quadro torna-se visível, não somente para o próprio faquir mas também para os espectadores.

As imagens produzidas pelo aspirante serão a princípio obscuras e de fraca semelhança, mas depois, pela concentração, poderá evocar imagens mais reais e viventes do que as coisas do Mundo Físico.
Quando o aspirante estiver apto a formar tais imagens, e já conseguindo manter a mente sobre as imagens assim criadas, poderá tentar o desaparecimento súbito da imagem, mantendo a mente firme, sem pensamento algum, esperando o que possa surgir nesse vazio.
Talvez nada apareça durante muito tempo, mas o aspirante deve ter o cuidado de não criar visões por si mesmo. Se a prática for seguida fiel e pacientemente todas as manhãs, chegará o dia em que no momento que faça desaparecer a imagem, o Mundo do Desejo que o rodeia abrir-se-á aos seus olhos internos como num relâmpago. A princípio pode não ser mais do que um mero vislumbre, contudo não deixa de ser um sinal daquilo que virá mais tarde, sempre que o deseje.

2)  Após ter dominada a Concentração passa-se então à  

MEDITAÇÃO

Tendo praticado a concentração durante algum tempo, enfocando a mente sobre um objeto simples, construindo um pensamento-forma vivente através da faculdade imaginativa, o aspirante pode aprender pela Meditação tudo o que se refere ao objeto assim criado.
Se evocou e concentrou-se na imagem de Cristo por exemplo, é muito fácil reproduzir em meditação os incidentes de Sua vida, Seus sofrimentos e ressurreição, porém muito mais pode ser aprendido pela meditação.

Um conhecimento jamais sonhado inundará a alma com uma luz gloriosa. É melhor praticar com algo que não desperte tanto interesse e não sugira nada de maravilhoso. Procure descobrir tudo o que se refere, digamos, a um fósforo ou a uma mesa comum.

Quando a imagem da mesa se formar com precisão na mente, pense na espécie de madeira de que é feita e donde veio. Volte até ao tempo em que, como delicada semente, caiu na terra do bosque, desenvolvendo-se depois na árvore da qual a madeira foi cortada.
Observe-a crescer, ano após ano, coberta pelas neves do inverno e acalentada pelo Sol estival, crescendo continuamente enquanto as raízes penetram incessantemente na terra. A princípio é um tenro broto, balançado pela brisa. Depois, um arbusto que gradualmente cresce e se torna cada vez mais alto, buscando o ar e os raios do Sol. Com o passar dos anos a copa e o tronco tornam-se cada vez maiores. Por fim chega o lenhador, com seu machado e serra brilhando aos raios do Sol invernal. A árvore é derrubada e despojada da ramagem, ficando só o tronco que logo é cortado em toras e arrastado pelos caminhos gelados para a margem do rio. Ali têm de esperar a primavera, quando a neve derretida aumenta a correnteza. Faz-se um grande amarrado de toras, entre as quais estão os pedaços da nossa árvore. Conhecendo todas as suas pequenas peculiaridades, reconhecemo-la imediatamente entre milhares de outras, tão claramente temo-la gravado em nossa mente! Seguimos o curso da balsa pela corrente, observando as paisagens e familiarizando-nos com os homens que cuidam da balsa e dormem em pequenas barracas sobre a carga flutuante. Por fim, vemo-la chegar a uma serraria. Então, uma a uma as toras são presas a uma cadeia sem fim e içadas d'água. Aqui vem uma das nossas toras, de cuja parte mais larga será feito o tampo da nossa mesa. É erguida com alavancas pelos homens e arrastada para o galpão. Ouvimos o ávido chiado das grandes serras circulares. Giram tão rapidamente que parecem torvelinhos aos nossos olhos. A tora, posta sobre um carro, é conduzida a uma dessas serras, e num momento os dentes penetram na madeira, dividindo-a em tábuas e pranchas.
Algumas madeiras são separadas para formar parte de algum edifício, mas as melhores são levadas às fábricas de móveis. Metidas em estufas, são secadas pelo vapor para não empenarem depois de feito o móvel. Depois são alisadas por uma grande plaina, provida de muitas lâminas afiadas. Finalmente são cortadas em diversos tamanhos e coladas, para formar os tabuleiros das mesas. As pernas são torneadas das peças mais grossas e encaixadas na armação que suporta o tabuleiro. A seguir todo o móvel é alisado novamente com papel-lixa, envernizado e polido, ficando assim acabada, em todos os seus pormenores.
Por último é enviada à loja junto com outros móveis, onde a compramos. Transportada para nossa casa, deixamo-la na sala de jantar.

Dessa maneira, por meio da meditação, familiarizamo-nos com os vários ramos da indústria, necessários para converter uma árvore da Floresta numa peça de mobiliário.
Observamos todas as máquinas, os homens e as peculiaridades dos diferentes lugares. Até seguimos o processo da vida que fez surgir a árvore da delicada semente, e aprendemos que atrás de toda aparência, por simples que seja, há uma grande e absorvente história interessante. Um alfinete; o fósforo com que ascendemos o gás; o próprio gás; e o aposento em que acendemos o gás; tudo tem histórias muito interessantes que vale a pena aprender.

3) Depois de termos dominado a técnica de Meditar podemos passar à  

OBSERVAÇÃO

Um dos mais importantes auxílios ao aspirante que se esforça é a observação. A maioria das pessoas atravessa a vida quase às cegas. E literalmente certo dizer delas: “têm olhos e não vêem; têm ouvidos e não ouvem”. Na maior parte da humanidade há uma deplorável falta de observação.

É muito importante que o aspirante à vida superior possa ver todas as coisas em redor de si de maneira clara, nítida, distinta, em todos os pormenores. Para os que sofrem da vista, o uso de lentes é como o abrir-se um mundo novo à sua frente. Em vez da anterior nebulosidade, tudo é visto clara e definidamente. Se a condição da vista requer o emprego de dois focos, não deve a pessoa contentar-se com dois pares de óculos, um para as coisas próximas e outro para as distantes, que obrigam a mudanças freqüentes. Não somente porque as mudanças são incômodas, mas também porque pode-se esquecer um dos pares ao sair de casa. Pode-se ter os dois focos num só par de lentes bifocais, e esses são os que devem ser usados para facilitar a observação dos pormenores.

4) Depois de praticar a Obeservação é tempo de ganhar

DISCERNIMENTO

Quando o aspirante tiver cuidado de sua visão, deve observar sistematicamente todas as coisas e todas as pessoas, e tirar conclusões dos fatos a elas relacionadas, a fim de cultivar a faculdade do raciocínio lógico. A lógica é o melhor instrutor no Mundo Físico, assim como é o guia mais seguro em qualquer mundo.

Quando se pratica este método de observação, é necessário ter bem presente que deve ser empregado exclusivamente para agrupar fatos, não com o propósito de criticar, nem que seja por brincadeira. A crítica construtiva, que assinala os defeitos e o modo de remediá-los, é a base do progresso. Mas a crítica destrutiva, sem nenhuma finalidade superior, que destrói vandalisticamente tudo quanto toca, de bom ou de mau, é uma úlcera do caráter que deve ser extirpada. As conversações frívolas e os mexericos são estorvos, obstáculos. Se bem que não é necessário dizer que o branco é negro, e dissimular que não se vê a má conduta alheia. A crítica sempre deve ser feita com propósitos de ajudar, não com o de manchar irresponsavelmente o caráter do nosso próximo quando nele encontramos alguma pequena nódoa. Relembrando a parábola do argueiro e da trave, voltemos nossa impiedosa crítica contra nós mesmos. Ninguém é tão perfeito que não necessite melhorar. Quanto mais impecável é o homem menos se inclina a encontrar faltas nos demais e atirar a primeira pedra nos outros. Ao assinalarmos alguma falta e indicarmos o meio de corrigi-la, devemos fazer isso impessoalmente. Procuremos sempre o bem que se acha oculto em tudo. O cultivo desta atitude de discernimento é especialmente importante.

Quando o aspirante ao conhecimento direto, tendo praticado os exercícios de concentração e de meditação durante algum tempo, neles se torna razoavelmente
proficiente, deve dar um passo mais elevado.

Vimos que a concentração consiste em enfocar o pensamento num só objeto. É o meio pelo qual construímos uma imagem clara, objetiva e vivente da forma, acerca da qual desejamos adquirir conhecimento.


Meditação é o exercício pelo qual seguimos a história desse objeto, pondo-nos em relação com todos os pormenores a ele relativos e ao mundo em geral.
Esses dois exercícios mentais relacionam-se, da maneira mais profundamente imaginável, com as coisas. Conduzem a um estado mais elevado, penetrante e sutil de desenvolvimento mental, que se refere à alma das coisas.

5 )  O nome desse estado mais elevado é a Contemplação.

CONTEMPLAÇÃO

Diferentemente da Meditação, na Contemplação não é necessário esforço de pensamento ou de imaginação para conseguir-se a informação desejada. Este exercício consiste simplesmente em mantermos o objeto ante a visão mental e deixar que a alma dele nos fale. Repousando tranqüilamente num divã ou na cama - não de modo negativo, mas completamente alerta - esperamos a informação que virá com certeza, se já alcançamos o devido grau de desenvolvimento. Então a Forma do objeto parece desvanecer-se, passamos a ver unicamente a Vida em atividade. A Contemplação ensinar-nos-á tudo relativamente ao aspecto da Vida, assim como a Meditação nos ensinou tudo sobre a Forma.

Quando alcançamos esse estado, e pomos diante de nós, digamos, uma árvore na floresta, perdemos de vista a forma por completo e só veremos a Vida, que neste caso é o espírito-grupo. Descobrimos então, para nosso assombro, que o espírito-grupo da árvore inclui os diversos insetos que dela se alimentam. Assim, tanto o parasita quanto o tronco em que ele se prende são emanações do mesmo espírito-grupo, pois quanto mais subimos nos domínios do invisível menos formas separadas e distintas encontramos, e mais completamente a Vida Una predomina, e imprime no investigador a noção suprema de que não há senão Uma Vida - em Quem realmente “vivemos, nos movemos e temos o nosso ser”. Os minerais, as plantas, os animais e o homem - todos sem exceção - são manifestações de Deus, e este fato fornece a verdadeira base da Fraternidade, uma fraternidade que inclui tudo, desde o átomo até o Sol, porque todos são emanações de Deus. Fracassaria o conceito de fraternidade que se baseasse noutro princípio qualquer, como o das distinções de classes, das afinidades de raça ou de ofício, etc.. 

O ocultista compreende claramente que a Vida Universal flui em tudo que existe.


6 )  Quem consegue dominar a Contemplação pode avançar para a 

ADORAÇÃO

Quando, por meio da Contemplação, se alcança esta altura, isto é, quando o aspirante compreende que de fato ele contempla Deus na vida que tudo compenetra, deve dar um passo ainda mais elevado e atingir a Adoração.

Através deste exercício ele se une à fonte de todas as coisas, alcançando assim a maior altura possível de realização pelo homem fisico, até que chegue o tempo em que essa união torna-se permanente, ao fim do Grande Dia de Manifestação.

É opinião de todas as Tradições que nem as alturas da contemplação nem o passo final da Adoração podem ser alcançadas sem a ajuda de um Mestre. O aspirante nunca deve temer que, por falta de um Mestre, seu progresso seja retardado. Nem necessita preocupar-se em procurar um Mestre. Tudo o que precisa fazer é começar a aperfeiçoar-se, e continuar nesse trabalho diligente e persistentemente. Desse modo purificará seus veículos, que começarão a brilhar nos mundos internos. Este brilho não pode deixar de atrair a atenção dos Mestres, os quais sempre atentos a tais casos, estão ansiosos e contentes por ajudar aqueles que por seus sinceros esforços de purificação adquiriram o direito de receber ajuda. A humanidade está duramente necessitada de auxiliares que possam trabalhar nos mundos internos.

Portanto, “buscai e achareis”.  Contudo, não se imagine que a procura consiste em andar passando de um Mestre para outro. “Procurar”, no sentido da palavra, nada significa para este mundo tenebroso. Nós mesmos é que temos de acender a Luz, - a Luz que seguramente irradia dos veículos do aspirante diligente. Essa é a estrela que nos conduzirá ao Mestre, ou melhor, que conduzirá o Mestre até nós.

O tempo necessário para alcançar-se resultados por meio dos diversos exercícios varia de indivíduo para indivíduo, e depende da sua aplicação, grau de desenvolvimento e dos seus registros no Livro do Destino, pelo que não se pode estabelecer um tempo-padrão.
Alguns, que já estão quase prontos, obtêm resultados em poucos dias ou semanas. Outros têm de trabalhar durante meses, anos e talvez durante uma vida inteira, sem obter resultados visíveis. Não obstante, os resultados são uma realidade, de modo que se o aspirante persistir fielmente obterá algum dia, nesta ou em futura vida, a recompensa de sua paciência e fidelidade: os Mundos internos abrir-se-ão aos seus olhos, tornando-se cidadão de reinos onde as oportunidades são imensamente maiores do que no Mundo Físico somente.

Daí em diante - desperto ou adormecido, através de tudo que o homem chama vida e de tudo o que chama morte - sua consciência será ininterrupta.

Levará uma vida de consciência contínua, beneficiando-se de todas as condições que permitem um avanço mais rápido para posições cada vez mais elevadas, e empregá-la-á na elevação da humanidade.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Encontrei-os todos Embriagados !!!


Texto antigo mas actual do estado da Humanidade
 

“Permaneci no meio do mundo e revelei-Me a eles na carne. 

Encontrei-os todos embriagados. 

Entre eles, ninguém tinha sede e a Minha alma ficou consternada com os filhos dos homens porque os seus corações estão cegos. 

Eles não vêem. 

Vieram ao mundo nus e nus hão-de sair do mundo.

Neste momento, estão embriagados. 

Quando tiverem vomitado o vinho, hão de voltar a si.” 

Evangelho de S. Tomás.



Os nossos condicionamentos emocionais e psicológicos podem fazer com que nos comportemos como autómatos reagindo puramente por hábito e reflexo, totalmente inconscientes daquilo que nos move; daí poderíamos ser descritos como estando “dormindo” ou “bêbados”. 

Sómente quando estivermos conscientes da nossa estrutura psicológica condicionada é que deixaremos de estar impedidos de ir além da realidade material normal, para o aspecto espiritual de nosso ser. 

sábado, 29 de agosto de 2020


A impotência do homem e a Omnipotência do Criador

As obras do homem requerem tempo, trabalho, material e colaboração.

As obras de Deus realizam-se num só instante, por um acto simplissimo da Sua Vontade (pela Irradiação instantânea da Sua Energia Vibratória).

Deus tirou do Nada, toda a Sua Criação.

As palavras do homem são ocas e perdem-se no ar.

A Palavra de Deus  ( leia-se a Energia da Sua Pura Vibração ) é tão eficaz que produz-cria tudo o que exprime-irradia, o que quer, quando quer e como quer.

Perante esta Omnipotência do Criador somos óbviamente impotentes.

Devemos desistir ?  Resignarmo-nos e nada fazer?   Ficarmos estáticos na Vida ?

NUNCA !!!  Pois essa é a Vontade de quem nos criou do Nada para Sermos Algo !!!  Sermos Seus filhos adoptivos e seus discipulos na Vida Divina.

Devemos ser humildes sim , sempre, mas não seres resignados e apáticos ao que acontece à nossa volta.

O homem deve sempre recorrer ( pela oração-meditação no dia a dia )  ao Criador com confiança e humildade para obter o que precisa.

''Não podemos pensar alguma coisa, como de nós mesmos, pois a nossa capacidade vem de Deus ' - São Paulo.



O homem se sabe ou pode fazer alguma coisa, não  é em virtude da sua capacidade própria mas sim porque Deus lhe deu parte do Seu poder, o homem abandonado à sua sorte não seria capaz de formular um pensamento ou articular uma palavra.

Esta impotência do homem deve mantê-lo na humildade, mas não deprimi-lo, porque Deus, Bondade infinita, assim como o chamou à Vida, assim lhe dá também a capacidade e as forças necessárias para o seu viver e agir.

E dá-lhas tanto mais abundantemente, quanto mais o homem fôr humilde e a Ele recorra com maior Confiança.

Se nos custa e é doloroso, experimentar na vida a nossa própria impotência, é em verdade bom saber que podemos sempre contar com Aquele que se compraz em escolher '' o que é louco segundo o mundo'' ...para confundir os que ''pensam que sabem'' ,  e ''o que é fraco segundo o mundo''...,para confundir aqueles ''que pensam que são fortes''.

A razão dos nossos fracassos e lágrimas neste mundo está em nos termos apoiado apenas nas nossas forças e meios humanos e termos negligenciado pedir com humildade a ''assistência '' do Criador, pois '' se aos homens é impossivel a Deus tudo é possivel'' . 

Por maior razão isto se aplica quando o homem inicia o Caminho do Auto Conhecimento e da sua Purificação - Iluminação Interior, empresa que excede todo o poder humano.

Sejamos, pois, humildes e capazes de pedir a assistência Divina em tudo o que fazemos, do simples e material ao mais complexo e espiritual.

'' Concedei-me, meu Senhor, a riqueza da Vossa Graça, para Vos imitar na alegria e na dor e resignação à Vossa Vontade em tudo, para que, enquanto me aconteça, seja agradável ou desgradável, diga sempre : Seja feita a Vossa Vontade assim na terra como nos ceús ''
Frei Carlos de Sezze, Frade Franciscano italiano, sec. 17

sábado, 8 de agosto de 2020

Eu rezo a Deus para me livrar de Deus !!!!


A nossa educação religiosa forma a nossa herança de imagens de Deus, que pode muito bem ser um obstáculo adicional para nós, no caminho espiritual.    

Devemos tomar consciência de como as nossas ideias sobre Deus não são moldadas apenas por factores sociais e culturais, mas são, também, distorcidas pelos nossos condicionamentos, os nossos medos pessoais, esperanças e necessidades.    

Elas são, muitas vezes, um produto do princípio da nossa infância, ligado às nossas atitudes, especialmente, para com os pais e os professores.

Todas as imagens são um produto do ego.

Nomeando “Deus”, sentimos que conhecemos a Realidade Divina; por ter formado uma imagem clara d’Ele/Ela, o ego sente que está seguro e que mantém o controlo.

Mas “nomear” não é “conhecer”.

Fomos feitos "à imagem e semelhança de Deus" (Génesis). Mas, ao invés de o entender como tendo a imagem e semelhança divina dentro de nós, tomamos isto ao pé da letra e, consequentemente, transformamos Deus na nossa própria imagem e semelhança condicionadas:

"A maioria das pessoas está fechada no seu corpo mortal, como um caracol na sua concha, enrolada nas suas obsessões, como se fossem ouriços. Elas formam a sua noção do carácter bendito de Deus, tomando a si mesmas como modelo." (Clemente de Alexandria, séc. II)

Muitas vezes, quando nos tornamos “agnósticos” ou mesmo “ateus", foi a nossa imagem de Deus que morreu.

O grito de Nietzsche de que “Deus está morto” é um exemplo notável disso. Ele já não podia aceitar o Deus da sua infância e, jogando o bebé fora com a água do banho, descartou a crença em Deus junto com a ideia infantil que d’Ele tinha.

As Escrituras Cristãs mostram-nos, claramente, como funciona este processo: as nossas imagens reflectem o tempo em que vivemos e aquilo de que necessitamos.

Vemos uma sequência de imagens de Deus ligada à evolução social da Humanidade.


Em primeiro lugar, encontramos o Deus tribal da Bíblia Hebraica: todo-poderoso, protector, generoso, impressionante, mas, também, distante, volúvel e imprevisível, tal como a natureza, da qual as pequenas comunidades, frequentemente migratórias, estavam tão dependentes.

Depois um Deus mais imparcial, omnipotente e omnisciente, não tão distante, um governante justo, como o rei ideal de que uma comunidade estabelecida ou cidade-estado da época necessitava.

De seguida, encontramos o Deus de Amor do Novo Testamento, reflectindo a necessidade de paz e de serviço, numa comunidade maior, consolidando relacionamentos.

Mas Deus não muda – apenas mudam as nossas imagens.

Mesmo que saibamos que não podemos abranger o Divino com palavras e pensamentos, em geral, consideramos muito difícil relacionar-nos com algo "inominável, inefável e ilimitado". A mente humana precisa de imagens – é assim que ela é feita; faz parte do nosso ser físico, neste nível de realidade de tempo e espaço.

Mas precisamos lembrar-nos de que Deus é muito mais do que as nossas imagens e olhar, através delas, para a Realidade para a qual elas apontam.

Como diz um provérbio budista, são os dedos que apontam para a lua e não a própria lua.

Ao tratar as nossas imagens como a realidade, ignorando que elas são apenas sombras do real, nós, na verdade, criamos ídolos a partir das nossas imagens. Mas precisamos de destruir esses ídolos.

Mestre Eckhart (místico alemão do século XIV) dizia com muita propriedade: "Por isso é que eu rezo a Deus para me livrar de deus" (me livrar das minhas imagens de Deus).

Este provérbio é muito semelhante ao provérbio budista: "Quando encontrares o Buda na estrada, mata-o".

É a Divindade que está para além das nossas imagens a que estamos intimamente ligados e as imagens apenas escondem essa realidade.

A meditação, com a sua ênfase em abandonar as palavras e imagens, ajuda-nos a abandonar as nossas imagens falsas, os nossos ídolos, e a entrar na experiência sem palavras de Deus.