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domingo, 21 de agosto de 2016

O homem perante a Morte

 

O homem perante a Morte


Morrer começa quando se nasce.

Feliz de quem, na morte,  reconhece a voz da Vida, a levá-lo para a sua pátria.

No momento da morte acontecem duas coisas, uma libertação de 'qualquer coisa' e uma liberdade em direcção a  'qualquer coisa' .
Muitos ao morrer ouvem esta pergunta: Tens medo da morte ou da força da Vida que vai surgir?

Qual a diferença entre um homem velho e um homem maduro?

Quem envelhece a pensar apenas em prolongar o tempo de vida, passa ao lado do que é viver.
É a grande diferença entre um homem velho e um homem amadurecido.
Envelhecer deveria significar amadurecer, não vegetar como um mero animal.
Ser velho é não ter futuro à frente.
Não compreende que morrer é passar a uma outra grande Vida através da maturidade em vida.
Ser maduro é permanecer jovem, pois à sua frente tem a dinâmica e a multiplicidade da vida e vê a morte que se aproxima não com medo do vazio desconhecido mas com a alegria de quem vai para um outro plano da sua existência, mais livre e grandioso.

Pode-se morrer de 3 maneiras: 
 
De velhice e doença, todos morrem assim.
De fidelidade ao dever, muitos estão disponiveis para esta morte 'em serviço'.
De passar de um para o outro lado, poucos o fazem.

Os 'parceiros' da morte (preocupação, angústia, horror), existem em vida, quem se habitue a enfrentá-los em vida, mais fácil será reencontrá-los ao morrer e abraçar  a Luz que vem do infinito.
Dizer 'sim' à morte abre em nós o olho que a entende e aceita.

Que devia ser a vida mortal, a nossa existência?
Um testemunho do imortal no mundo.
A existência humana mortal é finita, nasce e morre.

Que deveria significar a Imortalidade?
Ensinar o mortal a ser imortal ( espiritualizar a matéria )
A Vida imortal é infinita, está para além da morte e da vida.

O homem vive em comunidades e adaptado a um mundo objectivamente construido e aí se protege contra as ameaças da vida.
Quando esse mundo o domina e faz do homem uma ' coisa' , uma 'peça' , o homem deixa de ser ele mesmo e a morte por alienação pode acontecer e a consequente desintegração da personalidade.
Apenas quando o seu núcleo interior ainda tem força para dizer não, as nuvens escuras se podem afastar e a luz protectora  pode nascer para se iniciar um processo de descoberta interior.

Um homem que apenas está ligado ao mundo pelo seu ego, resiste à morte porque não a compreende e nada vê para além dela.
Enquanto o homem não perceber que vive em exilio neste mundo, o sentido que dá à morte é sempre de oposição à existência fisica.
Só quando descobre que existe 'algo' infinito, pode finalmente perceber que a morte fisica não é o fim mas sómente uma transição.


O sentido da morte é dado pelo sentido da vida.

Um judeu, umas horas antes de entrar na camara de gaz nazi, tremia de pavor.
Mas no momento em que nela entrava, disse, calmo e sereno, como que despertando nesse instante:
'A vida cujo sentido é apenas sobreviver não tem sentido'.
E o destino passou-lhe ao lado.

A vida ainda não é a verdadeira Vida, se se deixa perturbar pela ideia da morte.
Assim como a paz interior que todos desejamos não é a Paz verdadeira, quando se deixa perturbar pelos inesperados da vida.
Para além da morte, plana a verdadeira Vida, só o homem consciente da morte em si, é capaz de sentir a Vida que lhe está inerente.
A morte é para esse homem, dela consciente,  uma porta aberta para a pátria da sua origem eterna.

O progresso da humanidade, que é desenvolver todo o potencial interior existente no homem, nada tem a ver com aumentar a segurança e a duração da vida ( por vezes uma prosperidade económica- tecnológica pode fazer andar para trás espiritualmente  a humanidade que é o caso nos dias de hoje ), mas sim desenvolver e aperfeiçoar as forças interiores que nos fazem triunfar e não temer a morte. 

Só quando o homem consegue deixar morrer o seu eu material,  apenas preocupado em durar, em se fixar numa postura cómoda, estável, segura,  pode entrar em contacto com a Vida que não teme a morte mas a integra. 

Durante a sua existência, preso no seu eu profano,  o homem esquece a sua dupla origem, só se foca na material mas esse 'esquecimento' também faz parte do processo e daí o esforço e a dificuldade para o homem se 'voltar a lembrar' que não é apenas carne.

A Luz no túnel quando se morre

As pessoas que tiveram experiências de ' quase morte' , dizem que viram uma pura luz de beatitude e libertação nos instantes em que estiveram do 'outro lado'. 

Não será esta luz a mesma que brilha já, de quando em quando, no nosso dia a dia, através do véu da nossa consciência ordinária? 

Só que nós não a vemos, porque em vez de nos voltarmos para ela, para dentro, nos voltamos para fora, para o apego ao mundo material.
Não a vemos porque  não compreendemos o nosso Ser interior, só vemos aquilo que compreendemos, o mundo material.
À luz do dia do nosso mundo não vemos as estrelas do 'outro' mundo. 

Só para aquele que suporta ver se obscurecer a sua consciência ordinária, podem as estrelas da Vida começar a brilhar.

O medo da morte é inerente ao homem como o amor à vida.
Só quem esteve perto da morte, por circunstâncias da vida, pode dar um novo 'sabor' à vida existencial e sobretudo 'presentir' a Vida que existe para lá da morte.
Em guerra ou em paz, a vida natural só ganha 'valor' na existência humana quando em paralelo com o fundo sombrio da morte.


Que diferenças no processo de morte entre os animais e o homem?

O animal naturalmente pela sua natureza, enfraquece, extingue-se, acaba.
O homem com a sua consciência, recusa desaparecer, recusa ter fim, quer durar e prolongar a vida, é uma das suas naturezas, de tudo querer definir, de querer se proteger de tudo o que ameaça a sua segurança.
E assim resiste ao inevitável e mais sofre quando morre, porque não está para isso preparado em vida. Em vida resistiu ao movimento da transformação, movimento que é ele mesmo a Paz em vida, e quando morre apenas encontra a frieza do parado, o repouso frio da morte onde nada mexe ao contrário do movimento continuo da Vida.

A existência humana, sua origem e missão

O homem é um ser que nasce com uma densidade energética muito densa, muito materializado. 

Isto não é por acaso mas por intenção do Criador e que mostra o elevado patamar espiritual do homem. 

Essa densidade é como um véu que o impede de ver, que se opõe na verdade, ao Ser interior que ele incarna. 

Daí uma nostalgia que sempre existe no homem, de sentir algo que sempre o chama a testemunhar como ser humano ( é essa a sua Missão ao nascer), a existência do Ser que incarna, à sua maneira humana, consciente e livre.


Essa densidade, esse véu, essa concha só se parte se o homem aceita morrer (para a sua vida natural)  e se abre para a sua verdadeira Vida.

2 comentários:

  1. Sinto quase tudo o que aqui é descrito.
    Aceito como certo, quase tudo o que aqui nos é transmitido.

    Mas não no que diz respeito aos animais não humanos e o Homem.

    O Homem é um animal.

    Os ditos animais não humanos, tal como a maioria dos animais humanos, têm medo da morte. Lutam pela vida, e sentem a aproximação da morte, tal como os humanos.

    Só quem nunca conviveu com animais, pode dizer que «o animal naturalmente pela sua natureza, enfraquece, extingue-se, acaba». Eles não ACABAM, tal como nós também não acabamos. Eles são feitos da mesma Natureza. Fazem parte da criação do mesmo Deus.

    Não acabam, e têm uma alma imortal. Têm um caminho a percorrer, tal como nós.

    Eu sei. Sou tão animal como eles. E assim como consigo "ver" a alma de um humano a espreitar pela janela dos olhos, de igual modo vejo a alma dos não humanos a espreitar nuns olhos semelhantes aos meus. Em tudo.

    Estejam atentos a essa Natureza. E saberão do que falo.

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  2. Saudações Christiano!
    Gostei muito do blog!
    Estou impressionado com a linguagem, especialmente a imagem de GIF sobre a cruz ali acima.
    Seguindo e agradecido.
    Vou lendo aos poucos

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