-- De onde vens e para onde vais ?
-- Venho de Deus na escuridão e para Deus vou na Luz.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Não me conheço a mim mesmo

 
Não me conheço a mim mesmo.
Não sou cristão, nem judeu, nem mago, nem muçulmano.
Não venho do Oriente, nem do Ocidente.
Nem da terra, nem do mar.
Tampouco do Manancial da Natureza, nem dos céus circundantes,
Nem da terra, nem da água, do ar ou do fogo;
Nem do trono, nem do solo, nem da existência ou do ser;

Nem da Índia, China, Bulgária ou Saqseen;
Nem do reino do Iraque ou de Korassan;
Nem deste mundo nem do seguinte; nem do céu ou do inferno;
Nem de Adão, Eva, dos jardins do Paraíso ou Éden;
Meu lugar é sem lugar, minha pegada sem pegada.
Nem corpo nem alma: tudo é a vida de meu Amado...
 
Jalal ad-Din Rumi
 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O medo de avançar no Caminho Espiritual



O medo de avançar no Caminho Espiritual  

Um dos medos dos que se iniciam na peregrinação diária é que essa viagem espiritual ao seu próprio coração, a esse espaço infinito, possa levá-las ao isolamento, afastando-as do conforto e da familiaridade do conhecido para o desconhecido.
Este é um medo inicial compreensível.

Deixar para trás o que é superficial é o que muitas vezes queremos dizer com deixar para trás o que é familiar e isso pode criar uma sensação de vazio à medida que ficamos expostos a uma maior profundidade e uma realidade mais substancial. […]

O compromisso que esta viagem nos pede […] requer , talvez um certo arrojo para começar.

Mas, depois de termos começado, é a natureza de Deus, a natureza do amor, que nos arrebata, ensinando-nos pela experiência que o nosso compromisso é com a realidade, que a nossa disciplina é o trampolim para a liberdade.
 

O medo de que esta viagem seja “para longe de” em vez de “em direcção a” é simplesmente negado pela experiência.

Esta é uma viagem onde, em última instância, só a experiência conta.

As palavras ditas ou escritas pelos outros apenas podem adicionar um pouco de luz à realidade plenamente factual, plenamente presente e plenamente pessoal que se vive no vosso coração e no meu coração.

Mais tarde percebemos que a viagem ao nosso próprio coração é uma viagem a todos os corações.

sábado, 22 de julho de 2017

Vida activa profissional e Caminho espiritual




É possível evoluir espiritualmente tendo uma vida profissional activa?


Desde que o homem não se atire exageradamente às actividades, deixando-se absorver por elas, tornando-se incapaz de dominar e regular a sua actividade em função da Vontade de Deus, deixando de se guiar pela Luz mas apenas pelo espírito mundano.

Quem trabalha num projeto importante ou numa actividade manual, se de vez em quando fechar os olhos e agradecer a Deus estar vivo e com saúde, fará de certeza muito melhor o seu trabalho sem stress e com o coração pleno de Luz.

Quem se deixa absorver pelas actividades sem este cuidado especial, bem depressa perderá de vista a Vontade de Deus e acabará por fazer tudo de modo puramente humano, em stress, com angústia e sem a calma necessária até para fazer Bem o que está a fazer. 

Jesus não repreendeu Marta por estar a trabalhar, mas por estar a trabalhar sem levantar os olhos......( o equivalente ao fechá-los  noutras situações). 

"Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas"....
Deus quer a actividade e o serviço generoso mas não a inquietação ansiosa, pois só uma coisa é necessária: a união e o abandono à Vontade de Deus em cada momento. 

Tudo depende da Intenção, podemos santificar ate as coisas mais pequenas e insignificantes e transformar em divinos os actos mais normais da vida, que assim em vez de me afastarem de Ti, me unem mais intimamente a Ti.
Isabel da Trindade
 




Senhor, eu não sou Luz para mim mesmo, posso ser olho mas não Luz.
Para que serve ter os olhos abertos se me falta a Luz?
Por mim mesmo sou apenas trevas mas Tu és a Luz que dissipa as trevas e me ilumina.
De mim não nasce Luz, só Tu ma podes conceder.
 
Santo Agostinho

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Determinismo e Livre Arbitrio



Determinismo e Livre Arbitrio

Há alguns dias, estive a ler um texto sobre o deus indiano Shiva, que estava sentado com a sua mulher, olhando para o mundo, quando ela disse: “Porque não vais conceder a salvação a alguns dos teus devotos?”
Disse Shiva: “Muito bem”.


Então, desceram a uma cidade e sentaram-se no mercado.
De boca em boca, circulava a notícia de que estava por ali o grande profeta.
E, então, o santo homem e toda a cidade vieram para a rua. 


O primeiro veio ter com Shiva e disse-lhe: “Medito oito horas por dia.
No Inverno, medito duas horas em água fria; no Verão, durante duas horas debaixo de calor. Quando é que alcançarei a salvação?” Shiva olhou para ele e disse-lhe: “Dentro de mais três encarnações”.
O homem regressa para perto dos seus amigos, abanando a cabeça. “Mais três! Mais três!” E a história continua.


 Por fim, um homenzinho aparece e diz:
“Creio que não faço grande coisa, mas tento amar toda a gente à minha volta e tento amar a Criação. Posso alcançar a salvação?”
Shiva coça a cabeça e o homenzinho fica um pouco nervoso.
Shiva olha para ele e diz: “Bem, mil encarnações”, e o homenzinho salta de prazer e de alegria e começa a gritar a toda a gente:
“Vou alcançá-la! Só mil! Só mil !!!”



E, então, rebenta em chamas e o mesmo acontece com Shiva e a sua mulher, tornando-se todos numa única chama e desaparecendo.
A mulher de Shiva diz-lhe: “Como é que aquele velho homenzinho alcançou a salvação imediatamente? Tu tinhas dito mil!”
 

Disse Shiva: “Sim, mas a sua generosidade anulou a minha decisão. Por isso, ele foi salvo de imediato.”

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A Vida é um hospital ??


A Vida é um hospital ??
Como se transforma o Caos em Cosmos ?
Relações sobre a Dor, o Sofrimento e a Cura fisica e Espiritual
 


Os extremos da condição humana são visíveis: a linha fina da mortalidade que constantemente acompanhamos, felizes e atarefados, num certo momento, e doentes, logo a seguir, sempre a caminhar na corda bamba entre o bem-estar e a dor; e, no outro extremo, para o isolamento e o medo que isto cria em nós.

Muitas vezes, ligamos as palavras “bom” e “saúde”.
Porém, ambas precisam de ser tratadas com cuidado.
Ser chamado bom é gratificante.
Ser chamado mau cria vergonha (ou negação).
Estar de boa saúde não significa que sejamos boas pessoas.
Estar de má saúde pode bem conduzir-nos a ser uma melhor pessoa do que éramos até aí.
A bondade vivida num Serviço de Urgência brilha por meio dum altruísmo poderoso e prático pelos médicos -enfermeiros e voluntários que poêm o seu Coração ao serviço dos doentes.


Doentes que se auto-isolam e têm medo são também tocados, por uma consciência de cura quase dolorosamente aguda.
Esta significava a nossa capacidade para viramos a nossa atenção de nós para os outros, como se isto fosse sempre a coisa mais fácil e mais natural de fazer para qualquer pessoa. 

Esta ligação entre a dor e o altruísmo (o sofrimento e o amor) parecia-me ser o canal principal de cura e a ambiência de cuidado e de atenção que permeava todo o serviço.
As condições extremas – e há poucos sítios mais extremos do que um Serviço de Urgência – onde as tensões da vida são mantidas num equilíbrio rude, podem revelar profundos mistérios sob formas muito simples.


Houvesse altruismo identico nos meganegócios do mundo financeiro, do espectáculo ou da política ou nos funcionários da Emigração que controlam os refugiados.

A vida é um lugar de cura.

Todos precisamos de sarar, de diferentes modos e em tempos diferentes, física, emocional ou espiritualmente.
Não há vergonha nisso, embora a nossa necessidade de cura seja, muitas vezes, sentida como uma fraqueza que deveríamos esconder dos outros, como escondemos as nossas partes privadas ao vestir-nos bem.
Ser visto como uma “imagem de saúde” é gratificante e, quando encontramos alguém, é frequente elogiar-nos uns aos outros com: “Que bom vê-lo; está com tão bom aspecto!”
Depois, por precaução, acrescentamos: “Como é que tem passado?”
Porém, a saúde mais profunda e a plenitude não são estados que consigamos assegurar do mesmo modo que criamos um plano de reforma.
A saúde profunda não é nem uma posse nem o resultado da sorte.
É um dom que flui continuamente, através do processo de cura.
Não nos podemos agarrar a ele porque está sempre a preparar-se para o estágio seguinte da viagem.


O hospital da vida dá as boas-vindas tanto aos saudáveis como aos doentes.
A distinção entre estes dois estados da vida não é tão exclusiva quanto possa parecer.
Como é que sabemos que o médico que está a tratar o nosso braço partido não acabou de ser diagnosticado com uma doença terminal?
Ou que, talvez, o choque desse diagnóstico venha a conduzir a uma integração mais rica da personalidade, a uma reconciliação das partes destroçadas da pessoa e uma melhor capacidade de amar os outros?


Os sintomas de saúde e os sintomas de doença são muito diferentes.
A ordem, a harmonia, a paz mental, a flexibilidade, a espontaneidade, a beleza atraente (por um lado) e o caos, a violência, a agressividade, o desequilíbrio e a repugnância natural (por outro lado).
Porém o pior pode ser transposto para o melhor. 



Começa pela aceitação. 


O primeiro passo pode ser o mais difícil.
As piores notícias criam, naturalmente, a tentação de negar aquilo de que não gostamos.
Vemos isso demonstrado em conferências de imprensa políticas e em entrevistas todos os dias e que se podem tornar autoconvincentes e acabarmos acreditando nas falsas notícias que estamos a ouvir-ver-ler.


O primeiro passo é sermos honestos connosco mesmos e com os outros.
Depois da aceitação vem a adaptação.


Estar encarcerado e desumanizado pode provocar uma enorme negação e um desespero zangado, mas, com o tempo e com ajuda, a aceitação conduz também à auto-adaptação. 
Então, aprender a meditar transforma-se numa profunda cura da vergonha pelo passado e numa reintegração do “eu” dividido.
Depois de nos vermos como rejeitados, encontramos um novo respeito próprio no autoconhecimento e na sabedoria.
Porque pensa na prisão como uma punição e, apenas formalmente, como reabilitação, o sistema penal raramente repara no tipo de transformação pessoal que muda para melhor os presos.
Quanto melhor um curador conhece a natureza da doença, melhor a pode tratar.


A doença e a má-sorte, muitas vezes, despertam um sentimento de culpa ou responsabilidade, sejamos nós ou outros quem sofre.
O ego crê que Deus recompensa os bons e aflige os maus.
O ego é sempre muito sensível à sua reputação.

Porém, o facto de ocorrer a cura denuncia esta falácia.
As feridas podem curar, a doença pode trazer uma saúde mais profunda do que alguma vez conhecemos e ser-se esmagado pode evoluir para ser-se reerguido mais alto e mais saudável do que poderíamos ter imaginado.
Mais ainda, o sofrimento pode ser redentor. 



Na Mitologia Grega, a primeira coisa a existir, sem uma fonte parental, foi o Caos.
Era o vazio, o nada de que tudo, até os deuses, emerge.
É o submundo da escuridão e da lama.
A palavra quer dizer buraco ou abismo porque é o espaço entre o céu e a terra.
É preciso compreender o mito de forma psicológica.
Quando a doença nos assoberba, mental ou fisicamente, mergulhamos no caos interior.
Um abismo de separação abre-se entre nós como éramos e nós como somos agora.
Não conseguimos relacionar-nos com nada nem com ninguém como anteriormente.
Não gostamos do caos e estamos muitas vezes prontos a assumir falsos compromissos, a negar o que é evidente, a isolar-nos dos outros para evitarmos cair no abismo.


No entanto, negar o sofrimento ou a perda significa negar a nossa necessidade de cura.
Com custos crescentes para o nosso bem-estar e sanidade, mantemos as aparências, como se nada tivesse acontecido.
A geração dos meus pais era resiliente e contava consigo própria de uma forma que os seus filhos bem podem invejar.
Mas também, muitas vezes, as pessoas escondiam os seus sentimentos e recusavam-se a pedir ajuda quando dela mais precisavam.
Os seus mecanismos de sobrevivência foram formados pelo século mais violento da História humana, mas a própria repressão é uma violência contra nós mesmos.
Hoje em dia, a repressão é ainda mais fácil.
A realidade virtual está na ponta dos nossos dedos.
O clique do rato e o engolir duma pílula transportam-nos para outro mundo onde sentimos, por um tempo, que temos o controlo e que escolhemos o que quisermos para nos fazer sentir melhor .... ILUSÕES ....... de um doente que rejeita a cura pela Realidade que pode ser dor e sofrimento.

A tecnologia parece, muitas vezes, suspeita às pessoas de orientação espiritual.
A ciência e os objectos tecnológicos são, muitas vezes, empregados ao serviço do ego narcisista.
No entanto, no final, o irreal passa por uma morte inevitável e a repressão e a auto-ilusão, as falsas aparências colapsam.
Há uma oposição entre a tecnologia e o divino que fazia com que fosse mais fácil as pessoas, numa cultura tecnológica, caírem no caos.

As amizades do Facebook podem oferecer algum alivio face à solidão do espaço digital que habitam; mas, tal como todas as falsas consolações, desilude-os e trai quem eles são em profundidade.

O caos está sempre a ameaçar tomar conta da existência humana, sugar de nós a esperança.

O abismo da nossa mortalidade e das dores da perda e da separação desestabilizam constantemente a segurança de que precisamos para crescer.
A vida é um hospital movimentado.
Temos que assegurar que seja quem for que conheçamos ou com quem trabalhemos, neste lugar de cura, encontra as boas-vindas.

É assim que o Caos se transforma em Cosmos.

 

A ordem e a harmonia transformam o caos.
O Espírito antes pairava sobre a face informe do abismo, sem luz.
Ele trouxe à existência a variedade colorida da Criação.
Assim, também, o nosso próprio espírito pode enfrentar o caos dentro de nós mesmos e fazer dele uma nova criação.
Neste novo mundo, encontramos novamente os que morreram e que, como nos parece à primeira vista, retornaram ao caos.
A sua forma que amávamos dissolveu-se e eles parecem flutuar para o grande esquecimento.
Porém, a Ordem e a Harmonia do homem de Espirito prova ser um laço inquebrável que alcança bem para além do caos da separação.
Já não os conhecemos “segundo a carne”, como dizia S. Paulo do Cristo Ressuscitado.

O caos, é uma realidade com que temos que contar.
Tal como a corrupção no corpo da política, ele não deve ser negado nem deve ser subestimado o seu poder de causar destruição.
Pode ser confrontado e pode surgir a cura através duma esperança nascida da evolução espiritual do homem.


Esta é uma necessidade de emergência na nossa era digital e dividida.

O caos engendra o medo.
Sentimo-lo fortemente nas esferas política e social de hoje.
Mas ele pode ser desarmado e transformado em Harmonia Curativa.
As redes de cura, de apoio mútuo, de ensino, de inspiração e de pura celebração, a elaboração de projectos de visão partilhada e de articulação de novas ideias para ligar em vez de polarizar: estas são as ferramentas e expressão de vida da comunidade.
Através delas, ao mesmo tempo, abraçamos a nossa própria necessidade de cura e levamos socorro aos outros. 


A verdadeira transformação pessoal deve ser o objectivo, não apenas construir um refúgio para escapar ao caos que nos rodeia.

Na pobreza do silêncio, rodeada pelo riso e pela liberdade de pessoas destemidas, pode acontecer uma grande e criativa escuta.
Nos restaurantes e nos elevadores, nas linhas telefónicas de serviço ao cliente e nos aeroportos, o medo do silêncio está reflectido no volume cada vez mais alto da música de fundo, da publicidade e da conversa trivial.
Elas mascaram os sintomas de caos, mas não lidam com o problema.
Como todas as formas de distracção, uma das maiores causas de caos, hoje em dia, elas escondem em vez de curar, sejam elas como diziam no Estado Novo, o vinho, o fado e o futebol....ou hoje em dia com as ditas 'democracias', centros de auto ajuda, fantasias das redes sociais, miriades de pseudo cultos -religiões, workshops de mindfullness- coaching - auto ajuda, etc....etc..... 


O silêncio é necessário para o espírito humano florescer. 


Pode parecer um disparate para muitos, mas não há maior necessidade, no mundo moderno, do que as pessoas, jovens ou idosas, religiosas ou secularizadas, ricas ou pobres, recuperarem a experiência do silêncio.
Todos precisamos de ajuda e da comunidade; mas todos temos que aprender a meditar na nossa própria experiência.
O silêncio restabelece a ligação com a nossa própria fonte de autocura.
Restaura a verdade na forma como comunicamos e constrói uma forte ligação interior que transcende o medo da morte e do caos.


Porquê ter medo deste silêncio, se ele está ali, aqui, dentro de nós?
Só precisamos de entrar nele para se tornar o silêncio que cura.