-- De onde vens e para onde vais ?
-- Venho de Deus na escuridão e para Deus vou na Luz.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Desbloquear o poço de água viva



Desbloquear o poço de água viva

Há tantos tipos diferentes de meditação quanto há diferentes culturas.

A meditação baseada na atenção focada, a meditação baseada na consciência aberta e a meditação em movimento são as três principais correntes, todas com o objectivo de retirar o foco de nós mesmos e nos abrir a uma consciência mais ampla. 


O focar da atenção desempenha um papel primordial em todas elas.

Se recuarmos na Tradição Cristã ao ensinamento dos Padres e Madres do Deserto do séc. IV, vemos que a ênfase é posta claramente no foco unidireccional – a repetição de uma frase de oração ou “fórmula”, como João Cassiano lhe chamava.

Mas nos escritos de Evágrio, mestre de Cassiano, encontramos não apenas a primeira corrente, mas também a segunda.
Primeiro, a ênfase é posta na oração com uma frase, acompanhada pelo seu conselho de que identifiquemos, mas deixemos ir, as “distracções”, os pensamentos que vagueiam, e, então, regressemos à palavra sempre que nos tivermos extraviado do caminho estreito da atenção.

Em segundo lugar, Evágrio ressalta a consciência, momento a momento, das nossas sensações, sentimentos, pensamentos, desejos e acções e da relação ocasional entre eles.
Aqui, recomendava uma atitude de total presença no momento presente, consciente de todos os aspectos do nosso ser.

Esta segunda corrente de meditação é agora conhecida como “mindfulness”, mas constitui uma grande parte do ensinamento de Evágrio.

Ele enfatizava-a tanto porque é um ingrediente essencial no caminho para o autoconhecimento e a auto-aceitação, conduzindo à transformação do nosso ser como um todo, retornando ao seu estado original de equilíbrio e integração.

A terceira corrente da meditação, a meditação em movimento, encontramo-la também na Tradição do Deserto.
Não se trata duma viragem para as práticas Sufi ou para o Chi Kung/Tai Chi ou para o Ioga.
Mas era grande o envolvimento do corpo deles na oração.
As vénias, a genuflexão e a prostração total eram formas de expressar humildade e reverência por meio do seu corpo – movimentos similares podem ser encontrados, também, noutras tradições.
A regra era estar de pé durante a oração, ou com as mãos dos lados ou com os braços elevados e abertos, com as palmas das mãos viradas para cima.

«Cada ser espiritual é, por natureza, um templo de Deus, criado para receber em si a glória de Deus. […] Cada uma das almas contém um poço de água viva. Tem nela […] uma imagem enterrada de Deus. É esta a fonte […] que os poderes hostis bloquearam com terra…

Esta nascente está em nós e não vem de fora
porque “o Reino de Deus está em vós”. (Lc 17:21) […] Pois a imagem do Rei dos Céus está em nós. Quando Deus fez os seres humanos, ao princípio, fê-los “à Sua própria imagem e semelhança” .

Evágrio e os seus companheiros Padres e Madres do Deserto nunca duvidaram de que não temos que alcançar a nossa ligação com o Divinoela forma o nosso ser essencial.

Tudo o que precisamos de fazer, com a ajuda da Graça, é desbloquear o poço de água viva dentro de nós.

O que bloqueia este poço são as nossas emoções desordenadas: Isto explica a necessidade tanto da atenção na oração, de forma a estarmos abertos aos chamamentos dentro de nós, como da consciência/ ”mindfulness” das sensações, sentimentos, pensamentos e desejos na nossa consciência superficial, a qual, se desordenada, forma os torrões de terra que bloqueiam o nosso acesso à “água viva”. 

sábado, 29 de setembro de 2018

Dois Tipos de Inteligência




Dois Tipos de Inteligência

Há dois tipos de inteligência: um que se adquire
quando uma criança, na escola, memoriza factos e conceitos       
a partir dos livros e do que diz o mestre,
colhendo informação das ciências tradicionais,
bem como das novas ciências.

Com esse tipo de inteligência, erguemo-nos no mundo.
Somos classificados à frente ou atrás dos outros
no que toca à nossa competência na retenção
de informação. 
Passeamos essa inteligência, entrando e saindo dos vários campos de conhecimento, tomando sempre mais notas nas nossas tabuinhas de registo.

Há um outro tipo de tabuinha que
já está preenchida e guardada dentro de nós,
uma nascente que extravasa a sua bica. 
Uma frescura no centro do peito. 
Esta outra inteligência não fica amarela nem estagnada. 
É fluida e não se move de fora para dentro,
pelas condutas da aprendizagem canalisada.

Esta segunda forma de conhecimento é uma fonte que jorra de dentro de nós para fora.

  RUMI

terça-feira, 19 de junho de 2018

Onde está o Mestre?


Onde está o Mestre?

Quem vive procurando se transformar e ser mais Perfeito a cada dia, irá cada vez mais estando em contacto com o Mestre, não alguém exterior mas o seu Ser interior que se transformou e que passa a ser o seu guia e a sua vontade (Seja feita a Tua e não a minha vontade).  

O Mestre é apenas um homem transparente ao seu Ser que está a transformá-lo.
O Mestre é a Vida em movimento, imprevisível e contraditória.
A sua acção é ao mesmo tempo criadora e libertadora.
O homem aspira à tranquilidade, à segurança, à harmonia.

O Mestre retira o que deu, destrói o que parece assegurado, tira o tapete dos pés.
Sacode quem se começa a 'instalar' e obriga-o a pôr de novo os pés à estrada.
Porque é Caminhar que é preciso e não se instalar na vida.
O que importa é avançar, não é  chegar a lado nenhum, é mudar e não ficar estático.

A vida é uma passagem e o Mestre vive-a numa perpétua viagem em movimento.
O Mestre actua sem agir, na verdade ele nada faz, é um mero mediador da Vida que passa através dele transformando-o e ao mesmo tempo também transformando os outros pelo seu exemplo.

Quem vive em contacto permanente com o Mestre no seu processo de aperfeiçoamento pessoal  já se desapegou dos anteriores deveres para com o mundo, para com as pessoas, as comunidades e as leis.

Estar em contacto com o Divino não é mais do que estar em contacto com o Mestre.
E aqui já não se vive da fé mas da Presença.
Ter-se desapegado não significa ter fugido das suas funçóes sociais e familiares, mas sim ter mudado a maneira de as fazer, porque encontrou no seu Mestre uma 'outra forma'  (mais Perfeita)  de agir no mundo.

No dia a dia mundano e social encontra o seu Mestre em tudo o que faz (e por isso é Perfeito em tudo o que faz)  e não mais o seu eu anterior que sem Mestre estava a tudo apegado e por isso não era Perfeito/Feliz.
Significa que trocou a liberdade do eu (de fazer ou evitar o que ele quer), pela liberdade de fazer, pelo mesmo eu,  o que o seu Mestre interior quer.

Isso implica uma disciplina, uma obediência incondicional, daí a dificuldade e esforço da maturação espiritual.

Implica podermos ser destruidos e renascidos a cada dia  e sermos capazes de aceitar essa roda da Vida, essa alternância como um contributo para crescermos espiritualmente.

O vazio da destruição não é um abismo onde se desaparece mas sim um solo que nutre e alimenta uma nova forma de viver a Vida e sermos cada dia mais Perfeitos, mais próximos da nossa semente divina,  'vacuum horribilis, vacuum benedicto''.


Implica aceitar muitas vezes a cólera do mundo que nos acha 'estranhos' de repente...

Mas é uma Via que nos liberta interiormente e nos faz ver que a caixa protectora onde estávamos era na realidade uma prisão. 

Ficar nessa prisão, por medo ou preguiça, seria uma traição a nós mesmos.

Essa prisão representa os apegos  que retêm e imobilizam o homem e por isso é necessário dela nos libertarmos.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A pobreza material e a pobreza espiritual

                    A pobreza material e a pobreza Espiritual

Os sem abrigo,  pela sua própria vida de abandono e pobreza, são todos pessoas evoluidas espiritualmente?
O ser pobre é sinónimo de ser rico em espiritualidade, de ser uma criatura que se conhece, equilibrada e Perfeita?

Quem não fôr crente e que por circunstâncias da vida caia na miséria, preocupa-se apenas com a sobrevivência no dia a dia, com o pão material e quando o tem, está contente e considera-se feliz, porém nada conhece de Deus.
Um pobre temporal incrédulo corre atrás ds ricos e os importuna.

O crente guarda os mandamentos de Deus e não cobiça o bem de seu vizinho rico , nem lhe pede auxilio com insistência, mas recebe-o e agradece-o se lho derem.
Sabe que Deus trata bem dos seus, 'quer ter a honra de socorrer aqueles que Nele confiam'.

O pobre crente despoja-se de toda a confiança nos homens, mesmo em si próprio, só Deus o alimenta e só em Deus está o seu pensar e agir.
O pobre incrédulo não tem outro Deus e auxiliador senão os ricos deste mundo e apenas se ocupa das coisas deste mundo.

Deus não deixa os seus pobres crentes mendigar como o espirito do mundo incita os seus pobres infiéis, aos quais amiúde enxota como cães.

sábado, 14 de abril de 2018

Fases da Morte - Parte 3 - Encarnação


REENCARNAÇÃO


Quando chega o momento em que a Alma ou Ego Espiritual, na sua marcha contínua para mais alto e mais profundo, deixa para trás o corpo emocional da mesma forma como deixou o corpo físico por ocasião da morte, processa-se então o que se chama de morte astral ou segunda morte.

A retirada do Ego Espiritual vai progressivamente paralisando as funções do corpo astral, a começar pelas mais densas, que assim se desagregam à medida que a consciência se retira, por um esforço semiconsciente do mesmo Ego. 
É desta maneira que o homem se liberta gradualmente desse veículo, até deixá-lo totalmente e ingressar no Mundo Mental.

Durante a sua estadia no Plano Emocional o Espírito purificou e assimilou tudo quanto havia de puro e assimilável nas emoções e sentimentos do corpo astral, de maneira que o que restará deste será um simples resíduo, um cascão de que a Tríade Superior (Espírito – Intuição – Mental Abstracto) se liberta facilmente, passando a vibrar num nível imediatamente superior onde também purificará e assimilará tudo quanto de puro e assimilável o homem pensou enquanto ser carnal.

Ao passar do Astral ao Mental pelo fenómeno da segunda morte, o homem não leva consigo as características emocionais, pois que a matéria astral não pode existir no Plano Mental e a matéria deste não pode responder às emoções grosseiras das paixões e desejos inferiores.

Tudo quanto no homem se exprimiu como inferior ou de baixo padrão vibratório, fica em estado latente no átomo-semente mental que entretanto já absorveu o átomo-semente astral, e assim fica durante toda a sua vida celeste.

É assim que, quando termina a vida astral, os elementos vitais retiram-se desse corpo abandonando-o à desagregação enquanto o seu átomo-semente se aloja no Corpo Causal ou Mental Superior.

Nos casos da maioria dos homens comuns, uma parte da sua matéria mental acha-se de tal modo misturada com a matéria astral (o que se chama kama-manas ou psicomental) que se torna impossível separá-las de imediato.

Daí decorre que uma porção da matéria mental fica no corpo emocional após a partida da  Alma ou Ego Espiritual, facto muito semelhante ao que ocorre na primeira morte.

No caso em que o homem, durante a sua vida, subjugou completamente os seus desejos inferiores e conseguiu libertar inteiramente o mental de todos eles, acontece que não terá nenhuma dificuldade em abandonar o corpo astral, levando consigo não só quanto trouxe para essa encarnação particular como o conjunto de todas as experiências, faculdades, etc., adquiridas.



Neste ponto, devo informar antes do mais que quanto maior for a duração de uma alma no Plano Astral mais depressa ela acabará por esquecer a sua última vida terrena, de que não se lembrará absolutamente nada quando se transfere ao Plano Mental, e cuja memória, ou melhor, as impressões psicomentais dessa mesma vida ficam registadas no seu átomo-semente causal, sendo quem irão determinar as condições da sua reencarnação futura.

Só os Grandes Adeptos e Iniciados conservam a memória das vidas passadas, mesmo quando encarnam, por manterem uma consciência ininterrupta dos vários níveis do Ser.

Terminada a acção das causas que levaram o Ego Espiritual ao Plano Mental, completamente assimilados os frutos das experiências colhidas nos Planos inferiores, passado algum tempo começa a surgir no Ser o desejo natural de se objectivar nos Mundos das Formas.

A este desejo, que tanto para o indivíduo como para o Cosmos é a causa primária da reencarnação e da manifestação, os hindus dão o nome de trishna.

Esse desejo nasce, na maioria dos homens pelos laços kármicos que os atraiem para o Mundo das Formas, após a alma haver satisfeito as suas necessidades nos Planos Astral e Mental, indo invadi-la o pensamento intenso de que aí já cumpriu o seu propósito e começa a conjecturar a possibilidade de entrar numa nova fase de existência.

É quando o seu corpo mental começa a dissolver-se no espaço ambiental e o Ser inicia um estado de sonolência que, ao mesmo tempo, leva-o a recolher-se ao Mundo Mental Superior ou Causal, indo desprender-se de vez do veículo mental inferior, o que equivale a uma terceira morte
Então o Ego vai adormecendo cada vez mais sobre si mesmo.

Ante a proximidade desse novo estado de sonolência a alma não experimenta qualquer sensação de dor ou incómodo, pelo contrário, invade-a uma espécie de satisfação e felicidade como se pressentisse algo que a irá renovar e realizar, pressentindo a proximidade de novas experiências que terá possibilidade de vivenciar numa nova existência.

De forma que ao terminar este ciclo neste plano Mental, o Ego acha-se livre de toda a peia passada, mesmo que as acções praticadas na vida anterior não se achem aniquiladas, pois que o registo dessas impressões (samskaras) contém-se no seu átomo-semente mental.

Se elas não existissem a Lei não determinaria nova encarnação, pelo que se encontram em estado latente formando a raiz do seu destino.


As sementes das tendências começam a germinar logo que o Ego se prepara para a próxima encarnação despendendo de si, dos seus átomos-sementes, as matérias mental, astral e física para a criação de uma nova personalidade que o revestirá.
É assim que a nova personalidade carrega consigo o fardo do passado.

As sementes provenientes da colheita do passado são chamadas de skandhas, “tendências”.

Logo que o Ego se apresenta no limiar dos Mundos Mental e Astral para uma nova encarnação, as skandhas fazem-se presentes para constituir o carácter dos novos veículos, ou seja, as qualidades materiais e as tendências psicomentais dessa nova personalidade.

O Ego envolve-se primeiro de matéria do Mundo Mental, em seguida de matéria do Mundo Emocional, e terá assim os novos veículos dessa natureza onde reaparecerão os interesses, emoções e apetites das suas vidas passadas. 
Essa matéria psicomental é atraída para o Ego automaticamente, e tal natureza irá reproduzir a que o homem possuía na sua última vida terrena.
É assim que ele irá reiniciar a sua vida material no ponto justo em que a deixou pela última vez.

De acordo com as suas necessidades e simpatias kármicas as quais ligam o passado ao futuro, ou sejam, as suas mesmas samskaras, o Ego naturalmente penetra na corrente que o conduz ao renascimento na família e ambiente adequados ao seu grau de evolução, mas que também lhe irão possibilitar as experiências necessárias à expiação dos dividendos passados. 
Isto explica porque numa alma sem karma o interesse por novas experiências humanas inexiste, e assim o Ego não é acometido de qualquer sono pré-reencarnatório, antes procura a absorção cada vez maior na Divindade de quem é Partícula ou Centelha um dia desprendida para se manifestar.

Em consequência desse encadeamento ao Mundo das Formas, o Ego vai submergindo-se num sono profundo – que se torna completo no momento em que se liga inteiramente ao novo corpo físico, o que sucede quando é cortado o “cordão umbilical” – indo assim “morrer” para o Mundo Espiritual no seu “descenso” a caminho do Mundo Material, onde finalmente reencarna.

O Ego Espiritual não fica enclausurado dentro da forma física, antes se manifesta pela alma nessa mesma forma, e tal “clausura” equivale a estar com a sua consciência inteiramente focada no Mundo das Formas, completamente abstraído do Mundo Espiritual que o envolve.

O sono do Ego regista-se nos recém-nascidos, que continuam sonolentos durante a infância – por isto os bebés dormem muito nos primeiros tempos, de noite e de dia, sendo menos o tempo de vigília que o de sono, por a sua consciência ainda estar muito ligada aos mundos espirituais onde passam a maior parte desse tempo – e aos poucos vão despertando para os factores externos, à medida que se desenvolve a inteligência da criança.


Um último tópico: a irrequietude da maioria das crianças é uma forma de despenderem ou largarem as energias do passado acompanhando as suas tendências psicomentais anteriores, assim ganhando novas energias e, por via dos novos interesses, novas tendências.

Quando a criança é inibida do descanso regular e das brincadeiras irrequietas pelos adultos, está-se forjando o seu futuro doentio, obeso ou esquálido, sempre centrípeto, o qual certamente ninguém lhe deve desejar.

Nisto, o papel dos pais e educadores é fundamental: à medida que os interesses da criança se manifestam, irem lhe dando educação primorosa, preferencialmente de natureza espiritual em conformidade às apetências e interesses da idade tenra, para que um dia sejam bons cidadãos, óptimos chefes de família e excelentes espiritualistas.