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domingo, 20 de outubro de 2013

A religião de Zoroastro e os rituais do Fogo

 

  A religião de Zoroastro e os rituais do Fogo

No actual Irão por volta de 500-300 AC implantou-se uma religião denominada Zoroastrismo cuja Biblia é o Avesta, uma colecção de livros sagrados escritos com influências dos Vedas indo-arianos. 

A principal diferença para a Bíblia é que o Avesta se parece com um livro de orações e possui poucas narrativas.


A tradição coloca um personagem Zoroastro (ou Zarathustra) como seu fundador e divulgador ( ?? - 583 AC).

 

As datas de criação do Avesta e da existência do seu fundador não têm consenso entre os estudiosos (pensa-se entre 2000 e 500 AC foram compilados os textos que compoem o Avesta).

   Zoroastro segura a esfera celeste oposta á esfera terrestre no quadro Escola de Atenas de Rafael


No Zoroastrismo oficial existe uma dualidade entre o Deus do bem (Ahura Mazda) e o Deus do mal (Angra Manyu), por isso o Zoroastrismo é chamado de Mazdeismo.  

O homem foi criado para sustentar o bem e combater o mal (combate esse que duraria 9000 anos segundo o Avesta), por meio de uma vida constructiva em pensamentos e actos. 

Alguns estudiosos pensam que esta dualidade reflecte a dualidade da vida em cada pessoa mas pensam que existiriam textos onde essa dualidade ‘emergia’ de algum Criador único e que portanto o Zoroastrismo era Monista e e não dualista na sua essência original e que a doutrina dual mazdeista se implantou por questões politcas da altura e que de próposito se ‘esqueceram‘ (como no cristianismo se  ‘esqueceram’ os textos gnósticos e mais esotéricos) os textos antigos onde a doutrina da Unicidade da criação era mencionada.

  
Daí ter existido entre o séc. 2 e  o sec. 10 uma doutrina derivada do Zoroastrismo denominada Zurvanismo que preconizava um Principio único e Absoluto, Zurvan como Pai de Ahura (o principio do Bem) e Angra (o irmão caído e principio do Mal ), como  Deus neutro e sem emoções.    
  
PROCESSO DA CRIAÇÃO

Este processo começa na 1º fase com Ahura Mazda a criar a existência mental-imaterial, na 2º fase  esta existência é completada por uma forma material e depois na 3º fase a criação material é activada por Angra Manyu (ou seja, o mundo material só pode existir havendo dualidade e dialéctica constante entre duas forças).

O papel do homem é participar neste combate enquanto vive, se esforçando por conseguir o equilibrio entre a dualidade e se encontrar Uno (equilibrado e bem consigo mesmo) e assim obter a Renovação ou Vida Eterna (Frashgird) depois de morrer.


A missão do homem é, pois, reingressar à 1º fase do estado mental–imaterial, num estado mais sábio, conhecedor, equilibrado pelo que fez-aprendeu em vida.   

O homem tem além do corpo, uma parte divina (Fravashi), criada na 1º fase mental e enviada ao mundo material como uma ‘alma’ (urvan) que, em vida, ajuda o homem no seu esforço de evolução e após a morte fisica regressa ao plano mental-imaterial  levando consigo  as experiências vividas para ajudar-cooperar com o Criador no processo continuo de Criação.   

Este desenho, Faravahar é um simbolo do Fravashi, tem asas como a pomba do Espirito Santo e é encimado por Zoroastro (antes de surgir Zoroastro era encimado por três paus da Trindade Divina??) .


 
O fio condutor em todo este processo criativo é uma substância enigmática de origem divina, o Xvarnah (força, dom) que se transmite a cada pessoa para lhe dar coragem e energia se a pessoa está ‘atenta’ ou se desvia dela se a pessoa se 'esquece dela e comete faltas-erros-pecados'. 

Emanando das Luzes infinitas (Reino de Ahura Mazda) o Xvarnah é transmitido aos homens pelo fogo, daí a origem do fogo em todos os rituais zoroastrianos.  

O fogo zoroastriano representa o Espirito Santo cristão e a chama sempre acesa nos templos (os sacerdotes cuidam de manter em permanência a chama acesa nos templos dia e noite)  significa que é preciso o homem manter ‘acesa’ dentro de si esta ‘atenção’ ao divino para melhor viver e estar equilibrado. 

Nota : Xvarnah poderá ser o equivalente à Luz de Deus, à  descida do Espirito Santo que é recebido, na altura certa, por quem pede, se esforça e merece.    

A pomba do Espirito Santo num templo do Fogo Zoroastriano



Nas cerimónias rituais o vestuário branco simboliza a alma humana que foi purificada pelo fogo e o ‘vestuário’ do ‘Corpo Futuro’ ( corpo energético que a alma recebe no Paraiso ou Além).

Nas cerimónias funebres o corpo do morto é colocado nas chamadas Torres do silencio (Dakhmas), onde o corpo é descarnado e comido por abutres.  



Quando isso não é possivel, usa-se um estrado numa plataforma em altura para isolar o corpo da terra impura. 
Os ossos são posteriormente colocados em urnas a aguardar a Renovação e o Julgamento Finais.

As Torres de silencio, por tradição de purificação do local, eram destruidas ciclicamente, e construidas outras  novas, por isso chegaram tão poucas aos dias de hoje.    





É sacrilégio a cremação (por ir poluir o fogo e  o ar) e a inumação (por poluir a terra), os 4 elementos são sagrados.

 
Hoje em dia existem cerca de 10-15 templos do Fogo no Irão e na India existe uma população oriunda do Irão, os Parsis, que ainda cultuam esta religião do Fogo.

Templo do fogo em Yzad, Irão  

Santuário de Chak Chak nas montanhas

 


Os templos do fogo, são básicamente uma sala assente em 4 pilares com um altar a meio e sem idolos-imagens-icones.

Só os sacerdotes podem acender e manter o fogo, fazem cerimónias de ofertas de incenso 5 vezes ao dia, e usam um pano branco (padam) na cara para não poluir com o hálito o fogo.

Pelas crenças Zoroastrianas a alma dos homens é como uma chama de fogo e se deposita num vaso de barro (corpo) quando encarna neste mundo até que com o passar do tempo este vaso se vai desgastando e finalmente se quebra deixando livre esta lingua de fogo que regressa para onde se manifesta o Fogo Divino.

Ora, quando esta lingua de fogo encara o Fogo Divino tem de estar preparada para a intensidade Dele, senão continua descer e a subir até estar preparada, de acordo com as crenças de reencarnação zoroastrianas, ou seja, até se identificar com Ele e aí  não mais precisar de descer.

 
No Zoroastrismo não existem missas ou orações colectivas, cada um vai ao templo como uma experiência pessoal e leva para sua casa uma brasa do Fogo sagrado do templo e mantêm em sua casa uma ‘emanação’ desse fogo central, agora como fogo doméstico, simbolo da sua origem divina a que tem de estar atento todos os dias. 

  
Dentre as muitas cerimónias da vida zoroastriana, a mais conhecida é o Naojate, inicio da puberdade e Iniciação dos jovens.

Nesta cerimónia todos vestem o sudra (camisa branca, simbolo de pureza). 


Os jovens entre os 7 e 12 anos, vão nessa cerimónia receber o kusti (cinto que separa o cima-puro do baixo-impuro, o sagrado do profano).   

  
As 4 pontas do kusti representam, Ahura Mazda ou Deus Poderoso, a Lei de Zoroastro, Zoroastro o Profeta e que o novo Iniciado está decidido a fazer o Bem.
A cerimónia realiza-se, sempre de dia,  em casas particulares com 4-5 sacerdotes.     


Inicia-se com um banho (Nahan) purificador do jovem, segue-se um ritual (Achu michu) para remover o mau olhado  (para que esteja sempre atento a fazer o bem e combater o mal) , seja queimando sementes de uma planta ou usando uma taça de agua e certos ingredientes e fazendo com eles vários movimentos circulares (para absorver-destruir o mal)  à volta do jovem e finalmente aspergindo-o com essa água sagrada.

 Nahan
 
  Achu michu
                                           
Achu michu, a avó circula um ovo ao redor da cabeça do jovem

Em seguida, o jovem entra com o pé direito na sala onde está o fogo doméstico entoando uma canção do livro Avesta e de seguida guiado pelo sacerdote coloca o kusti à cintura e passa a ser Behdin, Fiel da Boa Religião.


  

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